segunda-feira, 23 de abril de 2012

garupa, a volta








Último dia do Diário de Garupa. Hora de voltar. Nossa viagem começou com uma parada para um espaguetí, companheirto de marmita que nos acompanhou todos os dias pela manhã. Pra se despedir não seria diferente: sete da manhã, espaguetí pra turma! Eu fico feliz só de lembrar. O Professor ainda fez uma ressalva, vocês terão uma viagem muito longa pela frente, coma bem. Claro, Prófe, deixa comigo. Comi dois pratões chorando de alegria. Esse espaguetí já não tinha pimenta e o Professor ainda ofereceu um catchup pra cooperar. Lá da onde eu venho, catchup em qualquer tipo de massa, e isso inclui pizza, dá cadeia ou enforcamento por justa causa. Mas eu estou longe da onde eu venho. O espaguetí de massa dominicana e linguicinha sabe-se-lá de que porco permite essas exceções. Aliás, estou pensando em parar de comer porco. Um amigo me lembrou que porco, diferente da vaca, só como tranqueira. Daí eu vi aqui uns porcões na corda, envoltos em sujeira e tristeza, me fez repensar. O problema é o salame. Faz quase cinco meses que eu não como um salaminho dá pesada. Enfim. Comemos um espaguetí, gravamos o depoimento dele, dei minha camisa do Corinthians, 9 Ronaldo, pro filho dele, o adolescente que não é capeta e gosta de futebol. Por incrível que pareça, tem camisetas de clube do Brasil aqui no Haiti. Não sei se é o povo da Minustah (exército da ONU que ocupa o país e faz um semblante pra lá de polêmico de polícia) que deu, ou de outras entidades brasileiras, mas eu contei umas 3 camisas do Grêmio, 1 do Flamengo, 1 do Sport. Da seleção brasileira nem se fala. Num dia você vê tranquilamente umas 3, 4… Agora tem uma do Coringão pra consolidar nosso projeto de internacionalismo sem Libertadores. Vai Corí! Comemos, gravamos um depoimento do professor e tiro mais fotos. De repente minha máquina dá uns pau na hora de ver as fotos tiradas. Como era uma viagem de 5 dias, na garupa de uma moto, com pouca possibilidade luz elétrica, não era recomendável levar um laptop. Então eu levei os únicos dois cartões de memória que eu tinha. O 32GB completei de fotos e filmes e as últimas 24horas seriam no cartão de 16GB. Mas era a primeira vez que eu usava, e sei lá desses processos de compatibilidade de cartão SD, só sei que funcionou normal na praia, e pela manhã algumas fotos tiradas deram pau na visualização. Alguns vídeos também. Achei que era uma crise da máquina mas que passava. Mas não passou. 5 minutos depois que eu saí da casa do Professor, a máquina disse que não reconhecia o cartão e que não era possível acessar as fotos tiradas. Zica! Perdi a entrevistinha com o Professor. Fiquei chateado. Passei a viagem inteira rezando pra chegar em casa e conseguir abrir no computador. Mas não rolou. Ainda baixei um programinha de tentar recuperar, mas não rolou. Engoli o choro, abracei uma árvore pra liberar a tensão e, com os olhos marejados, pensei: o que o Caco dos Muppets Baby faria numa situação dessa? Prometi não formatá-lo até chegar em São Paulo em algum lugar especializado em alguma coisa dessas. Mas tudo bem, não foram muitas fotos. Algumas tinha passado pro lap do Professor. O problema foi a entrevista mesmo… Enfim. Espaguetí, estrevistá, abraços, fotos e partimos. Fazia um ligeiro friozinho quase serrano na montanha. O cenário era surreal. Jamais suspeitaria que aquilo era o Haiti. Uma névoa espessa sobre o morro, as pessoas como silhuetas ao longe, um ar meio limbo meio noir. Meio Hitchcock tropical. Muito doido. Crianças uniformizadas indo a escola, camponeses indo a lavoura, uns pé-de-banana enevoados e a gente desviando de poças e buracos. Que viagem! No meio de uma ladeira alguém chama o André. Devia ser um local amigo dele. O André, em seu trabalho na Via Campesina, passava muitos dias nas comunidades rurais, acaba conhecendo muita gente. O cara pára ele, cumprimenta contente, conversam, eu tento recuperar meu cartão em vão, desisto, eles falam mais alguma coisa, e o cara vai pegar uma carona com a gente até um ponto onde ele sabe que está interditado por causa da chuva da madrugada. Lá vai eu pro chiqueirinho da moto. Não me importo de ir pra