sexta-feira, 20 de abril de 2012

garupa, dia 3








Alguém tinha me dito, muito provavelmente o André, já que ele era a única pessoa que falava português num raio já de 200km, de que haveria uma reunião na quarta, às sete da matina. Vê se pode… Mas não tem problema, o sol nasce cinco e alguma coisa, os mosquitos te acordam as seis e qualquer coisa e, o fato de estar abusando da hospitalidade, no quarto-sala quase loft se não fosse o excesso de parede, de um haitiano gente fina, faz você acordar cedo pra caramba. E pelo terceiro dia consecutivo, despontando como comida padrão do Haiti, para café da manhã, cedo e meia, aquele pratão que me faz sorrir só de ver a silhueta na tigela: espaguetí. Hmmm… espaguetí… eles sabem me agradar. Quanto mais dentro do interior, menos pimenta vai no espaguetí. Melhor pra mim. Comi como o Mogli quando vê uma plantação de banana. Agradecemos muito, eu agradeci mesmo, com bastante ênfase, como se nunca mais eu fosse ver essa família generosa e acolhedora, até perceber que o cara que nos hospedou e sua esposa estariam novamente conosco em dez minutos, já que eles participariam da reunião. E a reunião era na casa encantada, sem parede nem nada, só com umas pedras pra sentar. Sentei no meu capacete e deixei a pedra pra um próximo que estava em pé. Foi um desafio bundístico ficar sentado naquele capacete. Como não entendo nada de creole, nem me constrange de levantar no meio da reunião e fazer mais fotos do entorno. Retorno, mais uma meia hora de depoimentos, anotações e conclusões sobre a parceria da Via com o Tet Kole. Eles agradecem, sorriem, elogiam e se abraçam: fotos. O André está voltando ao Brasil e faz uma despedida mais significativa. Fim da reunião, vamos à base que fica ao lado, onde o cara iria nos hospedar deu um perdido. Depois ele se desculpou muito, ficou sentido, a gente dizia, aliás, eu disso isso no meu breve depoimento na reunião, que a hospitalidade haitiana é comovente e fará meu blog repetitivo. A parte do blog é brincadeira. Peguei o depoimento do Lulinha de maneira constrangedoramente amadora. Mas o áudio, graças a deus, ficou razoável, minha maior preocupação, já que comprei um microfone festas-infantis-do-titio-da-VHS. Ripa na chulipa e precisávamos partir dali para agilizar nossa ida à praia no dia seguinte. A paisagem eu não lembro de cor, mas dessa vez tinha mais erosão, cactos, semi-árido, árido completo, mata, bicho, deserto e, depois um pouco de morro. Vem uma descida, subida, pessoas em cima de burricos, carvão no lombo, criança no colo, cercas tortas e cabritos na estrada. Paramos pra ajudar um haitiano que tinha a corrente da sua motinho rompida. Emprestamos uma chave de fenda e achei fantástico esse gesto de generosidade já que uma corrente de moto, parecida com a de bicicleta não tem fenda alguma pra poder usar uma chave de fenda. É que nem pregar um prego com um alicate: obrigado mas isso não serve. Mas o haitiano malandro fez servir. Pegou uma pedra, naquele festival lítico da natureza e, com a chave de fenda engatada em alguma dobra ali da corrente, tirou uns pinos. Depois juntou outra parte, pedregou outro pino pra dentro e, em menos de meia hora, o sujeito consertou uma corrente de moto no meio do quase-deserto haitiano, com uma pedra, chave de fenda e minha indispensável ajuda de fazer sombra. O Haiti até tem um movimento em suas estradas. Sempre vai passar alguma moto, e se você precisar de ajuda aposto que eles vão parar. O problema se der uma zica na moto é guinchar a danada. Ou atravessar um rio com ela morta. Ou dormir em cima dela enquanto não aparece ninguém e o sol alucinado te torra que nem amendoim em porta de estádio. Enfim, torce pra não quebrar. A nossa, chinesa de nascença, brazuca de profissão, só engasgava ali na ignição, de resto ela foi direitinho na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapé.
