Último dia do Diário de Garupa. Hora de voltar. Nossa viagem começou com uma parada para um espaguetí, companheirto de marmita que nos acompanhou todos os dias pela manhã. Pra se despedir não seria diferente: sete da manhã, espaguetí pra turma! Eu fico feliz só de lembrar. O Professor ainda fez uma ressalva, vocês terão uma viagem muito longa pela frente, coma bem. Claro, Prófe, deixa comigo. Comi dois pratões chorando de alegria. Esse espaguetí já não tinha pimenta e o Professor ainda ofereceu um catchup pra cooperar. Lá da onde eu venho, catchup em qualquer tipo de massa, e isso inclui pizza, dá cadeia ou enforcamento por justa causa. Mas eu estou longe da onde eu venho. O espaguetí de massa dominicana e linguicinha sabe-se-lá de que porco permite essas exceções. Aliás, estou pensando em parar de comer porco. Um amigo me lembrou que porco, diferente da vaca, só como tranqueira. Daí eu vi aqui uns porcões na corda, envoltos em sujeira e tristeza, me fez repensar. O problema é o salame. Faz quase cinco meses que eu não como um salaminho dá pesada. Enfim. Comemos um espaguetí, gravamos o depoimento dele, dei minha camisa do Corinthians, 9 Ronaldo, pro filho dele, o adolescente que não é capeta e gosta de futebol. Por incrível que pareça, tem camisetas de clube do Brasil aqui no Haiti. Não sei se é o povo da Minustah (exército da ONU que ocupa o país e faz um semblante pra lá de polêmico de polícia) que deu, ou de outras entidades brasileiras, mas eu contei umas 3 camisas do Grêmio, 1 do Flamengo, 1 do Sport. Da seleção brasileira nem se fala. Num dia você vê tranquilamente umas 3, 4… Agora tem uma do Coringão pra consolidar nosso projeto de internacionalismo sem Libertadores. Vai Corí! Comemos, gravamos um depoimento do professor e tiro mais fotos. De repente minha máquina dá uns pau na hora de ver as fotos tiradas. Como era uma viagem de 5 dias, na garupa de uma moto, com pouca possibilidade luz elétrica, não era recomendável levar um laptop. Então eu levei os únicos dois cartões de memória que eu tinha. O 32GB completei de fotos e filmes e as últimas 24horas seriam no cartão de 16GB. Mas era a primeira vez que eu usava, e sei lá desses processos de compatibilidade de cartão SD, só sei que funcionou normal na praia, e pela manhã algumas fotos tiradas deram pau na visualização. Alguns vídeos também. Achei que era uma crise da máquina mas que passava. Mas não passou. 5 minutos depois que eu saí da casa do Professor, a máquina disse que não reconhecia o cartão e que não era possível acessar as fotos tiradas. Zica! Perdi a entrevistinha com o Professor. Fiquei chateado. Passei a viagem inteira rezando pra chegar em casa e conseguir abrir no computador. Mas não rolou. Ainda baixei um programinha de tentar recuperar, mas não rolou. Engoli o choro, abracei uma árvore pra liberar a tensão e, com os olhos marejados, pensei: o que o Caco dos Muppets Baby faria numa situação dessa? Prometi não formatá-lo até chegar em São Paulo em algum lugar especializado em alguma coisa dessas. Mas tudo bem, não foram muitas fotos. Algumas tinha passado pro lap do Professor. O problema foi a entrevista mesmo… Enfim. Espaguetí, estrevistá, abraços, fotos e partimos. Fazia um ligeiro friozinho quase serrano na montanha. O cenário era surreal. Jamais suspeitaria que aquilo era o Haiti. Uma névoa espessa sobre o morro, as pessoas como silhuetas ao longe, um ar meio limbo meio noir. Meio Hitchcock tropical. Muito doido. Crianças uniformizadas indo a escola, camponeses indo a lavoura, uns pé-de-banana enevoados e a gente desviando de poças e buracos. Que viagem! No meio de uma ladeira alguém chama o André. Devia ser um local amigo dele. O André, em seu trabalho na Via Campesina, passava muitos dias nas comunidades rurais, acaba conhecendo muita gente. O cara pára ele, cumprimenta contente, conversam, eu tento recuperar meu cartão em vão, desisto, eles falam mais alguma coisa, e o cara vai pegar uma carona com a gente até um ponto onde ele sabe que está interditado por causa da chuva da madrugada. Lá vai eu pro chiqueirinho da moto. Não me importo de ir pra ponta, no bagageiro, mas se tivesse uma almofada seria mais digno. Começa uma subida, descida, poças e buracos. Eu me seguro. O cara no meio fala qualquer coisa com André. Minha mochila agora está em minhas costas, pesando pra trás. De repente, passamos numa poça, que tinha um buraco, a moto dá uma atolada e quase cai pra trás. Minha mochila, safada, bem que tentou me derrubar, mas conseguimos enlamear os pés, poupando de enlamear, no princípio de uma viagem de 4 horas, o corpo inteiro. Deu um frio na barriga quando a moto inclinou para cima e vejo 80 quilos de haitiano escorregando na minha direção enquanto aquela poça, marrom avermelhada, boa pra pele, ruim pra auto-estima, se aproximando. Mas deu tudo certo, o André é de Rondônia, está acostumado com trâmites enlemeados e conseguiu se equilibrar. Ele foi um excelente motorista toda a viagem, mesmo com as minhas piadas sem graça atrapalhando sua concentração, ou quando eu pensava em batucar um Molejão no seu capacete. Chegamos num ponto alto, perto de um cruzamento. O amigo haitiano desce, avisa sobre uma pista pro André e ainda consegue alguma coisa tipo 5 gouds pela 'dica'. Esse sim sabe ganhar uma carona e um trocado. Ele não disse nada demais, o André já sabia daquele caminho e ficou com uma cara de 'era pra isso que você veio até aqui?'. Saímos da região da montanha e já muda o micro clima haitiano. Já está quente, não tenho necessidade de estar com uma camiseta debaixo de uma camisa. O caminho da volta será outro. Chegamos numa cidadezinha tranquila como toda cidadezinha haitiana. Paramos pra comprar uma água. Jovens parados na sombra jogam conversa fora. Caiu a ficha que aqui não tem trabalho pro povo. Os camponeses esperam a chuva pra poder plantar, caso não tenha um canal próximo para irrigação. Os jovens ficam na sombra esperando acontecer alguma coisa no país. Não tem essa de horário comercial. Funciona enquanto tiver luz. Sagrado é o domingo onde não fazem nada mesmo. Seguimos viagem. Atravessamos cerrado, caatinga, tudo genérico, só não chegamos no Pantanal porque grande parte da natureza daqui sofre aquela erosão. Tem um sobe desce discreto, depois ficou tudo plano. Naquela mesma de desviar de poças, pedras, cabritos e buracos. Estamos perto do litoral e o sol das 8 ou 9 já está rachando. O vento te esfria e faz pensar que o sol não tá te queimando. Passamos por uma espécie de salina. Tem uma estrada plana, boa, lisa, de terra batida sem pedra. Só ali e no asfalto abandonamos os 30km/h. Mas era bem surreal, desértica, quase não se via pessoas. Moto só de vez em quando. Montanhas ao longe, sempre nos acompanhando, o mar imenso e lindo ao lado. E a gente numa salina que dava pra pousar um avião. Aliás, se sal é 'feito' daquele jeito nunca mais salgo nada. Era uma terra batida, meio suja, uma água estranha passava por perto. Nem sei como eles coletavam aquilo depois que secava. Voltamos para a estrada de terra e pedra e lentidão precavida. O mar ao lado tem um ou outro pescador. Paramos pra fazer uma boquinha. Era um maché daqueles de beira de estrada. Daqueles que na primeira semana de Haiti você recusaria comer sem dúvida. Mas se é frito não deve ter problema né? Tudo que é frito é bom. Comemos um peixinho sem antes eu insistir pro André pechinchar aquele preço. Eles dobram o preço sem dó para os 'blan'. A mulher tinha uma cara de malandra. E dá-lhe negociação, e troca o peixe, e muda o preço, eu só apontava pra outra vendedora, e chamava o André pra ir lá como se fosse uma ameaça. No final das contas o André conseguiu mais um peixinho por um preço bom. Motoqueiros perguntam se o André é dominicano, eu passo um inútil protetor solar, lá pelas 11h talvez e seguimos num sol de deprimir criança numa loja de doce. Volta ladeira, buraco e uma paisagem árida junto ao mar. Uma pedra branca, enorme é esburacada por trabalhadores que vão usar na construção civil. Aquela que eu nunca vejo ninguém trabalhando. É um buracão no meio da pedra, meio perigo segundo meu audacioso conhecimento em escavação de pedra.. Aparecem mais jangadas no horizonte pra aliviar minhas perguntas por metro quadrado ao André, sobre o fato de ter um litoral enorme e quase nenhum pescador ganhando a vida, ainda mais aqui, onde tudo é escasso, até o vocabulário. Os motoqueiros que estavam no maché do peixim passam pela gente. Buraco, bagagem, e mais de dois ou três passageiros não são o suficiente pros haitianos diminuírem a velocidade. Eles pilotam demais por aqui. Uma buzinadinha simpática e em cinco minutos já avistava eles ao longe, lá na frente. Sobe, desce e estamos chegando numa cidadezinha de médio porte. Significa só que tem um caos na estrada, cheio de moto, gente e coisa e que agora a pista está asfaltada. Já estamos chegando. Atravessamos uma mistura de Saara de temperatura com Tóquio de gente. O trânsito vira um emaranhado doido. Só as motos vão desviando. O sol está me cozinhando. Se eu fosse um peru aquele trequinho vermelho já tinha saltado. Atravessamos a cidade-rodovia e estamos na auto-estrada bem asfaltada perto de casa. Daí pode aumentar a velocidade. A paisagem já é conhecida. Está verde, há plantações de arroz, montanhas em volta, carrões pra cima e pra baixo e em uma hora já estávamos em casa. Chego ardendo como um camarão. Tive a genial idéia de voltar sem capacete. O Haiti não tem muito essa de capacete, imprudência ou acostamento. A velocidade baixa da moto me deixou tranquilo. Não tem perigo. Perigo é beber água sem saber a