O segundo dia de viagem começou cedo. Cedo pra mim é qualquer coisa que seja antes do café ficar pronto. Nesse caso não tinha café nenhum, mas a sensação era essa. As coisas no Haiti costumam ser cedo porque funcionam, segundo a regra de Copérnico, em torno do sol. Faz sentido se você vive num país sem eletricidade. Assim como a cerveja, o Haiti tem um café bom, feito pra exportação, mas eu ainda não provei. Provei um mais barato, litros aquém do meu saudoso Pilão. Mas pra quem passou os últimos dois meses e meio no México, tomando aquele café em copo de milk shake do Bob's, mais aguado que a regadeira lá de casa, então está ótimo. Eu sempre tomei muito cafézim paulistano, e muito chimarrão, dada minha ascendência gaudérica, então a necessidade de um estimulante é quase ontológica. Eu vivo uma malemolência crônica na ausência de cafeína, todo dia penso que é o primeiro sintoma da malária e já me sinto um Villas Boas. Enfim. Não tinha café pra tomar. O André me disse que havia dado um dinheiro para que umas das filhas do dono ou mulheres que trabalham no edifício kafkaniano sem reboco fizesse um café. Saímos a rua porque, como havia dito, pressa, prazo e outras vicissitudes desnecessárias paulistanas, não existe no vocabulário haitiano. Imagina minha fome matinal depois do meu jantar de bolachinha água e sal… O André precisava colocar créditos no celular e comprar uma bermuda, já que a idéia era no último dia chegar a uma praia caribenha, e seu calção de banho ficou na fatídica mochila. Se tem um serviço que funciona no Haiti é a compra de créditos pra celular. Depois da Mãe Natureza, que com seus ciclones produz açudes e rios e outras infra-estruturas pro povo haitiano, acredito que as empresas de celular são quem mais emprega nesse país. Tem muita gente na rua (eles ficam com um colete passeando) que colocam créditos na hora através do próprio celular. Se eu fosse assaltante -- eu tenho esse hábito, quando não tenho nada o que fazer, pensar no que eu poderia assaltar e qual rota de fuga utilizaria -- então, se eu fosse assaltante, eu assaltaria esses moleques, que sempre tem muito dinheiro na mão, de todas as recargas do dia. Mas ter muito dinheiro haitiano significa muita sujeira no bolso (uma hora eu vou colocar uma foto do goud, é muito sujo e amassado, parece que foi conservado enterrando na areia) e pouquíssimos dólares. Então não é um bom investimento. Colocamos crédito, buscamos um lugar que carregava o celular e ainda fomos atrás do seu calção. No breve caminho de dois quarteirões, encontramos mais filhos do dono do prédio, ou pessoas que eram simplesmente simpáticas comigo e eu achava que eram filhos do dono, e aquele que eu suspeitava que era meio doidinho. De manhã cedo, sob luz divina do sol, depois de meia dúzia de frases sem sentido ficou claro que ele era meio pancada. Compramos o calção do André depois de algumas pechinchadas por 125 gouds. Essas coisas se compram usadas na rua. Não tem loja. Se tem, só em Porto Príncipe em algum lugar mais 'nobre'. O André saiu contente com o preço, tinha baixado quase 50 gouds, até os moleques amigos disserem que esse é o preço para estrangeiro, haitiano pagaria no máximo 50 gouds. Sem dúvida eles dobram o preço pra quem tem passaporte de fora. Passamos por uma pracinha, daquelas com brinquedos infantis meio quebrados e largados, jovens desempregados jogando conversa fora, poças-berço de mosquito, estruturas baqueadas, não pelo terremoto, que não atingiu o país inteiro, mas pelo tempo e mau cuidado mesmo. Firme mesmo só a igreja que estava em reforma ou construção. As igrejas aqui são bem feitas, bem construídas. Tijolo, pedra, cimento. Pintura externa. Em geral, as maiores que vi por aqui são católicas. Mas tem protestante, batista e evangélicas também. O povo parece bem