Essa semana eu fiz um nano diários de motocicleta. Fomos ao norte do país, na província de Nord Ouest, visitar uns camponeses. É fantástico viajar de moto pelo Haiti. Eu não entendo muito de geografia-caribenha ou qualquer outra especificidade de palavra composta, mas suspeito que o Haiti tenha uns dezesseis biomas. Numa viagem total de 400 km deu pra ver pelo menos uns três climas distintos: semi-árido, subtropical e quase temperado com requintes de tropical. E também pode colocar um deserto aí no meio. Saímos segunda-feira de manhã. Não havia internet no alojamento e eu precisava enviar um arquivo pro Braz com uma certa urgência. Aqui, na rua cheia de casas no acostamento, chamado de cidade, encontramos uma espécie de mini lan house que tira xerox. Na verdade o sujeito empresta o laptop dele com internet. Grátis ele te dá um chá de cadeira incrível. Ele começa te atendendo, pára para xerocar alguma outra coisa, passa uma ordem pra alguém de dentro, mexe no computador, se distrai com alguma coisa, escuta umas vinte e oito resmungações em português de minha legítima parte, entra no quartinho, sai do quartinho, atende o celular, eu já estou em pé subindo pelas paredes, aí o sujeito coloca um monitor do lado de fora, espera mais um tempo, aparece com um teclado, deixa uns fios por perto, atende outra senhora, eu já tô no lexotan, então ele conecta alguma coisa e, por intuição minha, daquela que falha sempre que pode, eu já sento e ligo o computador. Daí uma voz lá de dentro, daquelas em creole que eu não entendo, diz ao meu amigo que o computador com internet é o laptop liberado ali. Faço uma cara fac-símile de idiota, me levanto do computador estranho, e já com a minha paciência adaptada a internet banda discada, envio meu arquivo. Pronto.
Subimos na moto naquele sol quase de meio dia, aquele que eu sou meio divorciado e partimos. No caminho asfaltado, talvez 10% das estradas haitianas sejam asfaltadas (lembrando que toda estimativa nesse país é baseada em presunções generosas), foi tudo nos conformes: pessoas vendendo coisas na calçada, motos subindo e descendo, alguns caminhões leves e ônibus escolares americanos repletos de gente. Como pressa, saneamento básico e 110v ou 220v não fazem parte do vocabulário haitiano, em meia hora já resolvemos parar para comer. Como eu não tenho iPhone com efeitinho retrô e uma vida descolada, eu não fico tirando foto do que eu como. Então não vou postar o tradicional prato haitiano, mas dá pra imaginar: spaghetti, em creole, ênfase no final, espaguetí.
Eu nem vou comentar sobre o tempo que a mulher levou pra fazer aquele pratão de spaghetti, ainda mais quando se está com fome. Como tinha um televisão (algo raro por essas bandas) ligada num filme meio americano, mas daqueles 100% lado B, dublado em creole, me distraí o suficiente para não resmungar muito.
O spaghetti é praticamente o mesmo do nosso. Ele é feito estilo alho e óleo, com um pouco de lingüiça, mas bem pouca, se bem que não é exatamente uma lingüiça aquilo, e um toque nada sutil de pimenta. Pimenta no macarrão. Mesmo passado esses últimos dois meses no México, onde vai pimenta até na água, e ter comido macarrão com pimenta, num erro clássico meu, onde saí com pra comprar molho de tomate e voltei com molho para tacos (!), ainda sim não me acostumei com a façanha. As últimas três garfadas, era um pratão mesmo, eu estava chorando com aquela pimenta. Compramos uma sprite pra segurar a lágrima furtiva. Tinha água, mas dá uma dúvida da procedência. Os haitianos tem uma resistência fera contra tifóide, disciplina e outras coisas que nos molestam. Ás vezes a água é boa pra eles mas pode dar uma zoada na turma do intestinão. E numa viagem dessas, de 4 dias sentido interior, era melhor não arriscar. Na verdade, acho que o André (piloto da moto e agricultor responsável pelo acompanhamento do projeto das sementes que visitaríamos), deu um golinho maroto. Então tá, só fui eu que não arrisquei em minha alva covardia.
Seguimos sentido norte, para província de Nord Ouest, e antes de atravessarmos a fronteira estadual o asfalto já tinha ficado pra trás junto com as plantações de arroz. Onde tem água tem plantação no Haiti. Principalmente arroz e milho. Tudo verdim., é bem bonito. Adeus asfalto e umidade, começa a estrada de terra, seca, por enquanto boa. A paisagem começa a ficar um pouco árida, vai surgindo cactos nas montanhas ao redor e o tempo resolve quase fechar.
Eu acho que na verdade o tempo fechou, mas abriu mais pra frente. É difícil acompanhar o ritmo da natureza aqui: seco, árido, respinga, chove, cacto, sol, mar, fecha o tempo, abre o tempo e, estar de calça jeans, uma camiseta e algum amuleto, já resolve o caso.
