domingo, 1 de abril de 2012

Chegada




A cidade onde fica a base da Via Campesina se chama Petite Riviere de l'Artibonite. Fica a 3 horas de Porto Príncipe. No caminho o cenário é o mesmo: muitos morros desmatados, barracos construídos de qualquer coisa possível ao lado da rodovia e muitas motos em tudo que é canto. Não há saneamento básico nem eletricidade. Às vezes se vê um gato no poste. Mas é raro. Aquela luz não é constante, talvez quatro horas ao dia. Às vezes a luz só chega de madrugada... O povo se banha nos córregos sujos à margem da estrada. Ali lavam roupas, pratos, se divertem. Há fontes que parecem menos sujas onde buscam água. Mulheres com latas, sacos e qualquer coisa na cabeça transitam frequentemente pela beirada destruída da estrada onde deveria haver um acostamento ou calçada. Como é época de seca, há valas enormes de rios inexistentes, agora preenchidos por lixo. É lixo pra tudo que é lado. Plástico, isopor. Resto de não sei o quê. A pessoas cozinham na beira de estrada, vendem água lacrada, roupas usadas, coisas eletrônicas. Sucos de garrafa, milho assado, cigarro, pilha, tudo. Ônibus escolares americanos são usados como transporte da população. Os grandes são usados como intermunicipais. Eles dirigem querendo ver Deus. Correm buzinando, e as pessoas, motos ou outros veículos, se jogam no quase acostamento pra evitar a colisão. Havia um carro capotado no caminho. Tem também as saveiros que levam as pessoas na sentadas na caçamba. Se chamam 'tap tap'. São bem coloridos e parecem um pau-de-arara compact. No meio da destruição, do lixo, do caos, tem um supermercado com ar condicionado, Corn Flakes, Heinneken, espaguete (minha referência de civilização), vinhos chilenos, tipos de creme para cabelo e qualquer outra coisa que se encontra em um supermercado de qualquer cidade grande. Já estamos a uma hora de Porto Princípe e kilômetros de um IDH sensato. As contradições haitianas são muito mais violentas que a fama da população. Crianças pedindo dinheiro, pessoas penduradas em transporte coletivo e falta de saneamento básico, eu já estou acostumado com o nosso Braz. O que chama a atenção mesmo são pessoas trabalhando de calça jeans num calor de 35 graus às 16h. Passamos por um funeral onde todos estavam bem vestidos, de roupa social, ternos, e uma banda com metais incríveis. Ao lado, as pessoas se desnudavam nos canais sujos ao lado da rodovia. Da janela do carro, me olhavam como se eu tivesse o pior penteado do mundo ou talvez o nariz mais comprido do Caribe o que, sinceramente, é possível que eu tenha mesmo -- nariz, não penteado. Ser branco é absurdamente visado aqui. É mais que visado, é um evento. Não existe brancos aqui. Não no interior. Simplesmente não existe. Eles olham estarrecidos, com espanto, mas é só você fazer um gesto humilde com a cabeça seguido de um "bonjour" que você obtém uma resposta igual e um sorriso cativante. Talvez o Haiti seja o país com as pessoas mais sorridentes por metro quadrado. Em geral são pessoas altas, com um sorriso bonito, mesclando uma humildade com uma dignidade sólida. Eles cativam. E olha que eu sou um sujeito difícil...
À noite tomei um café um pouco aguado e adocicado para o meu sofisticado paladar paulistano. Mas como no México café é feito com 8 partes de água para nenhuma de café, eu já estava bem satisfeito. Me convide para um café e pão com queijo que eu gamo. Depois me chamaran para conhecer a famosa cerveja haitiana: Prestige. Já ganhou prêmios internacionais. De fato, é deliciosa. A cerveja no Haiti tem o preço de cerveja no Brasil. Quase 23h, quinta-feira, no meio rural haitiano, pode-se encontrar cerveja boa em um posto de gasolina, numa loja como essas de conveniência, mais ou menos freqüentado pela mais ou menos classe média haitiana. Devem ser os filhos dos donos de terra. Havia amigos nas mesas, um gerador de eletricidade dando o tom ao fundo e um segurança com uma escopeta digna de PM em dia de Corinthians e Palmeiras. O sujeito, mais de 2m de altura, era de um sorriso e uma simpatia que anulava o impacto da arma. Cumprimentava todos que chegavam, conversava com as pessoas e ajudava os carros a estacionar. Cerveja gelada e ótima. Pessoas simpáticas. Motos chegando e saindo. Tirando a escopeta, era uma típica cidade do interior. Ótima maneira de chegar ao Haiti.

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