Acho que o Haiti tem tudo pra dar certo. Além deles amarem futebol eles têm dois Carnavais! Um no carnaval outro na semana santa. Aqui no meio rural eles são bem religiosos, bem católicos, do tipo que vão a Igreja com suas melhores roupas. E são muito bonitas. A verdade é que um povo bonitão mesmo. Toda família arrumada, as meninas tem vestidos cheios de bordados, tipo o batizado da minha mãe, fita na cabeça, meia esticada três quartos, ou o nome da meia que vai até a canela. Tem um ar meio retrô bem elegante. Essa é a parte da dignidade deles. Quem vê a família indo a missa de domingo não imagina um país devastado pela miséria. Mas também tem a turma do fuzuê na semana santa. E dá-lhe ra-ra. Passando de carro, tentei tirar foto de um, mas não deixaram, tinha que pagar. Mas eles cobraram na maldade, não era uma taxa padrão, era uma taxa de 'sossega-branco'. Outro ra-ra que eu participei na rua, até que estava animado, mas a molecada encheu a cara de rum (que aliás é bem famoso por aqui) e começou a causar geral. Aliás, a dança da molecada é de um acasalamento de deixar funkeiro carioca constrangido. Amor de roupa. Bom, como ser branco aqui é como ser uma celebridade estranha, onde você anda e todos te olham, alguns te cumprimentam, outros te esnobam gratuitamente e te encaram mais um pouco, do pé a cabeça. Tinha uns sujeitos que já estavam mais pra lá, aquele ânimo de extravasar a esmo, e uma cara de zero boas-vindas. Mesmo discreto, no canto, acompanhando antropologicamente, a situação, perdoe o trocadilho, começou a ficar preta pro meu lado. Quando vi, estávamos saindo da rua asfaltada, desviando de outro bloco e indo pro meio de uma quebrada, isolada e nada asfaltada, quase um beco. É complicada a comparação, mas 80% das casas é como uma favela aqui, só que menos amontoadas e com menos infra. Sem net gato, sem luz, e água a quilômetros com lata na cabeça. Tinha um sujeito, 'organizando' a bagunça com um chicote gigante estalando no chão. Ou era paranóia minha ou eu vi uns caras com um veneno no olhar, louco por um revanchismo de 300 anos de exploração. E até eu explicar que sou apenas um rapaz latino-americano, cheio de dívida no banco, em creole, era mais fácil ralar peito. Depois de cromaticamente chamar a atenção de meio mundo, bêbados conversarem em inglês, sóbrios nem cumprimentar, de todas as crianças me chamarem de 'blan!', umas sorrindo e acenando, outras parecendo que estavam jogando uma pedra em mim; depois de meia dúzia de gente me encarar, do policial (personalidade rara por aqui, mais raro que branco) olhar pra mim e, absolutamente do nada, fazer um 'não' com a mão pra mim, depois de despistar uma fila de gente que me pedia dinheiro, eu achei que o clima não era o mais amigável e resolvi sair de finí.
Na volta, a pé, um nenê lindo, negro de olho claro, chamou a atenção. A mãe apontava pra mim, dizia que eu era pai, pelos olhos. Daí, não sei se ela pediu ou eu que fui me oferecendo, tem uma hora que a tradução não dá conta, e quando vi estava com a criança no colo. Bebês são legais. Tirei umas fotos com 'meu filho' e a comunidade foi se juntando pra ver aquela cena. Sentava criança ao meu lado pra tirar foto, juntava vizinho, já tinha mais de 20 pessoas ao nosso redor, rindo da situação. Pensei no pai da criança chegando e vendo um branquelo segurando seu filho e sorrindo, falando num terrível kreyol: ele é meu filho, tem meus olhos. Piada infeliz. A mãe começou a falar: "ele é teu filho, então ajuda a pagar as contas. dá um dinheiro, dá um dinheiro." A vizinha ajudou o coro do "dá um dinheiro." Essa é a parte que a dignidade dá umas brechas... Eu até tinha um dinheiro, mas me recuso a dar. Aqui tem uma questão série sobre como as ONGs criaram uma população de pedinte. A noite já estava caindo, a vizinhança se aglomerando, os pedidos de dinheiro chegando até o meu amigo e o GoogleTranslate dizia que alguém pediu pra ver no bolso dele se tinha dinheiro… ixi... Toma que o filho é teu! Devolvi o nenê-lindo-do-papai pra mamãe, agradeci como um gringo bobo, e fui saindo mais à francesa que mon amour, abajour e todos os passes de balé. Fui!
O sol já tinha ido dormir, a estrada já estava escura, já voltava ser de terra, a gente a pé, e uns e outros na rua fazendo umas gracinhas, falando umas bobagens sobre nossa alva tez que, obviamente, eu não entendia nada portanto não me ofendia muito. Ainda paramos na vizinha, que mora numa casa de parede de barro e pedra, inclinada como Pisa e absolutamente escura, naquela prosa mole do interior. Tão escuro que não enxergava seus rostos. Só a luz da lua e de um celular com um joguinho eletrônico. Um rádio ao longe e mosquitinhos por perto.

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