ponta, no bagageiro, mas se tivesse uma almofada seria mais digno. Começa uma subida, descida, poças e buracos. Eu me seguro. O cara no meio fala qualquer coisa com André. Minha mochila agora está em minhas costas, pesando pra trás. De repente, passamos numa poça, que tinha um buraco, a moto dá uma atolada e quase cai pra trás. Minha mochila, safada, bem que tentou me derrubar, mas conseguimos enlamear os pés, poupando de enlamear, no princípio de uma viagem de 4 horas, o corpo inteiro. Deu um frio na barriga quando a moto inclinou para cima e vejo 80 quilos de haitiano escorregando na minha direção enquanto aquela poça, marrom avermelhada, boa pra pele, ruim pra auto-estima, se aproximando. Mas deu tudo certo, o André é de Rondônia, está acostumado com trâmites enlemeados e conseguiu se equilibrar. Ele foi um excelente motorista toda a viagem, mesmo com as minhas piadas sem graça atrapalhando sua concentração, ou quando eu pensava em batucar um Molejão no seu capacete. Chegamos num ponto alto, perto de um cruzamento. O amigo haitiano desce, avisa sobre uma pista pro André e ainda consegue alguma coisa tipo 5 gouds pela 'dica'. Esse sim sabe ganhar uma carona e um trocado. Ele não disse nada demais, o André já sabia daquele caminho e ficou com uma cara de 'era pra isso que você veio até aqui?'. Saímos da região da montanha e já muda o micro clima haitiano. Já está quente, não tenho necessidade de estar com uma camiseta debaixo de uma camisa. O caminho da volta será outro. Chegamos numa cidadezinha tranquila como toda cidadezinha haitiana. Paramos pra comprar uma água. Jovens parados na sombra jogam conversa fora. Caiu a ficha que aqui não tem trabalho pro povo. Os camponeses esperam a chuva pra poder plantar, caso não tenha um canal próximo para irrigação. Os jovens ficam na sombra esperando acontecer alguma coisa no país. Não tem essa de horário comercial. Funciona enquanto tiver luz. Sagrado é o domingo onde não fazem nada mesmo. Seguimos viagem. Atravessamos cerrado, caatinga, tudo genérico,  só não chegamos no Pantanal porque grande parte da natureza daqui sofre aquela erosão. Tem um sobe desce discreto, depois ficou tudo plano. Naquela mesma de desviar de poças, pedras, cabritos e buracos. Estamos perto do litoral e o sol das 8 ou 9 já está rachando. O vento te esfria e faz pensar que o sol não tá te queimando. Passamos por uma espécie de salina. Tem uma estrada plana, boa, lisa, de terra batida sem pedra. Só ali e no asfalto abandonamos os 30km/h. Mas era bem surreal, desértica, quase não se via pessoas. Moto só de vez em quando. Montanhas ao longe, sempre nos acompanhando, o mar imenso e lindo ao lado. E a gente numa salina que dava pra pousar um avião. Aliás, se sal é 'feito' daquele jeito nunca mais salgo nada. Era uma terra batida, meio suja, uma água estranha passava por perto. Nem sei como eles coletavam aquilo depois que secava. Voltamos para a estrada de terra e pedra e lentidão precavida. O mar ao lado tem um ou outro pescador. Paramos pra fazer uma boquinha. Era um maché daqueles de beira de estrada. Daqueles que na primeira semana de Haiti você recusaria comer sem dúvida. Mas se é frito não deve ter problema né? Tudo que é frito é bom. Comemos um peixinho sem antes eu insistir pro André pechinchar aquele preço. Eles dobram o preço sem dó para os 'blan'. A mulher tinha uma cara de malandra. E dá-lhe negociação, e troca o peixe, e muda o preço, eu só apontava pra outra vendedora, e chamava o André pra ir lá como se fosse uma ameaça. No final das contas o André conseguiu mais um peixinho por um preço bom. Motoqueiros perguntam se o André é dominicano, eu passo um inútil protetor solar, lá pelas 11h talvez e seguimos num sol de deprimir criança numa loja de doce. Volta ladeira, buraco e uma paisagem árida junto ao mar. Uma pedra branca, enorme é esburacada por trabalhadores que vão usar na construção civil. Aquela que eu nunca vejo ninguém trabalhando. É um buracão no meio da pedra, meio perigo segundo meu audacioso conhecimento em escavação de pedra.. Aparecem mais jangadas no horizonte pra aliviar minhas perguntas por metro quadrado ao André, sobre o fato de ter um