sábado, 7 de abril de 2012

Ra-ra


O kreyol é uma língua falada por 100% dos haitianos, mas não é uma língua muito escrita. Talvez porque, mais ou menos, 40% da população seja analfabeta. Mais ou menos porque o Haiti não tem um censo de sua população ou do seu território. É, literalmente, terra sem lei. Não tem Estado, poder público e essas coisas que em geral costumam cobrar impostos para não fazer nada. Então todos os dados sobre o Haiti são estimativas. Produtos, em geral, tem sua embalagem em francês. Placas de trânsito quase não há. Talvez o kreyol mais eloquente por escrito seja os caminhões e tap-tap que sempre levam consigo (além de um motorista suicida) uma frase cristã no pára-brisa ou na caçamba. Bem parecido com os nossos caminhões e jangadas. Então tem uma palavra em kreyol que eu suponho que seja escrito assim: ra-ra. O "R" não é muito usado no kreyol, eles não conseguem pronunciar bem. Sai mais um "L", estilo estereótipo de japonês. Rafael é quase Afael, e assim por diante. Ra-ra tem o som similar com o "ra" de arara. É o nome de grupos de foliões que saem as ruas tocando e dançando, parecido com nosso carnaval. Mas o som tem uma pegada mais africana, com tambores e metais. É bem animado e cheio de sensualidade, do jeito que o povo gosta. Eu gravei alguns vídeos, mas a internet aqui é muito fraca, no máximo consigo subir duas ou três fotos, num esforço desmesurado de paciência. Eu consigo fazer dezoito suburus com a mão esquerda antes de subir os primeiros 100k… Enfim, como estamos em semana de páscoa, e o povo é bem religioso por aqui, começam os ra-ra por toda cidade. Primeiro visitaram nosso alojamento lá pelas 21h. No dia seguinte acompanhamos um pela estrada e mais tarde teve outro junto de um pântano, com crianças absolutamente estarrecidas com a presença de um branco. Elas viram de costas pro ra-ra, pra música e ficam incrédulos olhando pra gente. Quando começamos a falar em português, aí pode colocar um playstation 3 na frente do moleque, que não adianta, a gente é a coisa mais atrativa da humanidade. É uma experiência bem curiosa. Eu já havia estranhado que no México, quando eu entrava no metrô, 80% do vagão virava o pescoço pra me ver. Mas quando eu olhava de volta eles desviavam o olhar. Aqui o sujeito te olha mesmo, sem complacência. E te toca pra ver como é. Em um dos machés, a feira livre daqui, eu estava sentado tomando uma cerveja, e um jovem, literalmente (acho que vocês perceberam que a aqui não tem muita metáfora, é tudo na base do literalmente) colocou o dedo na ferida. Depois que o sujeito me deu o carrinho tenebroso e espacial, eu fiquei com uns leves ferimentos. E uma ferida que ainda tava formando a casquinha, perto do joelho, fez com que um jovem da tendinha de cerveja, num ímpeto de curiosidade, colocasse o dedo na ferida. Eu não quis nem pensar aonde passou essa mão que agora teve um contato transcendental com todas as minhas hemáceas, glóbulos brancos, vermelhos e outras coisas que já não me lembro de biologia… Só apontei e disse pro cara: futebol. Futebol? Oui, oui. Esse "oui, oui" aida vai me levar longe por aqui…
Essa semana deve haver mais ra-ra. Pra quem é do Braz, tira de letra, porque parece com as nossas bagunças. Mas rola umas reboladas em conjunto ali, um no meio, um atrás e outro na frente, que eu já vi muita família começar assim. Eles fazem um maxixe na maldade, parece que é pra tirar um atraso… Só o impacto de ser branco aqui que dá uma desanimada, porque realmente (pra não usar literalmente de novo) é de parar o trânsito. Em falar nisso, as mulheres haitianas são muito bonitas. Em geral são altas, esguias, caminham de cabeça erguida, parece que desfilam. E os homens, quando são muito amigos, andam de mão de dadas. Segura essa! Aqui a cultura é bem machista. Mas machista beirando fim do século dezenove. As mulheres são vistas como inferiores, o homossexualismo é bem discreto, mas os caras que são brothers andam de mão dada. Em plena América Latina. Se bem que aqui no Haiti eu não vejo característica muito latinas, como no México, Brasil, Argentina… Me parece um povo que pende mais pra raiz africana no modo de ser, do que pro estilo bigodinho-latino-americano. Bom, os caras aqui expulsaram os brancos lá por 1804. Em uma semana de Haiti (tirando obviamente a turma da brigada) eu vi apenas duas vezes presença de branco: no meu vôo tinha um fotógrafo branco e um jovem, acho que ligado a uma ong brasileira, e no meio do ra-ra vi um casal branco (estilo europeu) passando de moto. Fora isso, nem moreno se vê por aqui.

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