Já não lembro quanto tempo depois, mas chegamos num rio, que deve ser duas vezes mais largo que o Tietê e umas cento e oitenta quatro vezes mais vazio, já que não tinha mais água, era literalmente uma estrada de pedra. Isso que começou agora a época de chuva. É curioso subir um curso de um leito vazio de um rio,  pura pedra. No máximo uma brechinha de água, bem tímida, furtiva, esquálida, na beiradinha de alguma encruzilhada de pedronas. Ali se vê as lavadeiras e suas trouxas na cabeça. Passamos pés de mangas, que tem muito por aqui, outros cactos, cabritos e burricos e seguimos subindo sentido tropical. A paisagem vai ficando mais verde, um verde mais vivo, a temperatura cai um pouco, tudo é mais úmido, inclusive a estrada. Começa um princípio de lama com aquela ressalva de possibilidade de chuva. Só a falta de gasolina ou preguiça pode parar a gente. Seguimos adiante, porque era muita subida, e se escurece, com chuva, aí sim, a vaca, a porca, as cabritas e os dois brazucas de moto vão pro brejo. Já suspeito que passamos alguma trópico de câncer haitiano porque a paisagem já está sub-tropical segundo meus rígidos conhecimentos técnicos baseado no wikipedia. Meu conceito de subtropical é basicamente o seguinte: se tem uns pés de bananas, coisas verdes escuras, o tempo está mais úmido mais ainda não está chovendo sempre, é subtropical. Ponto. Se chover todos os dia no mesmo horário, açaí, bananeira, Iracema, aí sim é tropical. E dá-lhe subida. Mas agora é subida estilo subir a serra. Era quase uma serra mesmo, mas de uma montanha só. E a lama vai aumentando, e vai surgindo riachinhos no meio do morro, e um processo haitiano fantástico de construir ponte, que é basicamente começar um pilar de uma ponte e depois de uns dois quilômetros tem um troço que parece um trecho, como resto de ponte. Pra variar não vi ninguém trabalhando nela. Aqui no Haiti se vê bastante coisa em construção, principalmente casa. De tudo que vi em construção, inclusive na cidade em que estou alojado, nunca vejo os trabalhadores. Vejo cimento, tijolo pelo meio, andaimes de madeira, segundo andar em stand by, e ninguém trampando. Pode alugar uma casa ao lado de uma construção que não tem martelada, sons metálicos, caminhão de areia causando na rua, nem a moçada do assobio mexendo com a mulher alheia. 
Seguimos passando riachinhos, agora uma lama generosa, velocidade diminuída, quase alcançando os pedestre e passamos um buraco, daqueles que tragam tudo em volta, daqueles que imitam precipício que valeria a pena, seria de bom tom, colocar uma placa ali, um balde com luz sinalizando a presença da morte sem volta praqueles lados. Mas a estrada, em geral, não é perigosa, vai buzinando nas curvas que as pessoas te 'vêem'. O piche de lama faz o povo andar na moral. Só a fome faz o povo andar com pressa. E seguimos subindo, esfriando, lameando mais, às vezes garoando. Na prática só pegamos garoa, nunca chuva, do tipo de lavar o burrico.
Já estamos no meio do morro, seguimos subindo, as casas sumindo, o sol rimando se despedia e a lama aumentando. Junto com a inclinação da montanha. Mais pra cima tinha sinal de pessoas. Não entendia o que aquele povo estava fazendo no alto de uma montanha no meio do nada… Mas era no alto mesmo. Ou você tem uma moto no Haiti ou você vai na padaria comprar cigarro e nunca  mais você volta. Fazer as coisas a pé é pagar promessa… A essa altura eu já desisti de fazer as minhas panorâmicas de parkinson, com as tomadas mais tremidas e provavelmente inúteis que eu já fiz. É melhor usar as duas mãos pra se segurar que a estrada de lama está desafiando os forasteiros. Uma hora a coitada atolou. Tive que descer. Caminhei cinco metros até subir de novo, e eu já podia plantar um pé de abacate na terra que acumulou no meu solado. E aí escorrega mais. Eu e meu apropriado tênis urbano pra lamas, sola lisa de 'não-risque-o-assoalho-da-vovó'. Mas deu tudo certo. Me mantive na vertical quando necessário. Finalmente chegamos no topo. Agora já se configura uma cidadezinha, tem aquele portal de bem-vindo, fala alguma coisa sobre pessoas de paz e a construção mais inteira, bonita e maior é uma igreja católica, recém-inaugurada. O resto é no padrão Haiti. De exceção uma névoa suíça habita o topo da montanha. O clima já pede um agasalho, uma chocolate quente e uma frescura qualquer de Campos do Jordão. Difícil acreditar que estou no Haiti, a paisagem já mudou completamente. Seguimos a casa de um camponês que é diretor de uma escola primária, ginasial, agora não lembro, no meio da subida de todos os santos. O cara é um figura. Eu vou chamar ele de Professor, porque sempre esqueço o nome dele. Quando você escuta muitas palavras novas de um idioma novo é difícil decorar uma coisa específica. A