domingo, 1 de abril de 2012

Clotilde: uma roommate


O processo inicial ainda é de adaptação. Conhecer a vila onde vivo, as pessoas ao meu redor, o modus operandi dos haitianos e saber trabalhar dentro das limitações que a situação impõe. Como qualquer camponês, o haitiano trabalha muito. Um camponês que vive conosco, por um processo de rodízio de acesso a água para irrigação das plantações, ao qual eu não entendi ainda muito bem, precisa levantar às 3h da matina para aguar sua plantação de arroz. Aqui se produz (na região onde estou) muito arroz, milho, feijão e amendoim. Animal são cabras e galinhas. Quase não se vê cachorros. Não tem comida para eles. Boi também não é muito comum. O pasto é muito caro. As cabras podem viver nas montanhas e comem de tudo, por isso tem bastante. Ratos são freqüentes e pouco bem vindos. Calangos e lagartixas dominam o vertical. O calor é tanto, que depois do meio-dia o sujeito é obrigado a dar uma desmaiada. Eu durmo pesado depois do almoço, fico até sem graça pela minha conduta pouco laboral. Eu cheguei na quinta. Na sexta almocei um tipo de milho moído com feijão, forte e bom, que dei uma dormida profunda, acho que até conversei com meu falecido avô. Daí achei melhor jogar um futebol, aquele do fim da tarde no campinho aqui do alojamento, pra mostrar um pouco de vitalidade e toda aquela minha sabedoria futebolística acumulada nos últimos 26 anos. Os haitianos tem fama de discutir muito. São muito dramáticos. Gritam e batem boca por qualquer coisa. Mais importante que a jogada é discutir ela. Mas fica nisso. Ninguém briga. Vesti minha chuteira sem constrangimento de saber que a maioria joga descalço ou que alguns só calça um pé. O campinho é legal, grama rala, mas tem muita pedra e us desníveis que favorece o futebol feio. Mas isso também tem no Brasil, meti a pedalada e fui pra cima. Os haitianos são muito fortes. Entram forte, dividem forte, mesmo trabalhando eles são muito fortes. Mas parece que pra chutar a bola eles não são tão fortes. Ou ainda não pegaram a manha de chutar na veia da bola. Num dos meus primeiros lances, chutei uma de peito do pé na trave, que fez o povo ir a loucura. Aplaudiram e me cumprimentaram por ter um chute muito forte. Fiquei surpreso depois fiz uma cara de "eu faço muito isso no Brasil...". O campo é de futebol 7, jogamos com 5 na linha. As laterais são convenções subjetivas e o tempo é determinado pelo sol. Estava à vontade. Poucas coisas sei fazer na vida quanto jogar futebol. Aliás, poucas quase nenhuma. Dei passe pra gol, cortava, roubava bola e bola na trave. Então matei uma bola difícil e cortei um sujeito que jogava bem. Daí ele me apresentou seu cartão de visita: bum! conheci o chão. Nem vi o golpe. Só vi grama. O sujeito me de uma espécie de carrinho com judô que estatelei no gramado. Meu amigo brasileiro teve a sensatez de pedir falta porque eu já ia pedir prisão, extradição essas coisas. Depois disso otimizei as divididas de bola: praticamente não entrei em mas nenhuma. Tinha um sujeito mais tranquilo, mas quando eu virava as costas e contornava, bem drible de salão, o sujeito puxava meu braço com as duas mãos. Achei melhor fazer corpo mole. A gente acabou goleando o outro time. Mas eles não ligavam. O importante era jogar um futebol no final da tarde, indiferente ao resultado. Fiquei contente e fui pra ducha. Quando chego no meu quarto, a Clotilde me deixou uma surpresa na cama ao lado. A partir daí a Clotilde se tornou minha primeira roommate no Haiti.

Um comentário:

  1. Huahahah! Rafa!

    Que saudades de você!

    Ri muito com esse relato futebolístico! Carrinho com judô é demais! Mas convenhamos, esse é o melhor jeito para você viajar heim!? De futebodelas em futebolas! Adorei!

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