procedência. Se bem que no asfalto, quando aumentou a velocidade e o vento empurrava minha bochecha e secava minha íris, mesmo de óculos escuro, eu pensei em colocar o capacete. Mas só pensei. Não pus. Mas aí entendi a função do capacete, pra além de acidentes. Imagina meu cabelo que não via xampu há dias. O sabonete estava comigo e o xampu estava na mochila do André, aquela que perdemos no primeiro dia. O banho foi numa ducha no quiosque da praia. Água boa, mas por si só insuficiente pra tirar aquele sal do cabelo. O vento, espesso quando está numa moto, empurrou meu cabelo pra trás, já meio duro. O resultado, além de parecer que eu tinha levado um choque de todas as voltagens possíveis, era que o danado deixou uma parte singela da minha entrada-careca-em-fase-de-expansão desguarnecida. Imagina uma pele que passou os últimos 26 anos sem ver a luz do sol e, quando vê, é o sol caribenho do meio-dia. Errei. Me sentia quente, mas estava feliz. A viagem foi inesquecível. Antes de chegarmos paramos no posto perto do alojamento para uma digníssima Prestige gelada e um Pringels. No Haiti tem vários Pringels. No Haiti tem tudo, só não tem serviços básicos pra população, como acesso a água limpa. O Pringels aqui custa equivalente a 4 reais! Imagina o que a gente paga de imposto no Braz. Aqui tudo é importado e não tem taxa de importação simplesmente porque não tem uma indústria nacional pra proteger. Só a Prestige, cerveja premiada na Alemanha. O Haiti é o capitalismo puro, eu sua face mais cruel. Se você tem dinheiro você toma Heinekken, compra um Blackberry e com um gerador, liga um laptop com acesso a internet. Se você é um camponês pobre, que depende da chuva pra plantar, você bebe água barrenta da beira da estrada, toma banho nessa água, cozinha nessa água, e utiliza ela pra alimentar seus filhos. E estes são a grande maioria por aqui. Terrível. Hospital não tem nem a sombra. Só conheci um centro médico numa cidade por perto, onde são os médicos cubanos que trabalham. Aliás, os cubanos construíram vários hospitais emergenciais no Haiti depois do terremoto. A Venezuela afastou umas estradas, o Equador fez umas pontes e o Brasil me enviou! Ri alto agora. Eu vim por conta própria. Enfim, a viagem de motoca depois de 18,4 biomas, camponeses, cabritos, buracos e poças, pessoas amáveis, simpáticas, figuras e uma paisagem natural linda mesclada com uma periferia crônica, teve saldo pra lá de positivo, mesmo com a perda da mochila, passaporte e dinheiro do André, e eu perdi meu cortador de unha e a entrevista com o Professor. A lembrança geral é fantástica. Os causos… A vontade é de voltar um dia e atravessar o país inteiro de moto. Onde houver uma estrada, onde houver uma moto, onde houver um protetor solar fps30 pelo menos, eu estarei lá.
segunda-feira, 23 de abril de 2012
domingo, 22 de abril de 2012
garupa, dia 4
Acordei de madrugada com uma vontade de regar um pé de baobá, desde o nascimento até a velhice aguda. Lá fora, barulho de chuva, ou de gotas antigas que caiam no telhado. Não há forro. É a telha direto, de zinco. Cada semente de um pé de não-sei-o-quê que cai em cima dela faz barulho. Quando chove é demais. Deu uma chovida no dia seguinte. É bom dormir com barulho de chuva. Voltando, pensei em regar toda aquela flora mas desisti. Não achava a minha lanterna, era um breu federal, e provavelmente bichos pervertidos, daqueles que só podem sair no escuro, devem estar dominando todo o quintal enlameado. Dormi. Acordo com a molecada. Dessa vez eles estão comportados se arrumando pra escola. A escola é uma instituição bem formal no Haiti. Todos vão bem uniformizados. Meninas de saia e fitas na cabeça. Meninos de bermuda meio social e sapato. Acho que meu avô se vestia assim em seus idos. E eles também apanham na escola. Não aprendeu, não fez a tarefa, leva um sopapo na maldade. Aqui realmente é um século dezenove respingado de vinte um. Mesmo que a família seja bem pobre eles tem uniforme escolar. Bom, não pode ser muito pobre porque mais de 80% (segundo as estimativas subjetivas haitianas que eu ouvi falar) das escolas são particulares. Inclusive as públicas. Eu digo que o Haiti é surreal. Escola pública é paga aqui. Daí os moleques se arrumam, a mulher já fez o café, eu estou pronto pra ir a praia montando na garupa e o Professor insiste pra que não saíamos em jejum. Não sou muito fã de comer logo cedo, acho que eram umas 7h, mas sou menos fã ainda de fazer desfeita. Meti aquele chocolate quente pra dentro e acho que rolou um pãozinho. Tá ótimo, amigão. Partiu. O Professor perguntou se veríamos o 'forte' e indiciou um amigo para nos acompanhar na apresentação do lugar. O 'forte' é a ruína de um forte de mil setecentos e pedrada, para usar termos locais, que repelia, na base do canhão, as invasões, os piratas e depois serviu como resistência contra os franceses. Ponto histórico. Aceitamos a oferta do amigo e ficamos de nos encontrarmos lá. Garupa, mochila e descida rumo ao mar azul do Caribe. E dá-lhe lama. Pegamos um caminho diferente da ida, e descemos por outro lado do morro. Chegamos numa estrada razoavelmente asfaltada que tornou metade da breve viagem a praia (talvez 1 hora) mais amável para com meu traseiro surrado e castigado. Fiz outras panorâmicas tremidas, tortas e sem nexo, só de recordação. A estrada já voltou a ser de terra, a chuva não chegou praqueles lados e logo chegamos na cidadezinha portuária. Um senhor grisalho grita alguma coisa na rua, sinaliza e nos alcança nos impossíveis 30km/h. Era nosso guia. Sobe na garupa! Agora estamos em três, coisa mais que normal, pra não dizer obrigatória no Haiti. Só a relação do haitiano com a moto valeria um blog próprio. Eles levam cabras, de 4 a 5 cinco criancinhas enfileiradas, carrinho de mão e, inclusive, outras motos. Tudo isso eu sou testemunha ocular. Só duas pessoas na moto é muita folga, coisa de playboy. Três é comum, quatro é assim a vida e cinco podia ser pior, você poderia estar a pé. Enfim, fui pra parte mais detrás, tipo bagageiro que é de metal e deixei o guia no meio pra ir falando o caminho pro André. Aí começou minha via crucis bundis. Pegamos um trecho curto, mais cheio de pedras, daquelas que machucam e, iniciando uma pequena subida que foi rápida, mas pulava tanto nas pedras, batia tanto, e eu sentado naquele ferro-bagageiro…Pai do céu, só não chorei porque já não pega bem ser branco aqui, ser branco e chorão, aí te extraditam. Chegamos no forte depois dos cinco minutos mais longos e angustiantes da minha pobre existência. Eu pensava que era uma espécie de ponto turístico. Na verdade é. Mas foi ingenuidade minha, daquela de sachê 200g que eu tomo todo dia de manhã, achar que teria uma entrada, monitores, sei lá, um vigia cuidando do lugar. Tem um placa e toda negligência do povo haitiano. Completamente abandonado, com o interior todo pichado. É uma construção de quase 300 anos. Tem muita história ali. Perguntamos alguma coisa pro nosso amigo-guia que ficava calado, e ele disse qualquer coisa que já estava escrito no painel. Não explicou mais nada. Acho que ele não tinha muito o que fazer e quis passear de moto com a gente. O forte tem uma vista linda, água bem azul com requintes de verde-claro-transparente-guia-de-viagem. Ainda vimos uma parte quase anexa que possuía uns canhões e outros visitantes, mas o mesmo descaso. Um lixo enorme jogado naquele batente antigo. Aliás, o lixo é um problema aqui. Não tem coleta, não tem saco, não tem nada. Tem a beirada das ruas. Até em lavoura sendo semeada eu via lixo incorporado ao ambiente. O André foi levar o senhor até o ponto que o encontramos já que não havia mais nada de histórico para ver. Dispensamos o guia e fomos pra praia. Era ali do lado, num quiosque isolado num ponto lindo de uma espécie de quase-baía, ainda segundo meus já requisitados conhecimentos geológico-geográfico-geoestático. O dono era um francês, bem estilo gente que vive da praia, meio surfista bicho-grilo. Mas o cara trabalhou numa ONG no Haiti por mais de cinco anos e resolveu largar pra viver naquele sossegado lugar banhado de beleza. O padrão francês de qualidade é um oásis no Haiti. Quiosque de praia boa mesmo. Cadeiras e mesas boas, banheiro digno, ducha meu deus do céu e um cardápio incrível a preços haitianos. Vendo aquela pobreza-miséria da vila de pescadores, não consigo imaginar da onde ele consegue sustentar esse quíosque que tem espaço pra camping e quartos pra alugar. O André me disse que tem uma época do ano que dá uma bombada ali. Ou deveria dar. Deve ser o que sobrou da classe média haitiana, ou uns dos 2 milhões de haitianos que vivem nos EUA e Canadá, quando vêem visitar a família. De fato o preço é o padrão do Haiti. Não há nenhum acréscimo pelo lugar sem bonito, limpo, organizado, ter água com saneamento e luz elétrica. Havia placas solares (muito comum no Haiti, até os camponeses tem) mas ele também fez uma gambiarra discreta e ligou o motor do carro em algum freezer. A praia era linda, areia boa, sem onda e a beirada do mar era de água límpida 100% transparente. No horizonte um barquinho pesqueiro, igual as nossas jangadas. E também havia um recente resto de alguma coisa grande de metal. Tinha uma silhueta de um caminhão, mas poderia ser a parte estrutural de um barco também. Não sei, não deu pra distinguir. Mas era grande e deteriorado. Foi o ciclone que trouxe pra lá. Ciclones são assim, criam açudes e tiram as coisas do lugar. Conheci uma senhora francesa simpática e pratiquei um inglês assustadoramente macarrônico. Eu falo como um índio, conjugando apenas em primeira vergonha. Mas deu mais ou menos pra