Se você é da geração que assistia a televisão enquanto seus pais não tinham tempo pra te cuidar pois o governo Sarney-Collor estavam tripudiando da economia, você provavelmente deve ter visto desenhos onde alguém fazia um vudu de outra pessoa e a espetava com agulha. Eu, quando criança, uma vez, pedi a minha mãe pra fazer uns bonecos de pano dos meus irmãos. Eles são mais velhos. Eu queria espetar umas agulhas pra ver se funcionava. E como minha mãe manjava de consertar uns furos nas minhas camisetas achei que isso fazia dela uma costureira, pessoa apta a fazer bonecos dos meus irmãos pra eu poder compensar minha condição subserviente a eles. Caçula consegue muitas coisas, mas não que uma mãe faça isso. Se talvez não fossem meus irmãos… Enfim, era só pra fazer uma introdução que o vudu existe, mas não com agulha no bonequinho. Bom, não que eu tenha visto. O vudu é a grande manifestação religiosa do Haiti. Muito semelhante ao Candomblé. Eles chamam 'vodu', tem que pronunciar esse 'o'. E mantém esse sincretismo de cultuar manifestações afro-descendentes com santos católicos. E tambor. E gente dançando. E gente encarnando. E aquela bagunça. É um barato. Eu conheço muito pouco do Candomblé pra poder falar, mas conheci um pouquinho da Umbanda. Me parece que as duas são mais organizadas que o vodu. Acredito que nelas há uma série de regras para os trabalhos serem feitos. Não que o vodu não tenha regras, mas a princípio não ficaram muito claras. Eu já chegarei no exemplo de não haver muitas regras.
Eu já havia comentado com a galera sobre minha vontade de conhecer o vodu e comprar um tambor. Por aqui, na zona rural, é possível escutar ao longe uns tambores do vodu começando no fim da tarde, e terminando no começo da manhã. É muito tempo de batuque. Impressionante. Mas o haitiano é forte demais. Desde pequeno carregam muito peso na cabeça levando as mercadorias ao maché. Ou trabalham na roça com tecnologia do século XIX. Sem contar que pra tudo se caminha muito. Eles são fortes mesmo. Então me disseram que estava rolando um vodu ali perto e um dos nossos amigos do futebol de fim da tarde é meio manda-chuva do terreiro. Um cara simpático, joga legal. Aí facilita pro branquelão aqui. Metemos três na motoca e fomos. Era perto mesmo. De moto nem cinco minutos. À esquerda da estrada principal, uma rua de terra batida e pedras nos leva a uma casas de concreto, mal acabadas, no estilo Haiti. Crianças na rua e o som dos tambores ao fundo. É uma casa com um quintal na entrada e antes de começar a casa, tem um toldo, uma lona improvisada cobrindo o terreiro. Na entrada havia umas oferendas. Um cruz desenhada no chão, uma espada, uma garrafa com algumas ervas. Algo sim. Aquela simbologia de velas, estrelas e cruzes. Adentramos a tenda pedindo licença as pessoas que ficam em volta. Em volta de um mastro que serve pra sustentar a tenda onde mulheres com um lenço vermelho, amarelo, meio colorido dançavam ao som do tambor. Entramos, atravessamos e nos encostamos numa beiradinha entre a parede e o chão. Havia uns três ou quatro tambores. Um deles se tocava com uma fina baqueta. O som era bom. Rápido e suingado. Até estava com a máquina, mas não consegui tirar foto. Eu nunca serei um bom fotógrafo porque fico sem graça em várias ocasiões de tirar foto. Eu estava no meio de um lugar sagrado pra eles, acabei de entrar sem ninguém me conhecer, e daí eu já saco a máquina e tiro fotos como se estivesse no circo? Fiquei na minha. Mulheres de todas as idades dançavam. Haviam outras sentadas em volta. Tinha um que estava completamente bêbado e outra que estava completamente encarnada. O André estava completamente desconfortável e já começava a me perguntar se eu não queria ir embora pra