não ser que seja coisas afrancesadas, tipo Pierre. E como o sujeito tinha um jeito de professor mesmo, no modo de perguntar, conversar, o apelido pegou entre a gente. Às vezes eu chamava ele de zoião porque ele é meio estrábico, mas é mancada. Então vai ser Professor só. Chegamos numa casa até que boa para o padrão haitiano, porque era de tijolo. Mas estava bem caindo aos pedaços. De todas as casas que visitei, acho que aquela de ontem que ofereceu um arroz com feijão no meio da tarde, e tinha os recorte de revista pendurados na sala, era o que tinha a casa estruturalmente mais inteira. Essa casa de agora era naquele estilo mesmo haitiano. Banheiro é uma fossa tenebrosa do lado de fora, portas estreitas, luz com tempo contado, água de bacia da chuva. Cozinha também é um cômodo do lado de fora. Isso é um fator importante que eu acho que desnorteia nós, brasileiros famintos e habituados a conversar na cozinha. Tenho a impressão que a cozinha exerce um papel social numa casa brasileira, principalmente as antigas,  que fica um vácuo nas habitações haitianas. Se bem que hoje os apartamentos tem um closet com um microondas embutido numa geladeira. Não dá nem pra sentar. Mas as casas antigas tinham cozinhas legais. E pra quem não gosta de tv mas gosta de café, cozinhas são fundamentais. O Haiti também não é muito de tv. Só vi duas tvs em duas semanas. Uma no restaurante outra numa estrada, num ponto de moto taxi. Enfim, chegamos, cumprimentos alegres, hospitalidade, uma cadeira num lugar que é quase entrando e quase saindo da casa, exatamente no meio do caminho. Como se fosse um hall sem querer. Não há sofá e sala de estar. Mas acolhimento e um pratão de comida não falta, por isso eles são firmeza. Tirei fotos do seus filhos que, pra variar ficam fascinados com uma câmera. Eu entendo eles. Até hoje eu acho controle remoto e coisas sem fio fantásticas. Não compreendo como a voz em um celular pode atravessar o país e chegar ao vivo em outro celular sem delay e resolvi parar de tentar entender de tecnologia porque suspeitava que era tudo bruxaria. O fax ninguém me engana… Enfim, tirei várias fotos das peraltices da molecada. Criança é igual em todo lugar. Eles eram divertidos e meio endiabrados. O vizinho-mirim era mais. Essa era o exu-maré. Mas muito engraçado. No dia seguinte, a gente numa conversa séria sobre o intercâmbio Brasil-Haiti, ele ficava atrás do Professor, me chamando e mostrando o dedo do meio pra mim, que tinha acabado de aprender com o André. A vontade de rir era enorme.
No fim de tarde que chegamos, o Professor estava meio desanimado, mesmo nos recebendo com aquela simpatia. Um primo dele havia falecido, ele iria no velório, até perguntou se queríamos ir. A princípio respondi de bate-pronto que não, imagina, não vou em velório nem no Brasil. A não ser que tenha pastel na faixa, aí eu vou. Mas depois lembrei que funeral no Haiti tem uma caminhada pela rua com o caixão e uma banda com metais no abre-alas. Uma banda com música meio fúnebre, mas não totalmente triste. É um som bonito de escutar. Daí até pensei em ir, mas o André me disse que era só o velório mesmo. Mas acho que o Professor acabou nem indo. Só foi passear com a gente pela cidadezinha dele.
Essa cidadezinha, por estar no topo da montanha, era diferente daquele padrão haitiano rodovia-barracos ao lado. Uma névoa sinistra delineava silhuetas de camponeses trabalhando. O maior acesso a água, o início da temporada de chuvas, proporcionava lavouras por metro quadrado. Todas pequenas, familiares. Tudo plantado ou preparando pra plantar. Estava  bonito. O Haiti é pequeno e populoso. É agrário. Não pode se falar efetivamente que houve uma reforma agrária haitiana, mas de fato, o que seria um latifúndio no Haiti a gente chamaria de campo de futebol no Brasil. A terra no topo é mais avermelhada. A lama predomina. A névoa não se desfaz. Visitamos a futura casa do Professor, uma casa de tiojolo, grande, em construção, mas sem peão na obra, sem perspectiva de terminar. Seguimos vendo camponeses trabalhando, o Professor cumprimentando a todos, parando pra conversar, sorrindo e acenando. Também fiz minha parte: cumprimentei crianças e velhinhos a todo sinal de 'blan!'. Chegamos numa vista interessante. Era tipo um precipício, alvez seja melhor chamar de uma beirada grande pra parecer menos dramático. A vista era daquele tipo de semi vale que tem aqui, já que é um país montanhoso. Abaixo coqueiros, acima uma névoa espessa. Vacas, cabras e burricos. Isso não mudou. Uma escola primária religiosa, uma caminhada, cumprimentos e voltamos. A névoa começa a se dissipar e é possível ver as montanhas do outro lado do semi vale. Estão peladas, num verde sem brilho, de uma vegetação desmatada. A névoa fazia um favor.