gente conversar. Todo mundo é simpático nesse país, até a francesa. Depois dela só havia duas garotas e um cara. Acho que os três trabalhavam pra empresa de celular que recarrega créditos por aí. Se bem que só uma tinha a camiseta. Uma delas puxou conversa quando viu minha câmera, fez aquelas perguntas básicas, depois foi atrás da gente na praia e disse que queria casar com um brasileiro. Só pra ter alguém pra visitar e fazer uma viagem. Claro que sim. Esse é o André. Ele é brasileiro e fala bem a tua língua. O André fez o mesmo comigo. Mais pra frente tivemos um diálogo de baixo calão ao qual ficou claro essa tal idiossincrasia haitiana. No final das contas elas partiram lá pelo meio dia, uma hora, depois de pedir mais fotos, e ainda uma cerveja. Claro que a gente não pagou. O povo adora pedir que a gente, do nada, pague alguma coisa pra eles, e a gente adora recusar. E é do nada mesmo. Curtimos aquele marzão de meu deus, a água era ótima, tomamos um solzão e eu caprichei na sombra, naquelas espreguiçadeiras de hotel de bacana. Comemos um peixe assado de fazer você repensar essa coisa de voltar ao Brasil, e talvez iniciar uma sociedade com o francês gente fina. Mais uma cerveja, solzim, cochilo, aquela vida e retornamos antes de escurecer. Ainda chegaram na praia os visitantes que estavam junto do forte, que havíamos visto algumas horas atrás. Pareciam de uma excursão. De fato, o haitiano não é muito de praia, mesmo com um litoral incrível. Dava pra ver que a turma não era muito habituada com a dinâmica da maré. Eu sei que tem hotéis de luxos em praias privadas por aqui, mas é como Cancun, coisa pra gringo que chega direto no hotel e dificilmente passa por dentro do miserê do país. Na volta de motoca, vejo crianças carregando uma trouxa de galhos na cabeça pra virar carvão. É uma cena comum. Mas dessa vez deu uma sensibilizada. Não se foi a Prestige ou pôr do sol… Mas o moleque tava com uma cara triste, coitado. Em geral você a molecada ajudando no trabalho pesado, carregando água pra cima e pra baixo, levando peso mesmo, mas com uma cara já conformada, do tipo, a vida é isso, paciência. O povo tem essa cara cansada mas conformada. O moleque destoou com uma certa dor de estar fazendo aquilo. Falei pro André dar uma carona, mas já havíamos embalado pra cima, e há uma norma pra não dar carona desse tipo, porque se ocorre algum acidente o povo haitiano vai fazer justiça com as próprias mãos e etc e etc. E significa que vão matar a gente de forma lenta, cruel e talvez ainda façam um troço pras nossas almas ficarem presas pra sempre no limbo.
Esse é o problema do Haiti: ajudas pontuais não tem um efeito de mudar a estrutura, ou a ausência dela. Subimos mais, voltamos, suspeitamos de garoa, aceleramos, deu preguiça, reduzimos, e chegamos no Professor são e salvo e limpos. Veio aquele jantarzão, aquele sono, aquela conversa com o Professor e, depois a conversa da noite passada resolvemos gravar um breve depoimento dele sobre a situação do Haiti e a relação do movimento dele com a Via Campesina, com ênfase na história dos agrônomos e do trabalho com o futebol. Parecia que a chuva voltava ou eram muitas sementinhas caindo da árvorezona por cima do telhado. O tempo estava mais frio mesmo. Os moleques capetas estavam mais calmos, o Professor menos conversador e capotamos felizes, depois de dar tchau ao mar do Caribe e o mais próximo que eu já cheguei do capitão Sparrow.
sexta-feira, 20 de abril de 2012
garupa, dia 3
Alguém tinha me dito, muito provavelmente o André, já que ele era a única pessoa que falava português num raio já de 200km, de que haveria uma reunião na quarta, às sete da matina. Vê se pode… Mas não tem problema, o sol nasce cinco e alguma coisa, os mosquitos te acordam as seis e qualquer coisa e, o fato de estar abusando da hospitalidade, no quarto-sala quase loft se não fosse o excesso de parede, de um haitiano gente fina, faz você acordar cedo pra caramba. E pelo terceiro dia consecutivo, despontando como comida padrão do Haiti, para café da manhã, cedo e meia, aquele pratão que me faz sorrir só de ver a silhueta na tigela: espaguetí. Hmmm… espaguetí… eles sabem me agradar. Quanto mais dentro do interior, menos pimenta vai no espaguetí. Melhor pra mim. Comi como o Mogli quando vê uma plantação de banana. Agradecemos muito, eu agradeci mesmo, com bastante ênfase, como se nunca mais eu fosse ver essa família generosa e acolhedora, até perceber que o cara que nos hospedou e sua esposa estariam novamente conosco em dez minutos, já que eles participariam da reunião. E a reunião era na casa encantada, sem parede nem nada, só com umas pedras pra sentar. Sentei no meu capacete e deixei a pedra pra um próximo que estava em pé. Foi um desafio bundístico ficar sentado naquele capacete. Como não entendo nada de creole, nem me constrange de levantar no meio da reunião e fazer mais fotos do entorno. Retorno, mais uma meia hora de depoimentos, anotações e conclusões sobre a parceria da Via com o Tet Kole. Eles agradecem, sorriem, elogiam e se abraçam: fotos. O André está voltando ao Brasil e faz uma despedida mais significativa. Fim da reunião, vamos à base que fica ao lado, onde o cara iria nos hospedar deu um perdido. Depois ele se desculpou muito, ficou sentido, a gente dizia, aliás, eu disso isso no meu breve depoimento na reunião, que a hospitalidade haitiana é comovente e fará meu blog repetitivo. A parte do blog é brincadeira. Peguei o depoimento do Lulinha de maneira constrangedoramente amadora. Mas o áudio, graças a deus, ficou razoável, minha maior preocupação, já que comprei um microfone festas-infantis-do-titio-da-VHS. Ripa na chulipa e precisávamos partir dali para agilizar nossa ida à praia no dia seguinte. A paisagem eu não lembro de cor, mas dessa vez tinha mais erosão, cactos, semi-árido, árido completo, mata, bicho, deserto e, depois um pouco de morro. Vem uma descida, subida, pessoas em cima de burricos, carvão no lombo, criança no colo, cercas tortas e cabritos na estrada. Paramos pra ajudar um haitiano que tinha a corrente da sua motinho rompida. Emprestamos uma chave de fenda e achei fantástico esse gesto de generosidade já que uma corrente de moto, parecida com a de bicicleta não tem fenda alguma pra poder usar uma chave de fenda. É que nem pregar um prego com um alicate: obrigado mas isso não serve. Mas o haitiano malandro fez servir. Pegou uma pedra, naquele festival lítico da natureza e, com a chave de fenda engatada em alguma dobra ali da corrente, tirou uns pinos. Depois juntou outra parte, pedregou outro pino pra dentro e, em menos de meia hora, o sujeito consertou uma corrente de moto no meio do quase-deserto haitiano, com uma pedra, chave de fenda e minha indispensável ajuda de fazer sombra. O Haiti até tem um movimento em suas estradas. Sempre vai passar alguma moto, e se você precisar de ajuda aposto que eles vão parar. O problema se der uma zica na moto é guinchar a danada. Ou atravessar um rio com ela morta. Ou dormir em cima dela enquanto não aparece ninguém e o sol alucinado te torra que nem amendoim em porta de estádio. Enfim, torce pra não quebrar. A nossa, chinesa de nascença, brazuca de profissão, só engasgava ali na ignição, de resto ela foi direitinho na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapé.
Já não lembro quanto tempo depois, mas chegamos num rio, que deve ser duas vezes mais largo que o Tietê e umas cento e oitenta quatro vezes mais vazio, já que não tinha mais água, era literalmente uma estrada de pedra. Isso que começou agora a época de chuva. É curioso subir um curso de um leito vazio de um rio, pura pedra. No máximo uma brechinha de água, bem tímida, furtiva, esquálida, na beiradinha de alguma encruzilhada de pedronas. Ali se vê as lavadeiras e suas trouxas na cabeça. Passamos pés de mangas, que tem muito por aqui, outros cactos, cabritos e burricos e seguimos subindo sentido tropical. A paisagem vai ficando mais verde, um verde mais vivo, a temperatura cai um pouco, tudo é mais úmido, inclusive a estrada. Começa um princípio de lama com aquela ressalva de possibilidade de chuva. Só a falta de gasolina ou preguiça pode parar a gente. Seguimos adiante, porque era muita subida, e se escurece, com chuva, aí sim, a vaca, a porca, as cabritas e os dois brazucas de moto vão pro brejo. Já suspeito que passamos alguma trópico de câncer haitiano porque a paisagem já está sub-tropical segundo meus rígidos conhecimentos técnicos baseado no wikipedia. Meu conceito de subtropical é basicamente o seguinte: se tem uns pés de bananas, coisas verdes escuras, o tempo está mais úmido mais ainda não está chovendo sempre, é subtropical. Ponto. Se chover todos os dia no mesmo horário, açaí, bananeira, Iracema, aí sim é tropical. E dá-lhe subida. Mas agora é subida estilo subir a serra. Era quase uma serra mesmo, mas de uma montanha só. E a lama vai aumentando, e vai surgindo riachinhos no meio do morro, e um processo haitiano fantástico de construir ponte, que é basicamente começar um pilar de uma ponte e depois de uns dois quilômetros tem um troço que parece um trecho, como resto de ponte. Pra variar não vi ninguém trabalhando nela. Aqui no Haiti se vê bastante coisa em construção, principalmente casa. De tudo que vi em construção, inclusive na cidade em que estou alojado, nunca vejo os trabalhadores. Vejo cimento, tijolo pelo meio, andaimes de madeira, segundo andar em stand by, e ninguém trampando. Pode alugar uma casa ao lado de uma construção que não tem martelada, sons metálicos, caminhão de areia causando na rua, nem a moçada do assobio mexendo com a mulher alheia.