jogar o futebol do fim da tarde. Espera um pouquinho. A encarnada fazia caretas de malandragem e cumprimentava as pessoas em volta com um desdém e risada. Esticava a mão e quando cumprimentávamos retirava rindo. O bêbado era apenas um bêbado mesmo. Eles fazem uma bebida estranha com um monte de ervas de dentro e outras coisas que a Anvisa vetaria só pela aparência. Os tambores não param. As fazem uma pequena paradinha só, mas já voltam em seguida a dançar em volta do mastro. Agora tem um homem em pé junto ao mastro. A mulher encarnada tem um facão, minha gente! É isso mesmo? Vão deixar uma mulher com jeito de malandra bêbada com um facão repleto de tétano e irresponsabilidade? Vão. A mulher apenas arranha algumas partes do corpo do senhor em pé. Alguns pontos específicos perto da costela. Devia fazer parte da simbologia daquele trabalho. Talvez afastar doença, não sei. Sei que em seguida a mulher encarnada literalmente desaba no chão. Pum! Desabou feio, do tipo que se bate a cabeça não volta mais pro plano das leis da gravidade e amigo secreto no fim do ano. Algumas pessoas arrastam o corpo estendido no chão com naturalidade para um canto. As mulheres, entre elas uma garota de uns nove anos, voltam a dançar em volta do mastro. Aqui não tem charuto, mesmo tendo um clima favorável a produção de tabaco. Por isso os tocadores de tambor fumam cigarro mesmo. Com cara de quem tá fumando charuto. Mas é cigarro. A bebida das ervas volta a passar de mão em mão, até a garotinha de nove anos dar um gole. A dança delas é bem afro, parece com jongo nosso. Na parede um quadro de jesus e alguma santa que minha ignorância bíblica não permitiu reconhecer. O André já está perguntando se não podemos ir. Acho que nem deu meia hora. Peço mais cinco minutos. Os tocadores de tambores se revezam e suam muito. O bêbado começa a brincar de encarnado. A que estava encarnada já está acordada tomando água. Nosso amigo que nos levou ao terreiro também queria jogar o futebol que deveria começar mais ou menos aquela hora e tá bom então, fomos embora, de minha parte contrariado.
Chegando no nosso alojamento nem apareceu ninguém pra jogar e ainda era possível escutar os tambores ao longe, o que me deixou mais indignado. Mas o deus dos tambores escreve certo por linhas tortas. Havia combinado com outro amigo, o Niltinho, de a noite ir a um Compa. Era sexta feira! Vamos ver a night de uma cidade de cem mil habitantes, sem luz elétrica, acesso a água, baixa escolaridade, no meio rural haitiano. Por via das dúvidas vesti minha melhor roupa! O Compa é um barzinho que toca Compa. Foi isso que eu entendi. Tem uma música haitiana, bem no estilo caribenha, que se chama Compa. Em geral podemos nos confundir facilmente entre as variantes caribenhas que, de primeira impressão, parecem iguais. Mas a dança é diferente. O Compa estava absolutamente vazio. O povo não tem poder aquisitivo pra ir em barzinho. Se bem que o preço da cerveja era o mesmo do posto de gasolina, que é o padrão geral do país. Não se paga entrada, nem nada. Era uma casa antiga de madeira, daquelas com arquitetura meio americana do Sul do país. Tem muitas dessas por aqui. Sabe aquelas casas onde o Scooby Doo procura uns fantasmas? É essa. Até que estava conservada para os níveis haitianos. Tinha uma luz amarela, uma ciaxa de som alta, com um som bom. A cerveja estava absolutamente gelada e para mim isso já era suficiente. A única alma penada no local eram duas garotas e um cara na mesa ao lado. Fora isso era o dono e o segurança da entrada. O Haiti nem é um país violento, nem se compara com São Paulo ou a Cidade do México, mas sempre tem seguranças, em geral armados, nos estabelecimentos comerciais maiorzinhos. A gente é até revistado!