Na volta, visitamos uma futura cisterna gigante que captrá e tratará água para toda cidade, mas, novamente, não havia ninguém trabalhando lá, sem previsão de término. Paramos pra uma digníssima Prestige, num bar com um curioso sinal na entrada de "proibido entrar armado". Depois comemos, corajosamente na rua, mas a fome encoraja até frouxo, uma banana assada e um peixe frito. Eu já estava indo pro segundo quando o André me garantiu que haveria uma janta na casa do Professor, que ele tinha esse ótimo hábito para com suas visitas. Antes de chegarmos em casa, mais conhecidos, mais cumprimentos. O Professor cumprimenta dois amigos e para pra conversar. Eu me aproximo um pouco e cumprimento seus amigos com um discreto 'bon swa', boa tarde em creole. Os dois me respondem 'bon swa', inclusive o Professor, vira pra mim e diz, 'bon swa'. Eu ri até chegar em casa. Acho que é força do hábito responder 'bon swa' pra qualquer um, mesmo quando você já passou quase a tarde inteira com a pessoa. O André ria também. Chegando em casa, a ala feminina da casa havia cozinhado, arrumado a mesa e nos servido. Era aquele arroz com feijão preto, tudo junto, prato típico daqui, mais uma salada, um molho de peixe e banana cozida. Talvez tivesse fruta-pão também. Não lembro. Tirei o atraso do dia e já estava pronto pra dormir, quando o Professor puxou assunto e começou a falar. Perguntou das minhas atividades no Haiti, o que eu fazia, quanto tempo, perguntas corriqueiras. Depois falou da importância dos trabalhos de solidariedade no Haiti, do papel da Via com os campesinos, sugeriu mais agrônomos brasileiros para as próximas brigadas, comentou da relação do Brasil com futebol, de como poderia haver uma trabalho com os jovens haitiano. Não sei se o André havia comentado que eu jogava futebol, provavelmente umas duas ou três coisas que eu sei fazer direito, além de omelete, e não sei se foi uma cobrança do Professor, mas cheguei a pensar numa possibilidade de vir pra cá dar aula de futebol pros moleques. Mas depois passou, é melhor um professor de educação física mesmo. Uma coisa é saber tirar a marcação na saída de bola, marcar em zona ou individual. Outra coisa é gerenciar a atenção de vinte moleque em outra língua. Mas prometi ao Professor que passaria o recado dele quando chegasse ao Brasil. E de fato eu vou: mais agrônomos e professores de futebol, tá anotado.O depoimento do Prófe, já somos íntimos, foi ficando comovente quando ele disse que em vinte anos não haverá mais Haiti se as coisas continuarem como essão. Daí lembrei que estou conversando com um pai de 4 filhos adolescentes e crianças. É verdade, o Haiti ou racha ou racha nesse sistema de ausência de Estado, infra estrutura, todos querendo sair do país e o camponês miserável sem água, saneamento e assistência qualquer, não deve durar muito tempo numa economia baseada na chuva.  Fiquei com isso na cabeça. O Professor se retirou e a molecada se aproveitava. Mexia nas nossas coisas, pulava na cama, fazia umas estripulias e não deixava a gente dormir. Até a pachorra de, mesmo num lugar com energia elétrica racionada, o moleque tinha um treco com dois fios soltos pra tentar dar choque na gente. Eles aprontavam demais. Daí me perguntaram se eu queria o 'toalette' e o André já avisava que provavelmente seria aquela bacia no meio da sala. Com aquela criançada pulando na nossa frente não tive outra opção a não ser me resignar em minha imundice. Mas a praia, o banho e o fim do Cascão já estava perto. Amanhã era dia de praia, peixe e Prestige. Dormi feliz. Antes que eu me esqueça, o Haiti tem o céu estrelado mais incrível que eu já vi. Da linha do horizonte, até o outro lado, uma cúpula de estrelas, é fantástico. Talvez só as estrelas compitam com o número de pedras nesse país.



Nenhum comentário:

Postar um comentário