Seguimos passando riachinhos, agora uma lama generosa, velocidade diminuída, quase alcançando os pedestre e passamos um buraco, daqueles que tragam tudo em volta, daqueles que imitam precipício que valeria a pena, seria de bom tom, colocar uma placa ali, um balde com luz sinalizando a presença da morte sem volta praqueles lados. Mas a estrada, em geral, não é perigosa, vai buzinando nas curvas que as pessoas te 'vêem'. O piche de lama faz o povo andar na moral. Só a fome faz o povo andar com pressa. E seguimos subindo, esfriando, lameando mais, às vezes garoando. Na prática só pegamos garoa, nunca chuva, do tipo de lavar o burrico.
Já estamos no meio do morro, seguimos subindo, as casas sumindo, o sol rimando se despedia e a lama aumentando. Junto com a inclinação da montanha. Mais pra cima tinha sinal de pessoas. Não entendia o que aquele povo estava fazendo no alto de uma montanha no meio do nada… Mas era no alto mesmo. Ou você tem uma moto no Haiti ou você vai na padaria comprar cigarro e nunca mais você volta. Fazer as coisas a pé é pagar promessa… A essa altura eu já desisti de fazer as minhas panorâmicas de parkinson, com as tomadas mais tremidas e provavelmente inúteis que eu já fiz. É melhor usar as duas mãos pra se segurar que a estrada de lama está desafiando os forasteiros. Uma hora a coitada atolou. Tive que descer. Caminhei cinco metros até subir de novo, e eu já podia plantar um pé de abacate na terra que acumulou no meu solado. E aí escorrega mais. Eu e meu apropriado tênis urbano pra lamas, sola lisa de 'não-risque-o-assoalho-da-vovó'. Mas deu tudo certo. Me mantive na vertical quando necessário. Finalmente chegamos no topo. Agora já se configura uma cidadezinha, tem aquele portal de bem-vindo, fala alguma coisa sobre pessoas de paz e a construção mais inteira, bonita e maior é uma igreja católica, recém-inaugurada. O resto é no padrão Haiti. De exceção uma névoa suíça habita o topo da montanha. O clima já pede um agasalho, uma chocolate quente e uma frescura qualquer de Campos do Jordão. Difícil acreditar que estou no Haiti, a paisagem já mudou completamente. Seguimos a casa de um camponês que é diretor de uma escola primária, ginasial, agora não lembro, no meio da subida de todos os santos. O cara é um figura. Eu vou chamar ele de Professor, porque sempre esqueço o nome dele. Quando você escuta muitas palavras novas de um idioma novo é difícil decorar uma coisa específica. A não ser que seja coisas afrancesadas, tipo Pierre. E como o sujeito tinha um jeito de professor mesmo, no modo de perguntar, conversar, o apelido pegou entre a gente. Às vezes eu chamava ele de zoião porque ele é meio estrábico, mas é mancada. Então vai ser Professor só. Chegamos numa casa até que boa para o padrão haitiano, porque era de tijolo. Mas estava bem caindo aos pedaços. De todas as casas que visitei, acho que aquela de ontem que ofereceu um arroz com feijão no meio da tarde, e tinha os recorte de revista pendurados na sala, era o que tinha a casa estruturalmente mais inteira. Essa casa de agora era naquele estilo mesmo haitiano. Banheiro é uma fossa tenebrosa do lado de fora, portas estreitas, luz com tempo contado, água de bacia da chuva. Cozinha também é um cômodo do lado de fora. Isso é um fator importante que eu acho que desnorteia nós, brasileiros famintos e habituados a conversar na cozinha. Tenho a impressão que a cozinha exerce um papel social numa casa brasileira, principalmente as antigas, que fica um vácuo nas habitações haitianas. Se bem que hoje os apartamentos tem um closet com um microondas embutido numa geladeira. Não dá nem pra sentar. Mas as casas antigas tinham cozinhas legais. E pra quem não gosta de tv mas gosta de café, cozinhas são fundamentais. O Haiti também não é muito de tv. Só vi duas tvs em duas semanas. Uma no restaurante outra numa estrada, num ponto de moto taxi. Enfim, chegamos, cumprimentos alegres, hospitalidade, uma cadeira num lugar que é quase entrando e quase saindo da casa, exatamente no meio do caminho. Como se fosse um hall sem querer. Não há sofá e sala de estar. Mas acolhimento e um pratão de comida não falta, por isso eles são firmeza. Tirei fotos do seus filhos que, pra variar ficam fascinados com uma câmera. Eu entendo eles. Até hoje eu acho controle remoto e coisas sem fio fantásticas. Não compreendo como a voz em um celular pode atravessar o país e chegar ao vivo em outro celular sem delay e resolvi parar de tentar entender de tecnologia porque suspeitava que era tudo bruxaria. O fax ninguém me engana… Enfim, tirei várias fotos das peraltices da molecada. Criança é igual em todo lugar. Eles eram divertidos e meio endiabrados. O vizinho-mirim era mais. Essa era o exu-maré. Mas muito engraçado. No dia seguinte, a gente numa conversa séria sobre o intercâmbio Brasil-Haiti, ele ficava atrás do Professor, me chamando e mostrando o dedo do meio pra mim, que tinha acabado de aprender com o André. A vontade de rir era enorme.
No fim de tarde que chegamos, o Professor estava meio desanimado, mesmo nos recebendo com aquela simpatia. Um primo dele havia falecido, ele iria no velório, até perguntou se queríamos ir. A princípio respondi de bate-pronto que não, imagina, não vou em velório nem no Brasil. A não ser que tenha pastel na faixa, aí eu vou. Mas depois lembrei que funeral no Haiti tem uma caminhada pela rua com o caixão e uma banda com metais no abre-alas. Uma banda com música meio fúnebre, mas não totalmente triste. É um som bonito de escutar. Daí até pensei em ir, mas o André me disse que era só o velório mesmo. Mas acho que o Professor acabou nem indo. Só foi passear com a gente pela cidadezinha dele.
Essa cidadezinha, por estar no topo da montanha, era diferente daquele padrão haitiano rodovia-barracos ao lado. Uma névoa sinistra delineava silhuetas de camponeses trabalhando. O maior acesso a água, o início da temporada de chuvas, proporcionava lavouras por metro quadrado. Todas pequenas, familiares. Tudo plantado ou preparando pra plantar. Estava bonito. O Haiti é pequeno e populoso. É agrário. Não pode se falar efetivamente que houve uma reforma agrária haitiana, mas de fato, o que seria um latifúndio no Haiti a gente chamaria de campo de futebol no Brasil. A terra no topo é mais avermelhada. A lama predomina. A névoa não se desfaz. Visitamos a futura casa do Professor, uma casa de tiojolo, grande, em construção, mas sem peão na obra, sem perspectiva de terminar. Seguimos vendo camponeses trabalhando, o Professor cumprimentando a todos, parando pra conversar, sorrindo e acenando. Também fiz minha parte: cumprimentei crianças e velhinhos a todo sinal de 'blan!'. Chegamos numa vista interessante. Era tipo um precipício, alvez seja melhor chamar de uma beirada grande pra parecer menos dramático. A vista era daquele tipo de semi vale que tem aqui, já que é um país montanhoso. Abaixo coqueiros, acima uma névoa espessa. Vacas, cabras e burricos. Isso não mudou. Uma escola primária religiosa, uma caminhada, cumprimentos e voltamos. A névoa começa a se dissipar e é possível ver as montanhas do outro lado do semi vale. Estão peladas, num verde sem brilho, de uma vegetação desmatada. A névoa fazia um favor.