católico, mesmo seguindo seus deuses afro descendentes do Vodu, que se assemelha, pelo que dizem, ao nosso Candomblé. Semana que vem vou tentar dar um pulo lá, numa pomba gira haitiana, uma salviazinha pra espantar a zique zira e me descolar um emprego quando eu voltar ao Brasil. Achei que o café já estaria pronto. Afinal, eram quase 10h se não me engano. Não tenho relógio e nem celular por aqui. Mas assim como Robson Crusoé fazia, se o negão não sabe as horas olha pro sol. Acho que eram umas 10h mesmo. E o café estava pronto quando chegamos. Pra surpresa geral da nação, o café era um jarro d'água que fui obrigado a evitar novamente e nosso famoso prato haitiano: espaguetí. Mais um pratão delicioso, amo spaghetti, até cru, dessa vez com muito menos pimenta, arrebentei de comer. Meu sorriso de satisfação não cabia nem no capacete da moto. O sol estava bom, firme sem torrar e era um sinal de estrada mais seca, calça mais seca, viagem mais rápida. Não havia mais rios para serem atravessados na garupa. Só riozinhos barrentos que tinha pontes, pontes que não tinham rios, e rios de pedra ou que as plantas já tomaram conta. A paisagem seguiu a mesma metamorfose: cactos, pedras, semi árido, depois umidade, sombras, plantações, morros, subidas, descidas, bodes, burricos, motos, pessoas, principalmente mulheres, conduzindo burricos com cargas de plantações, crianças nuas, casas ao redor, paradas pro xixi, desertos, cidadezinhas, gritos de 'blan!', alguém me pede dinheiro, outros acenam e seguimos até a primeira parada. Buscávamos um dos coordenadores do Tet Kole naquela região, um sujeito bem interessante, com muito respaldo moral na comunidade, sete mulheres, nenhum endereço fixo e um celular que não pára de tocar. Mas ele não estava. Esperamos um o sol secar um pouco mais a estrada, e fomos falar com outro coordenador que estava em uma reunião. No caminho vejo uma igreja junto no meio de uma poça gigante e fiz uma foto. Dei o título infame de 'catolicismo por água abaixo'. Se deus existe e é misericordioso como o sujeito da tv diz, então ele podia me arranjar um emprego onde eu passe o dia dando títulos para as minhas próprias fotos. A chuva é boa para os camponeses porque tem região de seca que não tem acesso algum a água. Mas sempre dá uma castigada. Tem estradas que ficam absolutamente inviáveis. Não escoa a produção, as pessoas ficam semi isoladas em cidadezinhas, estilo micro cidadezinhas, com zero infra estrutura para qualquer emergência.
Partimos mais para dentro do mato. As casas iam diminuindo a frequência, a falta de água faz cair a já alta densidade demográfica haitiana. Chegando perto de um projeto que construiu um 'reservatório' de sementes (seria isso um silo? a única coisa do meio rural que eu conheço é o Júlio do Cocoricó que passava na Cultura) topamos com um agricultor conhecido do André no caminho. O sujeito mora com a família numa casa humilde, casa de taipa, pau a pique, sei não, sei que ainda não tinha o barro pra consolidar a parede, tinha apenas uns panos. Estou sendo repetitivo, mas o sujeito era simpático. Fazer o quê, o haitiano é simpático, sorridente, transmite uma alegria honesta em te cumprimentar. Talvez eu seja ingênuo, mas eu gosto de ser assim. Ser ingênuo e acreditar nas pessoas é tipo ser religioso. Mas sem dogmas. O sujeito deveria ter quase sessenta anos, e era forte, tinha estrutura forte. Cheguei a conclusão que academia é pra desocupados. Se você quer ter o corpo malhadão vai trabalhar na roça. Bíceps, tríceps e outras proparoxítonas definidas aos sessenta… Fotos, respingos, despedimos e chegamos em cinco minutos no reservatório que estava fechado. É um projeto de uma ong estrangeira com um movimento social haitiano e a ajuda da Via Campesina. Alguma questão burocrática estava impedindo de