Acordei de madrugada com uma vontade de regar um pé de baobá, desde o nascimento até a velhice aguda. Lá fora, barulho de chuva, ou de gotas antigas que caiam no telhado. Não há forro. É a telha direto, de zinco. Cada semente de um pé de não-sei-o-quê que cai em cima dela faz barulho. Quando chove é demais. Deu uma chovida no dia seguinte. É bom dormir com barulho de chuva. Voltando, pensei em regar toda aquela flora mas desisti. Não achava a minha lanterna, era um breu federal, e provavelmente bichos pervertidos, daqueles que só podem sair no escuro, devem estar dominando todo o quintal enlameado. Dormi. Acordo com a molecada. Dessa vez eles estão comportados se arrumando pra escola. A escola é uma instituição bem formal no Haiti. Todos vão bem uniformizados. Meninas de saia e fitas na cabeça. Meninos de bermuda meio social e sapato. Acho que meu avô se vestia assim em seus idos. E eles também apanham na escola. Não aprendeu, não fez a tarefa, leva um sopapo na maldade. Aqui realmente é um século dezenove respingado de vinte um. Mesmo que a família seja bem pobre eles tem uniforme escolar. Bom, não pode ser muito pobre porque mais de 80% (segundo as estimativas subjetivas haitianas que eu ouvi falar) das escolas são particulares. Inclusive as públicas. Eu digo que o Haiti é surreal. Escola pública é paga aqui. Daí os moleques se arrumam, a mulher já fez o café, eu estou pronto pra ir a praia montando na garupa e o Professor insiste pra que não saíamos em jejum. Não sou muito fã de comer logo cedo, acho que eram umas 7h, mas sou menos fã ainda de fazer desfeita. Meti aquele chocolate quente pra dentro e acho que rolou um pãozinho. Tá ótimo, amigão. Partiu. O Professor perguntou se veríamos o 'forte' e indiciou um amigo para nos acompanhar na apresentação do lugar. O 'forte' é a ruína de um forte de mil setecentos e pedrada, para usar termos locais, que repelia, na base do canhão, as invasões, os piratas e depois serviu como resistência contra os franceses. Ponto histórico. Aceitamos a oferta do amigo e ficamos de nos encontrarmos lá. Garupa, mochila e descida rumo ao mar azul do Caribe. E dá-lhe lama. Pegamos um caminho diferente da ida, e descemos por outro lado do morro. Chegamos numa estrada razoavelmente asfaltada que tornou metade da breve viagem a praia (talvez 1 hora) mais amável para com meu traseiro surrado e castigado. Fiz outras panorâmicas tremidas, tortas e sem nexo, só de recordação. A estrada já voltou a ser de terra, a chuva não chegou praqueles lados e logo chegamos na cidadezinha portuária. Um senhor grisalho grita alguma coisa na rua, sinaliza e nos alcança nos impossíveis 30km/h. Era nosso guia. Sobe na garupa! Agora estamos em três, coisa mais que normal, pra não dizer obrigatória no Haiti. Só a relação do haitiano com a moto valeria um blog próprio. Eles levam cabras, de 4 a 5 cinco criancinhas enfileiradas, carrinho de mão e, inclusive, outras motos. Tudo isso eu sou testemunha ocular. Só duas pessoas na moto é muita folga, coisa de playboy. Três é comum, quatro é assim a vida e cinco podia ser pior, você poderia estar a pé. Enfim, fui pra parte mais detrás, tipo bagageiro que é de metal e deixei o guia no meio pra ir falando o caminho pro André. Aí começou minha via crucis bundis. Pegamos um trecho curto, mais cheio de pedras, daquelas que machucam e, iniciando uma pequena subida que foi rápida, mas pulava tanto nas pedras, batia tanto, e eu sentado naquele ferro-bagageiro…Pai do céu, só não chorei porque já não pega bem ser branco aqui, ser branco e chorão, aí te extraditam. Chegamos no forte depois dos cinco minutos mais longos e angustiantes da minha pobre existência. Eu pensava que era uma espécie de ponto turístico. Na verdade é. Mas foi ingenuidade minha, daquela de sachê 200g que eu tomo todo dia de manhã, achar que teria uma entrada, monitores, sei lá, um vigia cuidando do lugar. Tem um placa e toda negligência do povo haitiano. Completamente abandonado, com o interior todo pichado. É uma construção de quase 300 anos. Tem muita história ali. Perguntamos alguma coisa pro nosso amigo-guia que ficava calado, e ele disse qualquer coisa que já estava escrito no painel. Não explicou mais nada. Acho que ele não tinha muito o que fazer e quis passear de moto com a gente. O forte tem uma vista linda, água bem azul com requintes de verde-claro-transparente-guia-de-viagem. Ainda vimos uma parte quase anexa que possuía uns canhões e outros visitantes, mas o mesmo descaso. Um lixo enorme jogado naquele batente antigo. Aliás, o lixo é um problema aqui. Não tem coleta, não tem saco, não tem nada. Tem a beirada das ruas. Até em lavoura sendo semeada eu via lixo incorporado ao ambiente. O André foi levar o senhor até o ponto que o encontramos já que não havia mais nada de histórico para ver. Dispensamos o guia e fomos pra praia. Era ali do lado, num quiosque isolado num ponto lindo de uma espécie de quase-baía, ainda segundo meus já requisitados conhecimentos geológico-geográfico-geoestático. O dono era um francês, bem estilo gente que vive da praia, meio surfista bicho-grilo. Mas o cara trabalhou