Na volta, visitamos uma futura cisterna gigante que captrá e tratará água para toda cidade, mas, novamente, não havia ninguém trabalhando lá, sem previsão de término. Paramos pra uma digníssima Prestige, num bar com um curioso sinal na entrada de "proibido entrar armado". Depois comemos, corajosamente na rua, mas a fome encoraja até frouxo, uma banana assada e um peixe frito. Eu já estava indo pro segundo quando o André me garantiu que haveria uma janta na casa do Professor, que ele tinha esse ótimo hábito para com suas visitas. Antes de chegarmos em casa, mais conhecidos, mais cumprimentos. O Professor cumprimenta dois amigos e para pra conversar. Eu me aproximo um pouco e cumprimento seus amigos com um discreto 'bon swa', boa tarde em creole. Os dois me respondem 'bon swa', inclusive o Professor, vira pra mim e diz, 'bon swa'. Eu ri até chegar em casa. Acho que é força do hábito responder 'bon swa' pra qualquer um, mesmo quando você já passou quase a tarde inteira com a pessoa. O André ria também. Chegando em casa, a ala feminina da casa havia cozinhado, arrumado a mesa e nos servido. Era aquele arroz com feijão preto, tudo junto, prato típico daqui, mais uma salada, um molho de peixe e banana cozida. Talvez tivesse fruta-pão também. Não lembro. Tirei o atraso do dia e já estava pronto pra dormir, quando o Professor puxou assunto e começou a falar. Perguntou das minhas atividades no Haiti, o que eu fazia, quanto tempo, perguntas corriqueiras. Depois falou da importância dos trabalhos de solidariedade no Haiti, do papel da Via com os campesinos, sugeriu mais agrônomos brasileiros para as próximas brigadas, comentou da relação do Brasil com futebol, de como poderia haver uma trabalho com os jovens haitiano. Não sei se o André havia comentado que eu jogava futebol, provavelmente umas duas ou três coisas que eu sei fazer direito, além de omelete, e não sei se foi uma cobrança do Professor, mas cheguei a pensar numa possibilidade de vir pra cá dar aula de futebol pros moleques. Mas depois passou, é melhor um professor de educação física mesmo. Uma coisa é saber tirar a marcação na saída de bola, marcar em zona ou individual. Outra coisa é gerenciar a atenção de vinte moleque em outra língua. Mas prometi ao Professor que passaria o recado dele quando chegasse ao Brasil. E de fato eu vou: mais agrônomos e professores de futebol, tá anotado.O depoimento do Prófe, já somos íntimos, foi ficando comovente quando ele disse que em vinte anos não haverá mais Haiti se as coisas continuarem como essão. Daí lembrei que estou conversando com um pai de 4 filhos adolescentes e crianças. É verdade, o Haiti ou racha ou racha nesse sistema de ausência de Estado, infra estrutura, todos querendo sair do país e o camponês miserável sem água, saneamento e assistência qualquer, não deve durar muito tempo numa economia baseada na chuva. Fiquei com isso na cabeça. O Professor se retirou e a molecada se aproveitava. Mexia nas nossas coisas, pulava na cama, fazia umas estripulias e não deixava a gente dormir. Até a pachorra de, mesmo num lugar com energia elétrica racionada, o moleque tinha um treco com dois fios soltos pra tentar dar choque na gente. Eles aprontavam demais. Daí me perguntaram se eu queria o 'toalette' e o André já avisava que provavelmente seria aquela bacia no meio da sala. Com aquela criançada pulando na nossa frente não tive outra opção a não ser me resignar em minha imundice. Mas a praia, o banho e o fim do Cascão já estava perto. Amanhã era dia de praia, peixe e Prestige. Dormi feliz. Antes que eu me esqueça, o Haiti tem o céu estrelado mais incrível que eu já vi. Da linha do horizonte, até o outro lado, uma cúpula de estrelas, é fantástico. Talvez só as estrelas compitam com o número de pedras nesse país.
garupa, dia 2
O segundo dia de viagem começou cedo. Cedo pra mim é qualquer coisa que seja antes do café ficar pronto. Nesse caso não tinha café nenhum, mas a sensação era essa. As coisas no Haiti costumam ser cedo porque funcionam, segundo a regra de Copérnico, em torno do sol. Faz sentido se você vive num país sem eletricidade. Assim como a cerveja, o Haiti tem um café bom, feito pra exportação, mas eu ainda não provei. Provei um mais barato, litros aquém do meu saudoso Pilão. Mas pra quem passou os últimos dois meses e meio no México, tomando aquele café em copo de milk shake do Bob's, mais aguado que a regadeira lá de casa, então está ótimo. Eu sempre tomei muito cafézim paulistano, e muito chimarrão, dada minha ascendência gaudérica, então a necessidade de um estimulante é quase ontológica. Eu vivo uma malemolência crônica na ausência de cafeína, todo dia penso que é o primeiro sintoma da malária e já me sinto um Villas Boas. Enfim. Não tinha café pra tomar. O André me disse que havia dado um dinheiro para que umas das filhas do dono ou mulheres que trabalham no edifício kafkaniano sem reboco fizesse um café. Saímos a rua porque, como havia dito, pressa, prazo e outras vicissitudes desnecessárias paulistanas, não existe no vocabulário haitiano. Imagina minha fome matinal depois do meu jantar de bolachinha água e sal… O André precisava colocar créditos no celular e comprar uma bermuda, já que a idéia era no último dia chegar a uma praia caribenha, e seu calção de banho ficou na fatídica mochila. Se tem um serviço que funciona no Haiti é a compra de créditos pra celular. Depois da Mãe Natureza, que com seus ciclones produz açudes e rios e outras infra-estruturas pro povo haitiano, acredito que as empresas de celular são quem mais emprega nesse país. Tem muita gente na rua (eles ficam com um colete passeando) que colocam créditos na hora através do próprio celular. Se eu fosse assaltante -- eu tenho esse hábito, quando não tenho nada o que fazer, pensar no que eu poderia assaltar e qual rota de fuga utilizaria -- então, se eu fosse assaltante, eu assaltaria esses moleques, que sempre tem muito dinheiro na mão, de todas as recargas do dia. Mas ter muito dinheiro haitiano significa muita sujeira no bolso (uma hora eu vou colocar uma foto do goud, é muito sujo e amassado, parece que foi conservado enterrando na areia) e pouquíssimos dólares. Então não é um bom investimento. Colocamos crédito, buscamos um lugar que carregava o celular e ainda fomos atrás do seu calção. No breve caminho de dois quarteirões, encontramos mais filhos do dono do prédio, ou pessoas que eram simplesmente simpáticas comigo e eu achava que eram filhos do dono, e aquele que eu suspeitava que era meio doidinho. De manhã cedo, sob luz divina do sol, depois de meia dúzia de frases sem sentido ficou claro que ele era meio pancada. Compramos o calção do André depois de algumas pechinchadas por 125 gouds. Essas coisas se compram usadas na rua. Não tem loja. Se tem, só em Porto Príncipe em algum lugar mais 'nobre'. O André saiu contente com o preço, tinha baixado quase 50 gouds, até os moleques amigos disserem que esse é o preço para estrangeiro, haitiano pagaria no máximo 50 gouds. Sem dúvida eles dobram o preço pra quem tem passaporte de fora. Passamos por uma pracinha, daquelas com brinquedos infantis meio quebrados e largados, jovens desempregados jogando conversa fora, poças-berço de mosquito, estruturas baqueadas, não pelo terremoto, que não atingiu o país inteiro, mas pelo tempo e mau cuidado mesmo. Firme mesmo só a igreja que estava em reforma ou construção. As igrejas aqui são bem feitas, bem construídas. Tijolo, pedra, cimento. Pintura externa. Em geral, as maiores que vi por aqui são católicas. Mas tem protestante, batista e evangélicas também. O povo parece bem católico, mesmo seguindo seus deuses afro descendentes do Vodu, que se assemelha, pelo que dizem, ao nosso Candomblé. Semana que vem vou tentar dar um pulo lá, numa pomba gira haitiana, uma salviazinha pra espantar a zique zira e me descolar um emprego quando eu voltar ao Brasil. Achei que o café já estaria pronto. Afinal, eram quase 10h se não me engano. Não tenho relógio e nem celular por aqui. Mas assim como Robson Crusoé fazia, se o negão não sabe as horas olha pro sol. Acho que eram umas 10h mesmo. E o café estava pronto quando chegamos. Pra surpresa geral da nação, o café era um jarro d'água que fui obrigado a evitar novamente e nosso famoso prato haitiano: espaguetí. Mais um pratão delicioso, amo spaghetti, até cru, dessa vez com muito menos pimenta, arrebentei de comer. Meu sorriso de satisfação não cabia nem no capacete da moto. O sol estava bom, firme sem torrar e era um sinal de estrada mais seca, calça mais seca, viagem mais rápida. Não havia mais rios para serem atravessados na garupa. Só riozinhos barrentos que tinha pontes, pontes que não tinham rios, e rios de pedra ou que as plantas já tomaram conta. A paisagem seguiu a mesma metamorfose: cactos, pedras, semi árido, depois umidade, sombras, plantações, morros, subidas, descidas, bodes, burricos, motos, pessoas, principalmente mulheres, conduzindo burricos com cargas de plantações, crianças nuas, casas ao redor, paradas pro xixi, desertos, cidadezinhas, gritos de 'blan!', alguém me pede dinheiro, outros acenam e seguimos até a primeira parada. Buscávamos um dos coordenadores do Tet Kole naquela região, um sujeito bem interessante, com muito respaldo moral na comunidade, sete mulheres, nenhum endereço fixo e um celular que não pára de tocar. Mas ele não estava. Esperamos um o sol secar um pouco mais a estrada, e fomos falar com outro coordenador que estava em uma reunião. No caminho vejo uma igreja junto no meio de uma poça gigante e fiz uma foto. Dei o título infame de 'catolicismo por água abaixo'. Se deus existe e é misericordioso como o sujeito da tv diz, então ele podia me arranjar um emprego onde eu passe o dia dando títulos para as minhas próprias fotos. A chuva é boa para os camponeses porque tem região de seca que não tem acesso algum a água. Mas sempre dá uma castigada. Tem estradas que ficam absolutamente inviáveis. Não escoa a produção, as pessoas ficam semi isoladas em cidadezinhas, estilo micro cidadezinhas, com zero infra estrutura para qualquer emergência.
