domingo, 1 de abril de 2012

Embarque


Antes de ir ao Haiti eu já sabia que eles gostavam muito de brasileiros. No México eles já gostam bastante. No Haiti é quase febre. Ainda mais agora com a propaganda da economia brasileira, a gente é sensação mundial. Me sinto uma celebridade rota. Pensei que viajar com a camisa da seleção, estilo anos 50, poderia ajudar a minha recepção, além da fácil identificação dos meus colegas que me esperavam no aeroporto. Logo no saguão de embarque, pela primeira vez na minha vida, eu era único branco no meio de cerca de 40 negros prontos para embarcar. Um deles tinha um boné e camiseta da seleção brasileira, como um torcedor em Copa do Mundo. Na hora de entrar no avião, dois jovens haitianos, com roupas estilo americana, alguns produtos eletrônicos nas mãos, tiravam fotos na entrada do avião, sem se importar com a fila que formava para entrar. Esperamos a pose certa, o flash e entramos. Quando procuro meu assento, vejo que um amigo desses jovens estava sentado no meu lugar. Logo na janelinha. Como não falo um 'a' de kreyol, nem de francês e meu inglês me constrange de tal maneira que às vezes prefiro nem tentar, me resignei no assento do lado, pensando que talvez sentar na cadeira que não é tua possa ser um aspecto da cultural informal haitiana. Mas como eu queria filmar a chegada pela janela e o avião não estava cheio, procurei outro assento atrás. Daí minha camisa canarinho falou mais alto. Um jovem haitiano já perguntou se eu era brasileiro, se falava inglês, que sim que eu podia sentar ali, não tinha problema, se eu falva então espanhol, disse que sim enquanto me ajeitava no meu assento e o sujeito já começou a perguntar: como está o Brasil, é fácil conseguir visa, tem universidade pública de medicina, quanto tempo tem que estudar pra entrar em Medicina, tem que pagar pra estudar pra entrar na faculdade, quanto custa o aluguel, quanto tempo demora pra aprender o português e assim por diante. Como eu havia saído do México e lanchado um cafézim da manhã no avião bem ser vergonha, e sabia que só um amendoim me esperaria naquela viagem, eu trouxe um sanduichão mexicano que uma amiga japonesa gentilmente preparou pra mim. Eu tentava mastigar e engolir e responder em espanhol o quanto estava cara a vida em São Paulo e como era difícil entrar em Medicina. Até sugeri a ele estudar na México já que falava o básico de espanhol.

Trocamos contato no facebook, juntamente com outro colega seu que insistia para que eu arranjasse uma carta de convite de algum mexicano para eles poderem conseguir entrar no México. "a gente não quer ficar na casa dele, só precisamos de uma carta de convite para conseguir o visto." Claro, vou falar com um amigo. E falei quando acessei a internet no Haiti e já havia mais uma mensagem no facebook me lembrando do compromisso.
Ainda conversamos sobre futebol, sobre jogadores brasileiros e escutei um depoimento comovente deste jovem de 22 anos, que trabalha numa congregação cristã, com americanos no Haiti, fala 4 línguas, tinha visto e hotel reservado em Buenos Aires, mas a imigração argentina impediu ele de entrar no país. Quando teve que sair, me disse que os oficiais argentino estavam rindo dele. Me disse: "Essas coisas machucam. Eu não entendo, penso que minha educação pode me levar em todos os lugares do mundo. Eu sou cristão, trabalho duro com os americanos. Tenho visto e reserva no hotel. Por que não me deixaram entrar? Eu só quero estudar. Por que riem de mim? Acho que eles não gostam de haitianos nem de negros." O sonho do Johnson é estudar medicina, no Brasil ou na Argentina, fazer residência no Estados Unidos e voltar ao Haiti para montar seu próprio negócio.
Eu não sabia o que falar. Disse que os argentinos tem uma certa fama de serem racistas, de fato, os únicos negros por lá somos nós, do Braz.
Antes de sair, nos cumprimentamos, agradeci o contato e a conversa.
Me preparei pra descer no aeroporto mais simplório que já vi. Ainda sim, uma banda de música haitiana fez uma recepção animada. Música boa é sempre um bom sinal.
Na imigração nem me perguntaram se tinha vacina contra febre amarela. O policial só perguntou um pouco desconfiado se eu era brasileiro. Respondi com meu francês impecável: oui, oui.
Ele sorriu, e perguntou se eu gostava do Kaká. Disse que preferia o Neymar. Mas a verdade é que eu gosto do Kaká também, são estilos diferentes, mas não poderia dizer isso com meu vocabulário de "oui, oui". Na saída, milhares de centenas de taxistas sorriam, me ofereciam taxi e um deles quis levar minha bagagem. Mérci, não precisa moço, tenho amigos me esperando.
E eles estavam lá, na ponta do corredor do lado de fora do aeroporto. A paisagem era árida, cinza claro, cimento, tijolos, coisas em construção ou reconstrução. Meio cenário de destruição mesmo. Essa foi a primeira impressão. Parece com os filmes sobre a África. Me senti naquele " O último rei da Escócia".

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