domingo, 1 de abril de 2012

Maché






No sábado de manhã participei de uma reunião pra combinar as próximas visitas no Haiti e aproveitei pra conhecer um lugar que limpa arroz da comunidade. Fica ao lado de um maché, visita obrigatória. Maché é mercado em kreyol, e é um feira a céu aberto que acontece aos sábados e quartas. Todos os produtores da região vão ao maché levar seus produtos. Tem de tudo, inclusive eletrônicos. Tem um aspecto bem seco, árido, meio empoeirado, mas sobra calor humano. Algumas crianças, pra variar, me chamavam de blan (que além de branco pode significar estrangeiro também) pedindo dinheiro, mas sem muita insistência. Depois passeamos por veredas de coisas à venda no chão, chamados de blan e olhares novamente estarrecidos (eu pensava que era pelo meu chapéu de camponês que destoava do meu esporte fino urbano paulista, mas a verdade é que ser branco é de um impacto social impressionante, tenho certeza que fui o primeiro branco que muitas pessoas viram na vida, sem dúvida.). Eu fiquei bem sem graça de sacar minha câmera e tirar fotos numa reciprocidade de impressão do exótico. Acho que assustaria mais. Então meu amigo, que já conhecia alguns comerciantes, diz pra um deles que sou fotógrafo, e as duas vendedoras me chamam e pedem uma foto. A partir daí, quando a criançada viu, pularam em cima de mim pedindo milhares de fotos. E a crianças faziam poses ótimas. Quanto mais novas, mais fácil a aproximação do homem blan. Os quase adolescentes se sentem desconfiados e adulto varia. Enfim, a criançada ia aumentando na minha frente e pedindo foto, e eu tirando de tudo que é jeito, naquele sol forte do meio dia. Enquanto isso uma mulher me chama pra tirar foto dela. Tinha um rosto cansado, marcado pelo tempo e pelas intempéries haitianas. Pediu a foto e quase não olhava pra mim, olhava pro lado, desviava, olhava para o chão. Diferente das crianças exibidas, me pediu pra registrar sua timidez, sua falta de jeito, seu olhar cansado. É mais comovente ao vivo vendo aquelas pessoas que não conseguem se comunicar contigo do que escrevendo. As crianças possuíam um mirada fantástica. Um gurizim me tocou no braço e pediu uma foto. Posou na minha frente com os braços cruzados, e um sorriso de uma segurança, pra mim, incrível. Esse moleque tem uma postura incrível. Parece que ele tem um talento nato. Simpatizei demais com o moleque. Fiquei com vontade de ensinar ele a jogar futebol. É um povo sofrido mas de uma dignidade pra além da calça jeans no calor de 35 graus. O Haiti praticamente não tem Estado, não tem infra estrutura. Está bem a Deus-dará. Mas tem um povo com um semblante firme, que aponta pra algum movimento que, eu, como brazuca caipira, ainda não consegui sacar. O único coitado aqui sou eu bezuntado de protetor barato e um chapéu de palha pra sair a rua.

Um comentário:

  1. Lindas as fotos rafolito! O menino tem uma cara de sapeca! mas ao mesmo tempo homenzarrão! é um pouco fisionomia de quem vive no limite, ainda mais na infância...

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