Partimos mais para dentro do mato. As casas iam diminuindo a frequência, a falta de água faz cair a já alta densidade demográfica haitiana. Chegando perto de um projeto que construiu um 'reservatório' de sementes (seria isso um silo? a única coisa do meio rural que eu conheço é o Júlio do Cocoricó que passava na Cultura) topamos com um agricultor conhecido do André no caminho. O sujeito mora com a família numa casa humilde, casa de taipa, pau a pique, sei não, sei que ainda não tinha o barro pra consolidar a parede, tinha apenas uns panos. Estou sendo repetitivo, mas o sujeito era simpático. Fazer o quê, o haitiano é simpático, sorridente, transmite uma alegria honesta em te cumprimentar. Talvez eu seja ingênuo, mas eu gosto de ser assim. Ser ingênuo e acreditar nas pessoas é tipo ser religioso. Mas sem dogmas. O sujeito deveria ter quase sessenta anos, e era forte, tinha estrutura forte. Cheguei a conclusão que academia é pra desocupados. Se você quer ter o corpo malhadão vai trabalhar na roça. Bíceps, tríceps e outras proparoxítonas definidas aos sessenta… Fotos, respingos, despedimos e chegamos em cinco minutos no reservatório que estava fechado. É um projeto de uma ong estrangeira com um movimento social haitiano e a ajuda da Via Campesina. Alguma questão burocrática estava impedindo de funcionar melhor. Quando chegamos, um outro senhor camponês, dessa vez deveria ter uns setenta anos, eu sou bom com essa coisa de adivinhar idade, pode confiar, chegou pra conversar conosco. De boné, camisa listrada, bermuda meio rasgada e um tênis, estilo timberland, já surrado com furo no dedão. Ele chegou daquele jeito que eu gosto: sorrindo bastante, cumprimentando fortemente e com aquela alegria que dá vontade de abraçar aquele senhor e chamar ele pra tomar um café com bolo de fubá. O André já havia dito que ele era era muito gente fina. O tipo de pessoa que faz o sujeito acreditar no trabalho da Via Campesina no Haiti. Ele morava ao lado do reservatório, talvez uns vinte metros, numa casinha meio barraco, choça mesmo, mais precária que do outro camponês. Morava sozinho, se não me engano. Começou a falar da seca, do problema das sementes e fez um relato comovente sobre uma situação duríssima de não ter o que comer todo dia. Eu sei que isso também se passa no Brasil, não é nenhuma novidade, não fui criado na Suíça, mas mesmo assim te faz pensar. Um idoso, com uma disposição de esbanjar saúde, deveria estar curtindo uma aposentadoria em algum paga e pesque, ou seja lá qual seja o hobby do cara. Vender suas parcas cabritas pra não passar fome é de matar o bom dia. Mais fotos, abraços, caminho de volta, buzinadinha pro outro camponês da ida e seguimos para a casa de um outro camponês, mais no alto do morro, com uma vista linda. Ele já tinha mais condição e mais filhos. Contei uns quatro e acho que mais um, daqueles parentes que vem visitar e acabam ficando. Pra variar a molecada pirava na máquina fotográfica e faziam poses ótimas. Havia um moleque, tenho foto pra comprovar, com uma camiseta de futebol rosa, escrito YMCA. No meio de um passeio disse que minha mão era bonita porque era vermelha. Ixi… Minha mão é vermelha? Ser branquelão tem dessas, o sangue fica mais visível na superfície ou sei lá que explicação. Esse camponês, pra variar novamente, gentil e sorridente, nos ofereceu uma comida, pois a princípio dormiríamos lá. E pra variar eu estava com fome e pra variar eles são gentis. Dessa vez, por ser quase fim de tarde não era espaguetí, nossa cota de espaguetí diária já tinha ido. Era arroz com um feijão chamado guandu. Tem um caldo aguado, mas é interessante. E ter fome ajuda. Era uma casa simples, sala junto com a cama, parede de tijolo e almoço pra visita é sinal de boas condições sociais. Havia flores de plástico na mesa. Curiosamente algumas pétalas estavam murchas. Eu falo que o Haiti é surreal: ponte sem rio, rio sem ponte, flor de plástico murcha. Lembrei de um texto que li na faculdade, numa aula de sociologia, sobre uma pesquisa feita no Rio Grande do Sul, nos idos dos 80, sobre o comportamento das famílias camponesas que migravam para as cidades. Algo assim. A autora destacava que além de deixaram a televisão perto da porta de entrada, de modo que os vizinhos vissem que a pessoa tinham uma tv, flores de plástico era sinal de acesso a bens industrializados, sinal de renda. Era curioso já que quem vive no meio rural tem um conhecimento enorme sobre flores, plantas e todo o cuidado necessário que, para mim, se resume a molhar todo dia num vaso bonito. Outra curiosidade, é que nessa casa, na sala-quarto-de-jantar, havia pendurado no teto uma espécie de varal cheio de páginas de revista de celebridade. Grande parte brancos americanos. Achei interessante aquilo. No meio rural haitiano, numa casa simples camponesa, recortes de anúncios e celebridades pendurados em cima da mesa de jantar. Parecia aquela coisa de poster em quarto de adolescente. Talvez seja a menina, que tinha uns 12 anos, que tenha pendurado. Não quis perguntar. O André conseguiu telefonar pro sujeito difícil de achar, do Tet Kole, e se encontrássemos ainda hoje agilizaria nossa agenda de viagem. Partimos. Despedidas efusivas, abraços, uma vista incrível de um acidente geográfico que eu arriscaria chamar de vale. Ou semi vale, acho que está de bom tamanho. O Haiti é lindo, mesmo tão desmatado. Já disse que a energia motriz do país é o carvão? Então eles desmatam tudo pra fazer carvão e vender. Dá dinheiro pro camponês pobre. Dá uma erosão danada também. Isso se reflete nas áreas desérticas pelo caminho. Ignição na motinho, incríveis 40 km por hora e chegamos na base do Tet Kole atrás do Lulinha. Ele parece um pouco Lula. Meio baixo, meio rouco, barba e liderança social. Mas dez dedos. Vou chamar ele de Lulinha pra facilitar. Na base nos disseram que ele estava na 'casa' do lado. Casa com umas dezesseis aspas. Porque, não entendi bem, eles conseguiram uma terra e fizeram uma casa. Mas daquela muito encantada, não tinha teto, não tinha nada. Teto tinha, mas só teto. Não tinha parede, nem cadeira, nem nada. Na verdade não é uma casa, é um teto só, e umas pedras pra sentar. Aí eles seu reunem al e sentam na pedra. Nesse dia, eu escutei um sujeito falando alto, grosso, baita discurso. Aliás, os haitianos falam alto, gesticulam, gritam, parecem sempre que está rolando uma briga, um escândalo, mas o jeito deles mesmo de discutir, não chega nas vias de fato. Só se você for branco e atropelar uma galinha deles. E dá-lhe discussão, vozerão, deve ser treta, vamos dar uma olhada, pessoas reunidas e o Lulinha sentado entre dois adolescentes, com cerca de 15 pessoas em pé, algumas sentados no chão ao seu redor. O figura de boné, e um toalha no pescoço, porque estava com algum tipo de doença. Talvez seja por isso que estava um pouco rouco. Ofereceu um peixe frito com banana frita ou assada. Não sei se foi por educação, pois fizeram pra ele, ele comia também, mas eu e o André rapelamos o prato sem dó. Andar de moto dá fome. Peixe frito é bom demais. Bom, seguiu a discussão, o sujeito grande terminou e ficou no canto. Chega uma mulher mais velha, camponesa com dons de atriz. Caras e bocas, um drama, uma interpretação, demais, melhor que novela das seis. Num país onde boa parte dos camponeses são analfabetos, a retórica ganha muitos pontos. E a mulher fala quase uma hora. Já estou tirando foto de bananeira, pensando na vida, esperando acabar aquilo e o André me pergunta se eu estou entendo o caso. Depois do bom dia, como vai você, eu não entendo nada em creole, só aquelas palavras de som afrancesado. Ele me explica que os adolescentes sentados, de 17 o menino e 15 a menina, há dois anos, tiveram um affair sexual. Sem gravidez. Mas pegou mal pra família da menina. Não sei se rola uma parada virgindade aqui antes do casamento, ou segundo o André é falta do que fazer do povo. O pai entrou na justiça contra o moleque, e deu até briga de facão entre as famílias. Dois anos de treta por uma transada indevida. A não ser que tenha detalhes quentes, que a gente não soube, tipo uma transada no meio da plantação prejudicando a colheita. Mas eles estavam brigando por isso. Os dois adolescentes com uma cara de bunda. O Lulinha escutando tudo e atendendo o celular a cada dez minutos. Eu comecei a me divertir vendo a cara de indignação da mãe da menina. Eu não sei qual era a acusação formal contra o moleque. Estar na puberdade? Sei que a discussão foi longa. Segundo o André, essa província tem a maior base social do Tet Kole, e o Lulinha, um dos fundadores há mais de vinte anos, por toda sua trajetória de vida tem uma moral na comunidade de juiz! Então era esse o papel dele ali. Determinar um veredicto para um problema que se arrastava por dois anos. O moleque de 15 chegou na maldade em mútuo acordo na de 13.
Era engraçado que um dirigente social estivesse resolvendo um caso desse. Mas assim que funciona o Haiti. Sem Estado, regra, lei. Na raça. O sol se pondo, sem luz na casa que é puro teto e quintal, a conversa deveria terminar. Até usou a gente de justificativa, como brasileiros, que vieram de longe, trabalho com camponeses, mochilas perdidas, e eles mereciam sua atenção também. Ser brasileiro no Haiti é demais. Muda o tratamento na hora. Fala que é brasileiro que você ganha um 'ohhh…' e um sorriso grátis. Valeu Brasil, você me deu uma escola pública capenga, uma saúde pública improvável, um custo de vida injustamente alto mas uma certidão de nascimento que abre portas. Pelo menos o México e no Haiti.