litoral enorme e quase nenhum pescador ganhando a vida, ainda mais aqui, onde tudo é escasso, até o vocabulário. Os motoqueiros que estavam no maché do peixim passam pela gente. Buraco, bagagem, e mais de dois ou três passageiros não são o suficiente pros haitianos diminuírem a velocidade. Eles pilotam demais por aqui. Uma buzinadinha simpática e em cinco minutos já avistava eles ao longe, lá na frente. Sobe, desce e estamos chegando numa cidadezinha de médio porte. Significa só que tem um caos na estrada, cheio de moto, gente e coisa e que agora a pista está asfaltada. Já estamos chegando. Atravessamos uma mistura de Saara de temperatura com Tóquio de gente. O trânsito vira um emaranhado doido. Só as motos vão desviando. O sol está me cozinhando. Se eu fosse um peru aquele trequinho vermelho já tinha saltado. Atravessamos a cidade-rodovia e estamos na auto-estrada bem asfaltada perto de casa. Daí pode aumentar a velocidade. A paisagem já é conhecida. Está verde, há plantações de arroz, montanhas em volta, carrões pra cima e pra baixo e em uma hora já estávamos em casa.  Chego ardendo como um camarão. Tive a genial idéia de voltar sem capacete. O Haiti não tem muito essa de capacete, imprudência ou acostamento. A velocidade baixa da moto me deixou tranquilo. Não tem perigo. Perigo é beber água sem saber a procedência. Se bem que no asfalto, quando aumentou a velocidade e o vento empurrava minha bochecha e secava minha íris, mesmo de óculos escuro, eu pensei em colocar o capacete. Mas só pensei. Não pus. Mas aí entendi a função do capacete, pra além de acidentes. Imagina meu cabelo que não via xampu há dias. O sabonete estava comigo e o xampu estava na mochila do André, aquela que perdemos no primeiro dia. O banho foi numa ducha no quiosque da praia. Água boa, mas por si só insuficiente pra tirar aquele sal do cabelo. O vento, espesso quando está numa moto, empurrou meu cabelo pra trás, já meio duro. O resultado, além de parecer que eu tinha levado um choque de todas as voltagens possíveis, era que o danado deixou uma parte singela da minha entrada-careca-em-fase-de-expansão desguarnecida. Imagina uma pele que passou os últimos 26 anos sem ver a luz do sol e, quando vê, é o sol caribenho do meio-dia. Errei. Me sentia quente, mas estava feliz. A viagem foi inesquecível. Antes de chegarmos paramos no posto perto do alojamento para uma digníssima Prestige gelada e um Pringels. No Haiti tem vários Pringels. No Haiti tem tudo, só não tem serviços básicos pra população, como acesso a água limpa. O Pringels aqui custa equivalente a 4 reais! Imagina o que a gente paga de imposto no Braz. Aqui tudo é importado e não tem taxa de importação simplesmente porque não tem uma indústria nacional pra proteger. Só a Prestige, cerveja premiada na Alemanha. O Haiti é o capitalismo puro, eu sua face mais cruel. Se você tem dinheiro você toma Heinekken, compra um Blackberry e com um gerador, liga um laptop com acesso a internet. Se você é um camponês pobre, que depende da chuva pra plantar, você bebe água barrenta da beira da estrada, toma banho nessa água, cozinha nessa água, e utiliza ela pra alimentar seus filhos. E estes são a grande maioria por aqui. Terrível. Hospital não tem nem a sombra. Só conheci um centro médico numa cidade por perto, onde são os médicos cubanos que trabalham. Aliás, os cubanos construíram vários hospitais emergenciais no Haiti depois do terremoto. A Venezuela afastou umas estradas, o Equador fez umas pontes e o Brasil me enviou! Ri alto agora. Eu vim por conta própria. Enfim, a viagem de motoca depois de 18,4 biomas, camponeses, cabritos, buracos e poças, pessoas amáveis, simpáticas, figuras e uma paisagem natural linda mesclada com uma periferia crônica, teve saldo pra lá de positivo, mesmo com a perda da mochila, passaporte e dinheiro do André, e eu perdi meu cortador de unha e a entrevista com o Professor. A lembrança geral é fantástica. Os causos… A vontade é de voltar um dia e atravessar o país inteiro de moto. Onde houver uma estrada, onde houver uma moto, onde houver um protetor solar fps30 pelo menos, eu estarei lá. 

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