funcionar melhor. Quando chegamos, um outro senhor camponês, dessa vez deveria ter uns setenta anos, eu sou bom com essa coisa de adivinhar idade, pode confiar, chegou pra conversar conosco. De boné, camisa listrada, bermuda meio rasgada e um tênis, estilo timberland, já surrado com furo no dedão. Ele chegou daquele jeito que eu gosto: sorrindo bastante, cumprimentando fortemente e com aquela alegria que dá vontade de abraçar aquele senhor e chamar ele pra tomar um café com bolo de fubá. O André já havia dito que ele era era muito gente fina. O tipo de pessoa que faz o sujeito acreditar no trabalho da Via Campesina no Haiti. Ele morava ao lado do reservatório, talvez uns vinte metros, numa casinha meio barraco, choça mesmo, mais precária que do outro camponês. Morava sozinho, se não me engano. Começou a falar da seca, do problema das sementes e fez um relato comovente sobre uma situação duríssima de não ter o que comer todo dia. Eu sei que isso também se passa no Brasil, não é nenhuma novidade, não fui criado na Suíça, mas mesmo assim te faz pensar. Um idoso, com uma disposição de esbanjar saúde, deveria estar curtindo uma aposentadoria em algum paga e pesque, ou seja lá qual seja o hobby do cara. Vender suas parcas cabritas pra não passar fome é de matar o bom dia. Mais fotos, abraços, caminho de volta, buzinadinha pro outro camponês da ida e seguimos para a casa de um outro camponês, mais no alto do morro, com uma vista linda. Ele já tinha mais condição e mais filhos. Contei uns quatro e acho que mais um, daqueles parentes que vem visitar e acabam ficando. Pra variar a molecada pirava na máquina fotográfica e faziam poses ótimas. Havia um moleque, tenho foto pra comprovar, com uma camiseta de futebol rosa, escrito YMCA. No meio de um passeio disse que minha mão era bonita porque era vermelha. Ixi… Minha mão é vermelha? Ser branquelão tem dessas, o sangue fica mais visível na superfície ou sei lá que explicação. Esse camponês, pra variar novamente, gentil e sorridente, nos ofereceu uma comida, pois a princípio dormiríamos lá. E pra variar eu estava com fome e pra variar eles são gentis. Dessa vez, por ser quase fim de tarde não era espaguetí, nossa cota de espaguetí diária já tinha ido. Era arroz com um feijão chamado guandu. Tem um caldo aguado, mas é interessante. E ter fome ajuda. Era uma casa simples, sala junto com a cama, parede de tijolo e almoço pra visita é sinal de boas condições sociais. Havia flores de plástico na mesa. Curiosamente algumas pétalas estavam murchas. Eu falo que o Haiti é surreal: ponte sem rio, rio sem ponte, flor de plástico murcha. Lembrei de um texto que li na faculdade, numa aula de sociologia, sobre uma pesquisa feita no Rio Grande do Sul, nos idos dos 80, sobre o comportamento das famílias camponesas que migravam para as cidades. Algo assim. A autora destacava que além de deixaram a televisão perto da porta de entrada, de modo que os vizinhos vissem que a pessoa tinham uma tv, flores de plástico era sinal de acesso a bens industrializados, sinal de renda. Era curioso já que quem vive no meio rural tem um conhecimento enorme sobre flores, plantas e todo o cuidado necessário que, para mim, se resume a molhar todo dia num vaso bonito. Outra curiosidade, é que nessa casa, na sala-quarto-de-jantar, havia pendurado no teto uma espécie de varal cheio de páginas de revista de celebridade. Grande parte brancos americanos. Achei interessante aquilo. No meio rural haitiano, numa casa simples camponesa, recortes de anúncios e celebridades pendurados em cima da mesa de jantar. Parecia aquela coisa de poster em quarto de adolescente. Talvez seja a menina, que tinha uns 12 anos, que tenha pendurado. Não quis perguntar. O André conseguiu telefonar pro sujeito difícil de achar, do Tet Kole, e se encontrássemos