A resolução do Lulinha foi genial: perguntou se os jovens ainda queriam se ver e namorar, eles disseram que não, então as famílias só deveriam evitar que eles se vissem. Pronto. Tchau. Foi isso que eu entendi. Já estávamos num breu total, o André conversou algumas coisas, e ficamos de nos encontrar no dia seguinte de manhã. O Lulinha não estava muito bem mesmo. Então, na base, o sujeito que morava lá, não estava mais. Deu um perdido. A gente iria dormir lá. Cadê o cara? Sumiu. Como não tem poste na rua, nem lampião, nem nada, só a luz das motocas e mototaxis na estrada, o Haiti vira um breu total-total. Numa cidadezinha no meio do nada, não tem hotel, essas coisas. O cara some e aquele peixinho frito nem deu pra enganar a fome. E agora, José? Agora a simpatia haitiana dá um jeito. Um outro camponês do movimento, sem nunca ter nos conhecido, oferece sua casa e literalmente sua cama. Sem ele claro. Eu não sei se é o calor, os mosquitos, a saudade ou esse meu coração peludo que não tem dó de não dar um centavo de esmola pra todas as criancinhas que me pedem na rua, mas que às vezes resbala numa molenguice e eu fico assim, meio conhaque do Drummond, que bota a gente como o diabo… Eu não estava preocupado. Sabia que tudo se dá um jeito nesse país. E o Haiti, repito, não é perigoso, mas nem na metade do que é São Paulo ou a Cidade do México. Não é o mesmo tipo de violência, não é o mesmo tipo de marginalização. É outra coisa, outro estágio que vive o Haiti. Mesmo assim, o gesto do camponês, com todas as dificuldades que eles passam, de levar dois estranhos 'amigos' do movimento deles, pra dentro de casa, dormir na sua cama, dar água e comida, pra mim é fantástico. Achei o gesto nobre nível celestial. Que povo gente fina. Ele não tem um apartamento com um sofá para a visita, e um íma de geladeira de uma pizzaria boa. Ele tem uma casa, boa pros padrões haitianos, até brasileiros eu diria, mas sem luz, água, saindo do período de seca do país. Com dois estrangeiros, onde só um fala o creole, prestes a dormir em sua cama e comer a sua comida. E a gente naquele esquema básico: sujo, faminto, cansado. Já são sei lá que horas da noite. Estamos em seu quarto quase sala. O Haiti tem uma cultura bem machista ainda. As mulheres sempre ficam em segundo plano. Comem depois, aparecem depois, falam depois, carregam tudo na cabeça. Então, naquele escurão de meu deus, só vi uns vultos de mulher na casa, um sorriso, um cumprimento. Alguém traz alguma cadeira. Estamos sentados e começamos aquela conversa de elevador, bem sem graça. Eu vim do Brasil, ah que legal. Escuridão, uma lanterninha dele e a minha lanterninha fera que comprei no camelô mexicano. Conversa mole, sorriso amarelo. Quebra o gelo, mas não quebra totalmente. Não tem muito assunto, meu intérprete tá cansado, eu também já estava cochilando sentado, o cara até sugeriu pra eu dormir, despertei sem graça, imagina, não precisa, já acordei de novo. É meio chato dormir na frente de uma pessoa educada que está te recebendo em casa. Muita falta de educação. Aparece mais um cara no quarto semi-escuro. Agora são dois haitianos sentados na cama, eu e o André nas cadeiras. Alguém pergunta se queremos fazer o 'toalette'. Que é basicamente se banhar. É normal tomar banho de caneca aqui. Eu curto, porque posso demorar muito sem necessariamente estar desperdiçando água. O André fala que toma banho sim. Chega uma bacia grande e uma baldão de água. No meio do quarto? Sim. Os dois haitianos seguem sentados na cama e eu na cadeira. É isso mesmo? A porta pro outro quarto-quase-cozinha é estreita com um pano fechando. Às vezes surge uma criança espiando curiosa os 'blans' (mesmo o André ser mistura de índio, negro e branco, com uma pele escura, as pessoas o chamam de 'blan', que significa estrangeiro também). Eu falei pro André, ô fera, não vai ficar pelado na frente das crianças. Claro que não, só na frente dos adultos. Eu sei que o Haiti tem uma relação mais branda com a nudez. Eles tomam banhos nos canais ao lado da rodovia. Mulher pagando peitinho é normal. Top less liberado e respeitado. Mas tomar banho na frente de dois estranhos recém-conhecidos, numa bacia, foi demais. Em geral, os banhos de caneca que eu tomei foram em banheiros mais ou menos desativados, já que banheiro sem água não costuma fazer muito sentido. Nunca tomei na sala-quarto-de-estar de alguém. Nem sabia que podia. Com uma naturalidade invejável, no meio daquela conversa jogada fora, meu parceiro de viagem fica peladão, na frente dos caras. De cócoras, lavando suas partes íntimas. Eu tentei explicar que se chama íntima, e fica protegido por uma cueca, porque é exatamente pra não expôr desagradavelmente por aí. Ainda bem que foi antes do jantar. Pra surpresa geral da nação -- nação, no caso, eu -- os caras se mantiveram lá, sentados na cama, tranquilos, com aquela conversa mole e, o dono da casa, ainda por cima, ajudava com uma caneca a encher a bacia com o André dentro, mandando ver na lavagem do bigolim. Depois deu ficar abismado, tipo criancinha haitiana quando me vê, ao presenciar a higiene pessoal compartilhada, eu comecei a rir muito por dentro daquela cena bizarra. Uma lanterninha meia boca, um cara numa bacia molhando a bunda na frente de dois haitianos, super tranquilos, como a cena mais natural do mundo. Pra que se banhar num lugar reservado se você pode ir trocando uma idéia em creole, sobre o tempo, a viagem de moto ou sei lá o quê. Eu baixava a cabeça pra rir discretamente. Ri mais do que a cena da travessia do rio de conchinha. Não faço questão de guardar a cena do André pelado na minha frente lavando a bunda numa bacia, mas a cena em geral, com a complacência haitiana como dois gentlemans, eu nunca vou esquecer. O cara ainda ajudou com a canequinha d'água, numa proximidade desnecessário do pinto alheio. Eu ri muito. Que povo legal, cara… Eles não estão nem aí pro pinto dos outros, ajudam mesmo. Eu me mantive porco, sujo e cristão, pois sabia que no dia seguinte haveria água lá na nossa base. Já estava psicologicamente preparado pro desafio 48 horas sem banho. E dá-lhe álcool em gel. De repente chega a janta. Outro arroz com feijão. Um pratão generosíssimo. Só de lembrar já me deu fome. Um feijão diferente e ainda havia um molho de um peixe, que só soube que tinha peixe depois, na semi escuridão não enxerguei, só vi uma batata, algo assim, e estava ótimo mesmo. Adoro jantar. Eles ainda nos trouxeram dois sucos de garrafinha. Eles são muito gentis. Suco industrializado pro mendigão brasileiro. Achei de bom tom não abusar e só tomamos um. Banana com laranja e abacaxi. É comum este suco por aqui, mas só industrializado. É bom. Rindo com a cena bizarra da bacia. "Então eu vou tomar um banho", "Legal, pode tomar, eu vou ficar sentado te ajudando". Debaixo da cama havia um balde pra aquele xixi indisciplinado da madrugada, mas não foi necessário, dormi que nem uma pedra. Sujo e satisfeito.
domingo, 15 de abril de 2012
partiu garupa, dia 1
Essa semana eu fiz um nano diários de motocicleta. Fomos ao norte do país, na província de Nord Ouest, visitar uns camponeses. É fantástico viajar de moto pelo Haiti. Eu não entendo muito de geografia-caribenha ou qualquer outra especificidade de palavra composta, mas suspeito que o Haiti tenha uns dezesseis biomas. Numa viagem total de 400 km deu pra ver pelo menos uns três climas distintos: semi-árido, subtropical e quase temperado com requintes de tropical. E também pode colocar um deserto aí no meio. Saímos segunda-feira de manhã. Não havia internet no alojamento e eu precisava enviar um arquivo pro Braz com uma certa urgência. Aqui, na rua cheia de casas no acostamento, chamado de cidade, encontramos uma espécie de mini lan house que tira xerox. Na verdade o sujeito empresta o laptop dele com internet. Grátis ele te dá um chá de cadeira incrível. Ele começa te atendendo, pára para xerocar alguma outra coisa, passa uma ordem pra alguém de dentro, mexe no computador, se distrai com alguma coisa, escuta umas vinte e oito resmungações em português de minha legítima parte, entra no quartinho, sai do quartinho, atende o celular, eu já estou em pé subindo pelas paredes, aí o sujeito coloca um monitor do lado de fora, espera mais um tempo, aparece com um teclado, deixa uns fios por perto, atende outra senhora, eu já tô no lexotan, então ele conecta alguma coisa e, por intuição minha, daquela que falha sempre que pode, eu já sento e ligo o computador. Daí uma voz lá de dentro, daquelas em creole que eu não entendo, diz ao meu amigo que o computador com internet é o laptop liberado ali. Faço uma cara fac-símile de idiota, me levanto do computador estranho, e já com a minha paciência adaptada a internet banda discada, envio meu arquivo. Pronto.
Subimos na moto naquele sol quase de meio dia, aquele que eu sou meio divorciado e partimos. No caminho asfaltado, talvez 10% das estradas haitianas sejam asfaltadas (lembrando que toda estimativa nesse país é baseada em presunções generosas), foi tudo nos conformes: pessoas vendendo coisas na calçada, motos subindo e descendo, alguns caminhões leves e ônibus escolares americanos repletos de gente. Como pressa, saneamento básico e 110v ou 220v não fazem parte do vocabulário haitiano, em meia hora já resolvemos parar para comer. Como eu não tenho iPhone com efeitinho retrô e uma vida descolada, eu não fico tirando foto do que eu como. Então não vou postar o tradicional prato haitiano, mas dá pra imaginar: spaghetti, em creole, ênfase no final, espaguetí.
Eu nem vou comentar sobre o tempo que a mulher levou pra fazer aquele pratão de spaghetti, ainda mais quando se está com fome. Como tinha um televisão (algo raro por essas bandas) ligada num filme meio americano, mas daqueles 100% lado B, dublado em creole, me distraí o suficiente para não resmungar muito.