A essa altura, talvez uma hora depois do espaguetí, a estrada seca já estava naquele processo de lameação, buracos, pedras e princípios de poça que nos acompanharia até na hora de dormir. O piloto é obrigado a reduzir significativamente a velocidade. O que é uma delícia. Eu estava achando demais viajar de moto, bolei vários planos de atravessar a transamazônica até a Ilha de Páscoa numa vespinha envenenada, até perceber que 80% dessa viagem, pra tranquilidade geral da vovó, foi feita a 20km/h. Dá pra curtir a paisagem, cumprimentar a molecada na estrada, desviar das galinhas, burricos e cabritos com folga e o vento não transforma tua cara num quadro do Picasso. O único problema é que depois de duas horas você já está sentado num China in Box de nádegas… Só uma ressalva: é fundamental desviar de galinhas e cabritos aqui. No Haiti não existe muito o conceito de cerca. Só de corda. Eles, literalmente, criam os bichos na corda. Amarram uma corda no pescoço ou no pé do bicho e prendem na árvore. Alguns ficam soltos mesmo, na moral. Daí resolvem atravessar a pista. O problema que se um branco bate em algum carro ou atropela um bicho de alguém, mesmo que não tenha culpa, pode gerar um flash mob violento. Nesse tipo de mobilização os haitianos são profissionais. Aí vai o moleque chora e a mãe não vê...
A mini aventura começa no primeiro rio. O Haiti é surreal. Passamos por umas três pontes sem rios, e uns dois rios sem pontes. Aqui, a violência dos ciclones mudam o curso de alguns rios. Não que os rios comecem a subir ao invés de descer até o mar. Senão isso aqui seria a ilha do Lost. Os ciclones mudam os rios de um lado para outro, criam outros cursos. Então, tem 'rios' absolutamente secos, de pura pedra. Isso também acontece pela dramática situação ambiental haitiana. A erosão por aqui é terrível. Não há árvores pra reter água ou solo nas montanhas, então tudo vem descendo. Pura terra e pedra. O Haiti tem mais pedra do que queixas. O Haiti tem muita pedra, muita. Se a Palestina fosse aqui, o Estado Israelense já tinha dançado.
Enfim. Passamos rios secos, e alguns riachos que, por começar agora a época de chuva, se tornaram riachões. Não exuberantes como os da Amazônia, são modestos, mas significativos pro local. São barrentos e cheio de pedras. E não tem pontes. Por isso um monte de haitianos ficam na margem esperando gente passar pra ganhar um trocado transportando moto e passageiros pro outro lado. Claro, transportam na raça, é a balsa genérica haitiana. A moto foi pilotada por um cara que sabia das partes mais rasas do rio. O primeiro rio foi tranquilo, a água não batia na canela do motorista, mas era um trechinho maroto bem acima do rio, só quem é local saberia. A travessia dos pedestres era nas costas do haitiano. Ele era bem mais baixo que eu e obviamente muito mais forte. Sei lá porque eles são afoitos e queriam que eu subisse logo. Eu só olhando o vallet da moto se iria molhar minha mochila que tinha minha preciosa máquina fotográfica, fruto de muito trabalho. Tá ok. A moto passou numa boa. E, ao contrário do que um brasileiro mal acostumado espera, ele não deu um perdido com a moto e a nossas mochilas. Desceu e esperou a gente. Subo nas costas do sujeito, abraço como fosse meu melhor amigo e retraio as pernas. Atravessamos numa situação meio constrangedora. Além do fato dos outros haitianos na outra margem fazerem piadas do branquelo pendurado no negão, pensei em toda a relação escravista do passado latino americano, e estar na pele de um branco nas costas de um negro, que se molha até a cintura para eu não me molhar, me pareceu uma metáfora triste que me deixou meio sem graça.
O tempo já estava fechando, a viagem do dia estava na metade e não havia chuveiros e água quente nos esperando. Se encharcar até a cintura, num rio que não conhecemos os buracos, é um risco desnecessário. Pronto, passou a culpa. Mais um trecho comprido de lama, buracos, poças, burricos, boa tarde aos camponeses, pontes em vão e surge outro rio. Esse era maior e parecia um pouco mais forte também. Havia um caminhão atolado, com mais de 20 haitianos fazendo um esforço descomunal pra sacá-lo dali. Acho que eles estão até agora lá. Havia mais haitianos oferecendo o serviço de transporte. O mesmo valor, 100 gouds. Eu já tinha comentado que gouds é a moeda deles? 1 dólar vale 40 gouds. O cara da moto passou, meio no sufoco, deu uma atolada quase chegando na margem e precisou de uma ajuda pra sair dali. O rio era fera. Outro sujeito, outra garupa, mesmo constrangimento. Mas daí eu olho pra trás e vejo o André na mesma situação e começo a rir muito. A cena da gente, na garupa das costas do haitiano, de capacete, abraçando até com as pernas, mais juntinho que aquele metrô da Sé às sete, era muito engraçada.