ainda hoje agilizaria nossa agenda de viagem. Partimos. Despedidas efusivas, abraços, uma vista incrível de um acidente geográfico que eu arriscaria chamar de vale. Ou semi vale, acho que está de bom tamanho. O Haiti é lindo, mesmo tão desmatado. Já disse que a energia motriz do país é o carvão? Então eles desmatam tudo pra fazer carvão e vender. Dá dinheiro pro camponês pobre. Dá uma erosão danada também. Isso se reflete nas áreas desérticas pelo caminho. Ignição na motinho, incríveis 40 km por hora e chegamos na base do Tet Kole atrás do Lulinha. Ele parece um pouco Lula. Meio baixo, meio rouco, barba e liderança social. Mas dez dedos. Vou chamar ele de Lulinha pra facilitar. Na base nos disseram que ele estava na 'casa' do lado. Casa com umas dezesseis aspas. Porque, não entendi bem, eles conseguiram uma terra e fizeram uma casa. Mas daquela muito encantada, não tinha teto, não tinha nada. Teto tinha, mas só teto. Não tinha parede, nem cadeira, nem nada. Na verdade não é uma casa, é um teto só, e umas pedras pra sentar. Aí eles seu reunem al e sentam na pedra. Nesse dia, eu escutei um sujeito falando alto, grosso, baita discurso. Aliás, os haitianos falam alto, gesticulam, gritam, parecem sempre que está rolando uma briga, um escândalo, mas o jeito deles mesmo de discutir, não chega nas vias de fato. Só se você for branco e atropelar uma galinha deles. E dá-lhe discussão, vozerão, deve ser treta, vamos dar uma olhada, pessoas reunidas e o Lulinha sentado entre dois adolescentes, com cerca de 15 pessoas em pé, algumas sentados no chão ao seu redor. O figura de boné, e um toalha no pescoço, porque estava com algum tipo de doença. Talvez seja por isso que estava um pouco rouco. Ofereceu um peixe frito com banana frita ou assada. Não sei se foi por educação, pois fizeram pra ele, ele comia também, mas eu e o André rapelamos o prato sem dó. Andar de moto dá fome. Peixe frito é bom demais. Bom, seguiu a discussão, o sujeito grande terminou e ficou no canto. Chega uma mulher mais velha, camponesa com dons de atriz. Caras e bocas, um drama, uma interpretação, demais, melhor que novela das seis. Num país onde boa parte dos camponeses são analfabetos, a retórica ganha muitos pontos. E a mulher fala quase uma hora. Já estou tirando foto de bananeira, pensando na vida, esperando acabar aquilo e o André me pergunta se eu estou entendo o caso. Depois do bom dia, como vai você, eu não entendo nada em creole, só aquelas palavras de som afrancesado. Ele me explica que os adolescentes sentados, de 17 o menino e 15 a menina, há dois anos, tiveram um affair sexual. Sem gravidez. Mas pegou mal pra família da menina. Não sei se rola uma parada virgindade aqui antes do casamento, ou segundo o André é falta do que fazer do povo. O pai entrou na justiça contra o moleque, e deu até briga de facão entre as famílias. Dois anos de treta por uma transada indevida. A não ser que tenha detalhes quentes, que a gente não soube, tipo uma transada no meio da plantação prejudicando a colheita. Mas eles estavam brigando por isso. Os dois adolescentes com uma cara de bunda. O Lulinha escutando tudo e atendendo o celular a cada dez minutos. Eu comecei a me divertir vendo a cara de indignação da mãe da menina. Eu não sei qual era a acusação formal contra o moleque. Estar na puberdade? Sei que a discussão foi longa. Segundo o André, essa província tem a maior base social do Tet Kole, e o Lulinha, um dos fundadores há mais de vinte anos, por toda sua trajetória de vida tem uma moral na comunidade de juiz! Então era esse o papel dele ali. Determinar um veredicto para um problema que se arrastava por dois anos. O moleque de 15 chegou na maldade em mútuo acordo na de 13.