Música boa, cerveja gelada. O cara da mesa da frente começa a dançar com uma delas. No começo da dança parece fácil, de mãos dadas, um de frente pro outro, só balançam no ritmo, sem complexidade. Aí começa a maldade. Tem uma parte da música onde a mulher vira de costas e aplica o bundão na pélvis alheia. E fica ali esfregando na maior. É sexo de roupa. Tudo o que o haitiano é conservador e pudico no dia a dia eles compensam no Compa. Meu amigo já estava 'alegre' e vai conversar com a menina. Tenta puxar conversa. Não deu em nada. Eu me mantive sentado, meu creole não passa do bom dia. mas uma delas vem conversar comigo. Não entendo e preciso do meu intérprete quase bêbado. Acho que vai funcionar. Ele diz que ela quer dançar comigo. Lá vai. Ficamos naquela coisa de mão dada dançando que nem criança. Mas não rolou a maldade. Não sei se por culpa minha por não saber que parte da música eu tenho que enconxá-la de maneira afetuosamente escandalosa. Fiquei na minha. Antes da música o meu amigo tinha falado uma séria de coisas pra ela. Quando terminou ela virou e saio pra conversar com seu amigo e eu sentei na mina mesa. Pergunto: Niltinho, o que você falou pra ela? Falei que você ama ela! Deixa comigo! Tô agitando ela. Dei risada. Acho que você mandou bem. Tomais algumas cervejas e sou obrigado a usar um banheiro que não tem luz. Em geral a gente já não é bom de mira quando está iluminado, imagina no escuro. Paciência. Volto a cerveja gelada e música boa. Estou contente assim. A moça volta e, pra variar, pede pra eu pagar uma cereja que, pra variar, digo que não. O lugar já era para um pessoal mais ou menos, dentro das possibilidades, classe média local. Se vestiam bem, podiam estar em qualquer cidade ocidental. Pagar cerveja? Fica pra próxima. O pessoal acha que tem um pé de dinheiro no viveiro da brigada. A noite vai acabando, e o dono avisa que o bar fechará em cinco minutos. A impressão foi boa. Se houvesse mais gente naquele lugar deve ser bem divertido. Meu amigo ainda me disse que em outras cidades o Compa é mais animado, bem frequentado, e o povo só falta transar lá dentro. Na rua não pega bem andar sem camisa, mas pode tomar banho peladão no canal. Na rua não se vê muito casal de mão dada se beijando, mas pode transar no Compa. Tá bom, cultural é isso aí. Tem que respeitar.
Quando voltávamos pra casa, crente que a noite tinha acabado, no meio da rodoviazinha, no único ponto que havia um poste de luz acesa, esquina com uma rua de terra e pedra, está rolando um vodu! Pára motorista! Encostamos a motoca e fomos ver. Chego na humildade branquela perguntando em creole se posso assistir. Claro que sim, fica a vontade. Depois as outras perguntas não sou capaz de responder e um deles arrisca um espanhol. Os caras foram gente fina. Nos aproximamos do vodu. No centro da roda tem um tapete com velas e vasos.Tem alguém encarnado ali. São pessoas jovens. Em volta dança de mulheres. É bem feminina essa parada. Tinha uns ingredientes no chão que as pessoas encarnadas ficavam adicionando nos vasos. Ao lado o batuque. pessoas observando e outras dançando. Já passou da meia noite e tudo é puro breu ao redor do poste. Das mulheres dançando, com suas roupas coloridas, uma delas se aproxima e vem dançar comigo. Lá vai… Como eu já havia bebido o suficiente pra achar que, olha só, eu estava enganado, eu sei dançar, eu fui lá dançar com a velha. Tem uma passo, redondamente mal feito que faço achando que estou dançando jongo. É tipo constrangedor mesmo. Só faço depois da meia-noite. Aprendi com meu brother Wander, dançarino exímio. Parti pro suíngue. O povo foi a loucura vendo um branquelo que surge do