A risada ecoava no meu capacete e maneirei para o haitiano não achar que era dele. Chegamos a outra margem, pagamos e partimos. No meio do caminho uma garrafa d'água cai do bagageiro. O bagageiro era duas mochilas e duas águas presas com um elástico firme. Paramos, recolhemos a água e seguimos. Talvez numa descida cheia de pedras, pulando muito, com o capacete tapando os ouvidos e enfim, nem sei que justificativa buscar, a mochila do André escorregou e caiu. E ninguém escutou. Quando a água caiu eu havia colocado no lugar junto, da mochila dele. E em menos de 10 minutos, perdemos a coitada. Paramos pra tirar uma foto do rio que estava muito cheio pra aquela época do ano, e quando o André pergunta pela mochila, ela não estava mais lá, só a minha. Me senti culpado de novo. Ainda largo essa vida de católico falseta…
Voltamos, procuramos, conversamos com os transeuntes e nada. Um gentil haitiano (eles costumam ser assim quando você chega na humildade falando a língua deles) surgiu do nada e guiou a gente de moto até a rádio mais próxima pra avisar a comunidade. Utilizei aquele meu espanhol barra brava pra conversar com os locais enquanto o André estava passando o recado na rádio. Muitos haitianos falam espanhol pela divisa com a RepDom, apelidarte da República Dominicana. E um inglês macarrônico bem melhor que o meu. O meu é aquele inglês de quem assistia 'Friends' há mais de dez anos atrás. Passamos na polícia e deixamos telefones de contato com as pessoas. Como dizia meu amigo Tim, a mochila 'nunca mais voltou'. Meu livro estava nela. Tchau livro. Boa parte do dinheiro do André, seu passaporte e seu caderno de anotações também. Deu um desânimo logo no primeiro dia, mas o André não se abalou muito. Se fosse eu, já tinha xingado deus e o mundo, por umas quatros horas consecutivas até alguém me trancar no chiqueirinho.
A tarde já caía e precisávamos seguir para cidade onde havia uma cama nos esperando. A gente não tinha pressa mas não é recomendável andar à noite pela estrada haitiana. Além de motoristas alucinados, não têm luz nenhuma. Só a do farol e olhe lá. Chegamos em Port-de-Paix (Porto da Paz, moleque!) na derrocada solar, meio lameados, meio desanimados, com fome, na verdade eu tava desanimado porque estava com fome, num edifício raro de três andares, no meio de uma quebrada digna do Haiti, estilo cortiço. Mas sem adornos e tramelas como os cortiços que gorjeiam aí no Bexiga. Me avisaram que essa cidade era feia mas, honestamente, me pareceu uma cidade comum do Haiti: moto pra tudo que é lado, ausência plena de calçada, ambulantes na rua, lixo na rua, água de qualquer procedência na rua, casas de madeira tortas, casas de cimento enfeitadas, gente falando, buzinando e crianças me gritando 'blan!'. Nossa estadia era num prédio estranho. Corredores cheio de portas estreitas, absolutamente escuros, algumas crianças surgem correndo, escadas tortas de concreto a kilômetros de um ISO 9000, fios pendurados e eu me sentia num conto do Kafka versão terceiro mundo. É um Processo caribenho. O edifício é de um camponês ligado ao Tet Kole. Ele também é engenheiro e construiu aquele prédio. Eu duvido que ele seja engenheiro. Deve ter sido um erro de tradução. Era um um labirinto escuro e torto. Divertido até, se você não mora ali. Seus filhos moram nos quartos do último andar. Inquilinos de favor vivem nos andares debaixo. São meio de favor porque o pagamento do aluguel não é fixo mensal. Não é sempre que os moradores tem dinheiro pra pagar. E fica por isso mesmo. No terraço-laje, vemos o sol se pôr e uma paisagem de casas mal acabadas como de qualquer periferia ocidental. A chuva começa a apertar. Sinal de lama pesada pro dia seguinte. Melhor não pensar. Água boa só do céu. Não havia banheiro com pia, água encanada, chuveiro, ou essas coisas que ajudam a amenizar mais de quatro horas em cima de uma moto. Tinha um álcool em gel pra segurar a consciência. O quarto que o moleque nos emprestou tinha uma cama bacana, um mosquiteiro reforçado e agora dois hóspedes famintos e com sono. Um dos filhos (eram quatro eu acho) não falava nada com nada, era meio pancada, e mesmo sem compreender o creole, eu me liguei que o menino era meio fora da casinha quando ele começou a falar um espanhol pior que o meu. Toda família tem o seu. Não havia jantar, mas um dos simpáticos filhos do dono do prédio tomou uma chuva de leve e comprou uns biscoitos, doces e salgados, e uma água, pra dar uma enganada. A energia elétrica vai durar mais umas três horas mas o carregador do celular do André ficou na mochila, então só temos nossa própria energia pra recarregar.
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