Era engraçado que um dirigente social estivesse resolvendo um caso desse. Mas assim que funciona o Haiti. Sem Estado, regra, lei. Na raça. O sol se pondo, sem luz na casa que é puro teto e quintal, a conversa deveria terminar. Até usou a gente de justificativa, como brasileiros, que vieram de longe, trabalho com camponeses, mochilas perdidas, e eles mereciam sua atenção também. Ser brasileiro no Haiti é demais. Muda o tratamento na hora. Fala que é brasileiro que você ganha um 'ohhh…' e um sorriso grátis. Valeu Brasil, você me deu uma escola pública capenga, uma saúde pública improvável, um custo de vida injustamente alto mas uma certidão de nascimento que abre portas. Pelo menos o México e no Haiti.
A resolução do Lulinha foi genial: perguntou se os jovens ainda queriam se ver e namorar, eles disseram que não, então as famílias só deveriam evitar que eles se vissem. Pronto. Tchau. Foi isso que eu entendi. Já estávamos num breu total, o André conversou algumas coisas, e ficamos de nos encontrar no dia seguinte de manhã. O Lulinha não estava muito bem mesmo. Então, na base, o sujeito que morava lá, não estava mais. Deu um perdido. A gente iria dormir lá. Cadê o cara? Sumiu. Como não tem poste na rua, nem lampião, nem nada, só a luz das motocas e mototaxis na estrada, o Haiti vira um breu total-total. Numa cidadezinha no meio do nada, não tem hotel, essas coisas. O cara some e aquele peixinho frito nem deu pra enganar a fome. E agora, José? Agora a simpatia haitiana dá um jeito. Um outro camponês do movimento, sem nunca ter nos conhecido, oferece sua casa e literalmente sua cama. Sem ele claro. Eu não sei se é o calor, os mosquitos, a saudade ou esse meu coração peludo que não tem dó de não dar um centavo de esmola pra todas as criancinhas que me pedem na rua, mas que às vezes resbala numa molenguice e eu fico assim, meio conhaque do Drummond, que bota a gente como o diabo… Eu não estava preocupado. Sabia que tudo se dá um jeito nesse país. E o Haiti, repito, não é perigoso, mas nem na metade do que é São Paulo ou a Cidade do México. Não é o mesmo tipo de violência, não é o mesmo tipo de marginalização. É outra coisa, outro estágio que vive o Haiti. Mesmo assim, o gesto do camponês, com todas as dificuldades que eles passam, de levar dois estranhos 'amigos' do movimento deles, pra dentro de casa, dormir na sua cama, dar água e comida, pra mim é fantástico. Achei o gesto nobre nível celestial. Que povo gente fina. Ele não tem um apartamento com um sofá para a visita, e um íma de geladeira de uma pizzaria boa. Ele tem uma casa, boa pros padrões haitianos, até brasileiros eu diria, mas sem luz, água, saindo do período de seca do país. Com dois estrangeiros, onde só um fala o creole, prestes a dormir em sua cama e comer a sua comida. E a gente naquele esquema básico: sujo, faminto, cansado. Já são sei lá que horas da noite. Estamos em seu quarto quase sala. O Haiti tem uma cultura bem machista ainda. As mulheres sempre ficam em segundo plano. Comem depois, aparecem depois, falam depois, carregam tudo na cabeça. Então, naquele escurão de meu deus, só vi uns vultos de mulher na casa, um sorriso, um cumprimento. Alguém traz alguma cadeira. Estamos sentados e começamos aquela conversa de elevador, bem sem graça. Eu vim do Brasil, ah que legal. Escuridão, uma lanterninha dele e a minha lanterninha fera que comprei no camelô mexicano. Conversa mole, sorriso amarelo. Quebra o gelo, mas não quebra totalmente. Não tem muito assunto, meu intérprete tá cansado, eu também já estava cochilando sentado, o cara até sugeriu pra eu dormir, despertei sem graça, imagina, não precisa, já acordei de novo. É meio chato dormir na frente de uma pessoa educada que está te recebendo em casa. Muita falta de educação. Aparece mais um cara no quarto semi-escuro. Agora são dois haitianos sentados na cama, eu e o André nas cadeiras. Alguém pergunta se