nada, aparecer e dançar com a mulher. Eu, sinceramente, acho que estava fazendo a coisa direito. Ri alto agora. É uma dança com um suíngue meio jongo, meio capoeira. As pessoas ficavam em volta, riam, olhavam incrédulas. Pensei orgulhoso: estou abafando. Ri alto de novo. Pronto, depois de cartão de visita, o povo do vodu me recebeu numa boa. Outro sujeito que falava espahol (em geral, os jovens já falam umas 3 línguas por aqui) me explicou umas coisas, mas o espanhol dele era meio tenebroso, entendi uns 60%. O cara era gente fina. Tinha uma moral ali. Os tabores seguiam firme. O povo cantando e dançando, provavelmente em dialeto afro. Era bonito de ser ver. De repente, pum! Despenca no chão a pessoa encarnada. Segue a música, alguém ampara o corpo, tira da roda, dá água e em poucos minutos vejo a pessoa acordando, pra logo depois voltar a dançar. Se passa o mesmo com outra pessoa. Assim eu vejo umas três mulheres que estavam dançando em volta , encarnarem, dançarem, irem ao centro, fazerem alguma coisa nos seis ou sete vasos, como se fosse uma receita, e depois cair duro, literalmente no chão, e desencarnar. Depois a pessoa já estava boa. E segue tambor, segue dança, no meio do nada. O outro que falava espanhol me explicou alguma coisa que hoje era dia de receber uma entidade que era uma criança.
Agora começa a parte que eu acho meio desorganizada. Talvez uma das cenas que espero guardar pra sempre na minha memória. Uma das dançarinas em volta vai ao centro da roda e começa a recebe ruma entidade. Dá-lhe tambor, vela e toda aquela mística. De repente, quando encorpora, 'a entidade' no corpo da mulher, meio gordinha até, sai correndo no meio da rodovia e vai embora! Fora o poste, tudo está completamente, cem por cento, escuro. Não se vê nada. E o corpo encarnado fugiu! O povo sai correndo atrás da entidade fujona. Eu fui junto, lógico. O 'espírito' deu um gás ali de uns vinte, quase trinta metros. Os caras conseguiram alcançá-la e trouxeram pela braço. Foi sensacional a cena do 'fui!' que o corpo deu. As entidades aprontam no vodu. Outra mulher encarnou uma entidade. Elas revezavam entre as dançarinas em volta. Deviam haver pelo menos umas dez dançando e encarnando. Cada uma na sua vez. Uma hora haviam duas encarnadas, mexeram nos vasos, fumaram, beberam e, quando pensei que já havia visto demais naquela noite, uma delas parte pra cima da outra, pula em cima e começa a 'transar' de roupa. Mas transar forte, pura libido e pélvis pra trá e pra frente. Bizarro. Eram duas mulheres de meia idade. Alguém comenta que aquela metáfora de cópula fazia parte do rito. Eram duas mulheres simulando um sexo forte ás duas da manhã numa encruzilhada no meio do interior do Haiti. Deu né? Alguém tenta separar os corpos. Eles mexem mais no vaso. Tem alguém colocando talco lá dentro. Eles misturam um monte de coisa estranha nos vasos e não faço idéia pra que serve. Meu amigo dorme em pé. O cara que manja de espanhol está no meio da roda fazendo um trabalho de colocar um lençol enorme em cima das garotas que encarnaram e da atual encarnada. Os homens no vodu tem um papel bem secundário mesmo. Agitam o lençol, alguma mulher parece desencarnar debaixo do pano iluminado pelas velas do centro da roda. Os tambores seguem. Alguém me diz que vai até as seis da manhã. Já era quase três. Quase todas já tinham encarnado e aprontado. Melhor vazar antes que chegue a minha vez… Esperei tirar o lençol e cumprimentei o cara, agradecendo. Subimos na motoca e ela ainda falhou o suficiente pra um outro haitiano gente fina dar a partida pra gente. Uma experiência inacreditável.
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