numa ONG no Haiti por mais de cinco anos e resolveu largar pra viver naquele sossegado lugar banhado de beleza. O padrão francês de qualidade é um oásis no Haiti. Quiosque de praia boa mesmo. Cadeiras e mesas boas, banheiro digno, ducha meu deus do céu e um cardápio incrível a preços haitianos. Vendo aquela pobreza-miséria da vila de pescadores, não consigo imaginar da onde ele consegue sustentar esse quíosque que tem espaço pra camping e quartos pra alugar. O André me disse que tem uma época do ano que dá uma bombada ali. Ou deveria dar. Deve ser o que sobrou da classe média haitiana, ou uns dos 2 milhões de haitianos que vivem nos EUA e Canadá, quando vêem visitar a família. De fato o preço é o padrão do Haiti. Não há nenhum acréscimo pelo lugar sem bonito, limpo, organizado, ter água com saneamento e luz elétrica. Havia placas solares (muito comum no Haiti, até os camponeses tem) mas ele também fez uma gambiarra discreta e ligou o motor do carro em algum freezer. A praia era linda, areia boa, sem onda e a beirada do mar era de água límpida 100% transparente. No horizonte um barquinho pesqueiro, igual as nossas jangadas. E também havia um recente resto de alguma coisa grande de metal. Tinha uma silhueta de um caminhão, mas poderia ser a parte estrutural de um barco também. Não sei, não deu pra distinguir. Mas era grande e deteriorado. Foi o ciclone que trouxe pra lá. Ciclones são assim, criam açudes e tiram as coisas do lugar. Conheci uma senhora francesa simpática e pratiquei um inglês assustadoramente macarrônico. Eu falo como um índio, conjugando apenas em primeira vergonha. Mas deu mais ou menos pra gente conversar. Todo mundo é simpático nesse país, até a francesa. Depois dela só havia duas garotas e um cara. Acho que os três trabalhavam pra empresa de celular que recarrega créditos por aí. Se bem que só uma tinha a camiseta. Uma delas puxou conversa quando viu minha câmera, fez aquelas perguntas básicas, depois foi atrás da gente na praia e disse que queria casar com um brasileiro. Só pra ter alguém pra visitar e fazer uma viagem. Claro que sim. Esse é o André. Ele é brasileiro e fala bem a tua língua. O André fez o mesmo comigo. Mais pra frente tivemos um diálogo de baixo calão ao qual ficou claro essa tal idiossincrasia haitiana. No final das contas elas partiram lá pelo meio dia, uma hora, depois de pedir mais fotos, e ainda uma cerveja. Claro que a gente não pagou. O povo adora pedir que a gente, do nada, pague alguma coisa pra eles, e a gente adora recusar. E é do nada mesmo. Curtimos aquele marzão de meu deus, a água era ótima, tomamos um solzão e eu caprichei na sombra, naquelas espreguiçadeiras de hotel de bacana. Comemos um peixe assado de fazer você repensar essa coisa de voltar ao Brasil, e talvez iniciar uma sociedade com o francês gente fina. Mais uma cerveja, solzim, cochilo, aquela vida e retornamos antes de escurecer. Ainda chegaram na praia os visitantes que estavam junto do forte, que havíamos visto algumas horas atrás. Pareciam de uma excursão. De fato, o haitiano não é muito de praia, mesmo com um litoral incrível. Dava pra ver que a turma não era muito habituada com a dinâmica da maré. Eu sei que tem hotéis de luxos em praias privadas por aqui, mas é como Cancun, coisa pra gringo que chega direto no hotel e dificilmente passa por dentro do miserê do país. Na volta de motoca, vejo crianças carregando uma trouxa de galhos na cabeça pra virar carvão. É uma cena comum. Mas dessa vez deu uma sensibilizada. Não se foi a Prestige ou pôr do sol… Mas o moleque tava com uma cara triste, coitado. Em geral você a molecada ajudando no trabalho pesado, carregando água pra cima e pra baixo, levando peso mesmo, mas com uma cara já conformada, do tipo, a vida é isso, paciência. O povo tem essa cara cansada mas conformada. O moleque destoou com uma certa dor de estar fazendo aquilo. Falei pro André dar uma carona, mas já havíamos embalado pra cima, e há uma norma pra não dar carona desse tipo, porque se ocorre algum acidente o povo haitiano vai fazer justiça com as próprias mãos e etc e etc. E significa que vão matar a gente de forma lenta, cruel e talvez ainda façam um troço pras nossas almas ficarem presas pra sempre no limbo.
Esse é o problema do Haiti: ajudas pontuais não tem um efeito de mudar a estrutura, ou a ausência dela. Subimos mais, voltamos, suspeitamos de garoa, aceleramos, deu preguiça, reduzimos, e chegamos no Professor são e salvo e limpos. Veio aquele jantarzão, aquele sono, aquela conversa com o Professor e, depois a conversa da noite passada resolvemos gravar um breve depoimento dele sobre a situação do Haiti e a relação do movimento dele com a Via Campesina, com ênfase na história dos agrônomos e do trabalho com o futebol. Parecia que a chuva voltava ou eram muitas sementinhas caindo da árvorezona por cima do telhado. O tempo estava mais frio mesmo. Os moleques capetas estavam mais calmos, o Professor menos conversador e capotamos felizes, depois de dar tchau ao mar do Caribe e o mais próximo que eu já cheguei do capitão Sparrow.
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