queremos fazer o 'toalette'. Que é basicamente se banhar. É normal tomar banho de caneca aqui. Eu curto, porque posso demorar muito sem necessariamente estar desperdiçando água. O André fala que toma banho sim. Chega uma bacia grande e uma baldão de água. No meio do quarto? Sim. Os dois haitianos seguem sentados na cama e eu na cadeira. É isso mesmo? A porta pro outro quarto-quase-cozinha é estreita com um pano fechando. Às vezes surge uma criança espiando curiosa os 'blans' (mesmo o André ser mistura de índio, negro e branco, com uma pele escura, as pessoas o chamam de 'blan', que significa estrangeiro também). Eu falei pro André, ô fera, não vai ficar pelado na frente das crianças. Claro que não, só na frente dos adultos. Eu sei que o Haiti tem uma relação mais branda com a nudez. Eles tomam banhos nos canais ao lado da rodovia. Mulher pagando peitinho é normal. Top less liberado e respeitado. Mas tomar banho na frente de dois estranhos recém-conhecidos, numa bacia, foi demais. Em geral, os banhos de caneca que eu tomei foram em banheiros mais ou menos desativados, já que banheiro sem água não costuma fazer muito sentido. Nunca tomei na sala-quarto-de-estar de alguém. Nem sabia que podia. Com uma naturalidade invejável, no meio daquela conversa jogada fora, meu parceiro de viagem fica peladão, na frente dos caras. De cócoras, lavando suas partes íntimas. Eu tentei explicar que se chama íntima, e fica protegido por uma cueca, porque é exatamente pra não expôr desagradavelmente por aí. Ainda bem que foi antes do jantar. Pra surpresa geral da nação -- nação, no caso, eu -- os caras se mantiveram lá, sentados na cama, tranquilos, com aquela conversa mole e, o dono da casa, ainda por cima, ajudava com uma caneca a encher a bacia com o André dentro, mandando ver na lavagem do bigolim. Depois deu ficar abismado, tipo criancinha haitiana quando me vê, ao presenciar a higiene pessoal compartilhada, eu comecei a rir muito por dentro daquela cena bizarra. Uma lanterninha meia boca, um cara numa bacia molhando a bunda na frente de dois haitianos, super tranquilos, como a cena mais natural do mundo. Pra que se banhar num lugar reservado se você pode ir trocando uma idéia em creole, sobre o tempo, a viagem de moto ou sei lá o quê. Eu baixava a cabeça pra rir discretamente. Ri mais do que a cena da travessia do rio de conchinha. Não faço questão de guardar a cena do André pelado na minha frente lavando a bunda numa bacia, mas a cena em geral, com a complacência haitiana como dois gentlemans, eu nunca vou esquecer. O cara ainda ajudou com a canequinha d'água, numa proximidade desnecessário do pinto alheio. Eu ri muito. Que povo legal, cara… Eles não estão nem aí pro pinto dos outros, ajudam mesmo. Eu me mantive porco, sujo e cristão, pois sabia que no dia seguinte haveria água lá na nossa base. Já estava psicologicamente preparado pro desafio 48 horas sem banho. E dá-lhe álcool em gel. De repente chega a janta. Outro arroz com feijão. Um pratão generosíssimo. Só de lembrar já me deu fome. Um feijão diferente e ainda havia um molho de um peixe, que só soube que tinha peixe depois, na semi escuridão não enxerguei, só vi uma batata, algo assim, e estava ótimo mesmo. Adoro jantar. Eles ainda nos trouxeram dois sucos de garrafinha. Eles são muito gentis. Suco industrializado pro mendigão brasileiro. Achei de bom tom não abusar e só tomamos um. Banana com laranja e abacaxi. É comum este suco por aqui, mas só industrializado. É bom. Rindo com a cena bizarra da bacia. "Então eu vou tomar um banho", "Legal, pode tomar, eu vou ficar sentado te ajudando". Debaixo da cama havia um balde pra aquele xixi indisciplinado da madrugada, mas não foi necessário, dormi que nem uma pedra. Sujo e satisfeito.
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