sábado, 7 de abril de 2012

Porto Príncipe




Ontem fiz uma rápida passagem por Porto Príncipe. No geral, não muda muita coisa do resto do país. Ruas escuras, falta de eletricidade, falta de água, gente de sobra e dessa vez, um e outro branco. No aeroporto se avista mais. Um francês perdido, um grupo de jovens cristão em alguma missão da Igreja, um brasileiro descabelado esperando mais um integrante da brigada. A capital, talvez por ser o lugar com mais prédios e edifícios do país, é o local onde se vê mais marcas do terremoto. O Palácio tá afundado, as calçadas deterioradas e ainda existem prédios em pura ruína. A sensação é que o terremoto foi ontem. De fato, o tempo passa de um jeito difrente por aqui. O povo segue sorrindo, mas me parece que um pouco menos amável com estrangeiros, principalmente brancos. Um 'bom dia' já não é suficiente pra conseguir uma resposta ou um sorriso. Eu não entendo muito de kreyol, mas acho que um sujeito ali xingou até a minha quarta geração quando me viu tirando foto de um velhinho que pedia esmolas. É que as vezes 'que horas são?' ou 'pra que lado fica o centro?', em kreyol, parece com algo sobre a reputação da sua mãe ou a uma maneira ríspida de te expulsar de um lugar. Mesmo o kreyol sendo um francês roots, com uma sonoridade que lembra uma língua latina, o sotaque dos haitianos é preponderantemente africano. O suíngue da língua é puro hakuna matata.
Como já estou acostumado com falta de água, luz, lei de trânsito ou qualquer outro tipo de lei, o que mais me chamou atenção em Port Príncipe é capacidade de consumo da classe média. Acho que já disse que no Haiti não se vê carro velho. O único carro velho, caindo aos pedaços, são as saveiros que levam passageiros na caçamba, os famosos tap-tap. Fora isso, transporte individual é só carrão, nível Pathfinder e outros que não sei o nome, mas que são grandes. No Brasil, sem dúvida são carros pra mais de 80 mil reais, que só uma classe média mais alta tem acesso. Aqui não tem Gol, Uno ou aquele Passat velho do vovô. Aqui é só carrão. Ainda estou tentando buscar uma explicação. No supermercado tem vinho tinto chileno, comida árabe, comida italiana, cerveja holandesa, erva-mate argentina, bacalhau e qualquer outra coisa que você imaginar que o Pão de Açucar tem. Tem até chocolate Baton! Tem um monte de produto da Bauducco. Impressionante. Eu não entendo nem como essa classe média tem dinheiro pra isso, da onde eles tiram. Dizem que 30% do PIB do país vem das remessas de fora, das famílias que vivem nos EUA e Canadá. Dizem que mercado consumidor de 10 milhões de haitianos também contribui pra sustentar essa classe. Eu só não sei qual é o luxo de tomar um Cabernet chileno no escuro...

Nenhum comentário:

Postar um comentário