O spaghetti é praticamente o mesmo do nosso. Ele é feito estilo alho e óleo, com um pouco de lingüiça, mas bem pouca, se bem que não é exatamente uma lingüiça aquilo, e um toque nada sutil de pimenta. Pimenta no macarrão. Mesmo passado esses últimos dois meses no México, onde vai pimenta até na água, e ter comido macarrão com pimenta, num erro clássico meu, onde saí com pra comprar molho de tomate e voltei com molho para tacos (!), ainda sim não me acostumei com a façanha. As últimas três garfadas, era um pratão mesmo, eu estava chorando com aquela pimenta. Compramos uma sprite pra segurar a lágrima furtiva. Tinha água, mas dá uma dúvida da procedência. Os haitianos tem uma resistência fera contra tifóide, disciplina e outras coisas que nos molestam. Ás vezes a água é boa pra eles mas pode dar uma zoada na turma do intestinão. E numa viagem dessas, de 4 dias sentido interior, era melhor não arriscar. Na verdade, acho que o André (piloto da moto e agricultor responsável pelo acompanhamento do projeto das sementes que visitaríamos), deu um golinho maroto. Então tá, só fui eu que não arrisquei em minha alva covardia.
Seguimos sentido norte, para província de Nord Ouest, e antes de atravessarmos a fronteira estadual o asfalto já tinha ficado pra trás junto com as plantações de arroz. Onde tem água tem plantação no Haiti. Principalmente arroz e milho. Tudo verdim., é bem bonito. Adeus asfalto e umidade, começa a estrada de terra, seca, por enquanto boa. A paisagem começa a ficar um pouco árida, vai surgindo cactos nas montanhas ao redor e o tempo resolve quase fechar.
Eu acho que na verdade o tempo fechou, mas abriu mais pra frente. É difícil acompanhar o ritmo da natureza aqui: seco, árido, respinga, chove, cacto, sol, mar, fecha o tempo, abre o tempo e, estar de calça jeans, uma camiseta e algum amuleto, já resolve o caso.
A essa altura, talvez uma hora depois do espaguetí, a estrada seca já estava naquele processo de lameação, buracos, pedras e princípios de poça que nos acompanharia até na hora de dormir. O piloto é obrigado a reduzir significativamente a velocidade. O que é uma delícia. Eu estava achando demais viajar de moto, bolei vários planos de atravessar a transamazônica até a Ilha de Páscoa numa vespinha envenenada, até perceber que 80% dessa viagem, pra tranquilidade geral da vovó, foi feita a 20km/h. Dá pra curtir a paisagem, cumprimentar a molecada na estrada, desviar das galinhas, burricos e cabritos com folga e o vento não transforma tua cara num quadro do Picasso. O único problema é que depois de duas horas você já está sentado num China in Box de nádegas… Só uma ressalva: é fundamental desviar de galinhas e cabritos aqui. No Haiti não existe muito o conceito de cerca. Só de corda. Eles, literalmente, criam os bichos na corda. Amarram uma corda no pescoço ou no pé do bicho e prendem na árvore. Alguns ficam soltos mesmo, na moral. Daí resolvem atravessar a pista. O problema que se um branco bate em algum carro ou atropela um bicho de alguém, mesmo que não tenha culpa, pode gerar um flash mob violento. Nesse tipo de mobilização os haitianos são profissionais. Aí vai o moleque chora e a mãe não vê...
A mini aventura começa no primeiro rio. O Haiti é surreal. Passamos por umas três pontes sem rios, e uns dois rios sem pontes. Aqui, a violência dos ciclones mudam o curso de alguns rios. Não que os rios comecem a subir ao invés de descer até o mar. Senão isso aqui seria a ilha do Lost. Os ciclones mudam os rios de um lado para outro, criam outros cursos. Então, tem 'rios' absolutamente secos, de pura pedra. Isso também acontece pela dramática situação ambiental haitiana. A erosão por aqui é terrível. Não há árvores pra reter água ou solo nas montanhas, então tudo vem descendo. Pura terra e pedra. O Haiti tem mais pedra do que queixas. O Haiti tem muita pedra, muita. Se a Palestina fosse aqui, o Estado Israelense já tinha dançado.
Enfim. Passamos rios secos, e alguns riachos que, por começar agora a época de chuva, se tornaram riachões. Não exuberantes como os da Amazônia, são modestos, mas significativos pro local. São barrentos e cheio de pedras. E não tem pontes. Por isso um monte de haitianos ficam na margem esperando gente passar pra ganhar um trocado transportando moto e passageiros pro outro lado. Claro, transportam na raça, é a balsa genérica haitiana. A moto foi pilotada por um cara que sabia das partes mais rasas do rio. O primeiro rio foi tranquilo, a água não batia na canela do motorista, mas era um trechinho maroto bem acima do rio, só quem é local saberia. A travessia dos pedestres era nas costas do haitiano. Ele era bem mais baixo que eu e obviamente muito mais forte. Sei lá porque eles são afoitos e queriam que eu subisse logo. Eu só olhando o vallet da moto se iria molhar minha mochila que tinha minha preciosa máquina fotográfica, fruto de muito trabalho. Tá ok. A moto passou numa boa. E, ao contrário do que um brasileiro mal acostumado espera, ele não deu um perdido com a moto e a nossas mochilas. Desceu e esperou a gente. Subo nas costas do sujeito, abraço como fosse meu melhor amigo e retraio as pernas. Atravessamos numa situação meio constrangedora. Além do fato dos outros haitianos na outra margem fazerem piadas do branquelo pendurado no negão, pensei em toda a relação escravista do passado latino americano, e estar na pele de um branco nas costas de um negro, que se molha até a cintura para eu não me molhar, me pareceu uma metáfora triste que me deixou meio sem graça.
O tempo já estava fechando, a viagem do dia estava na metade e não havia chuveiros e água quente nos esperando. Se encharcar até a cintura, num rio que não conhecemos os buracos, é um risco desnecessário. Pronto, passou a culpa. Mais um trecho comprido de lama, buracos, poças, burricos, boa tarde aos camponeses, pontes em vão e surge outro rio. Esse era maior e parecia um pouco mais forte também. Havia um caminhão atolado, com mais de 20 haitianos fazendo um esforço descomunal pra sacá-lo dali. Acho que eles estão até agora lá. Havia mais haitianos oferecendo o serviço de transporte. O mesmo valor, 100 gouds. Eu já tinha comentado que gouds é a moeda deles? 1 dólar vale 40 gouds. O cara da moto passou, meio no sufoco, deu uma atolada quase chegando na margem e precisou de uma ajuda pra sair dali. O rio era fera. Outro sujeito, outra garupa, mesmo constrangimento. Mas daí eu olho pra trás e vejo o André na mesma situação e começo a rir muito. A cena da gente, na garupa das costas do haitiano, de capacete, abraçando até com as pernas, mais juntinho que aquele metrô da Sé às sete, era muito engraçada.
A risada ecoava no meu capacete e maneirei para o haitiano não achar que era dele. Chegamos a outra margem, pagamos e partimos. No meio do caminho uma garrafa d'água cai do bagageiro. O bagageiro era duas mochilas e duas águas presas com um elástico firme. Paramos, recolhemos a água e seguimos. Talvez numa descida cheia de pedras, pulando muito, com o capacete tapando os ouvidos e enfim, nem sei que justificativa buscar, a mochila do André escorregou e caiu. E ninguém escutou. Quando a água caiu eu havia colocado no lugar junto, da mochila dele. E em menos de 10 minutos, perdemos a coitada. Paramos pra tirar uma foto do rio que estava muito cheio pra aquela época do ano, e quando o André pergunta pela mochila, ela não estava mais lá, só a minha. Me senti culpado de novo. Ainda largo essa vida de católico falseta…
Voltamos, procuramos, conversamos com os transeuntes e nada. Um gentil haitiano (eles costumam ser assim quando você chega na humildade falando a língua deles) surgiu do nada e guiou a gente de moto até a rádio mais próxima pra avisar a comunidade. Utilizei aquele meu espanhol barra brava pra conversar com os locais enquanto o André estava passando o recado na rádio. Muitos haitianos falam espanhol pela divisa com a RepDom, apelidarte da República Dominicana. E um inglês macarrônico bem melhor que o meu. O meu é aquele inglês de quem assistia 'Friends' há mais de dez anos atrás. Passamos na polícia e deixamos telefones de contato com as pessoas. Como dizia meu amigo Tim, a mochila 'nunca mais voltou'. Meu livro estava nela. Tchau livro. Boa parte do dinheiro do André, seu passaporte e seu caderno de anotações também. Deu um desânimo logo no primeiro dia, mas o André não se abalou muito. Se fosse eu, já tinha xingado deus e o mundo, por umas quatros horas consecutivas até alguém me trancar no chiqueirinho.
A tarde já caía e precisávamos seguir para cidade onde havia uma cama nos esperando. A gente não tinha pressa mas não é recomendável andar à noite pela estrada haitiana. Além de motoristas alucinados, não têm luz nenhuma. Só a do farol e olhe lá. Chegamos em Port-de-Paix (Porto da Paz, moleque!) na derrocada solar, meio lameados, meio desanimados, com fome, na verdade eu tava desanimado porque estava com fome, num edifício raro de três andares, no meio de uma quebrada digna do Haiti, estilo cortiço. Mas sem adornos e tramelas como os cortiços que gorjeiam aí no Bexiga. Me avisaram que essa cidade era feia mas, honestamente, me pareceu uma cidade comum do Haiti: moto pra tudo que é lado, ausência plena de calçada, ambulantes na rua, lixo na rua, água de qualquer procedência na rua, casas de madeira tortas, casas de cimento enfeitadas, gente falando, buzinando e crianças me gritando 'blan!'. Nossa estadia era num prédio estranho. Corredores cheio de portas estreitas, absolutamente escuros, algumas crianças surgem correndo, escadas tortas de concreto a kilômetros de um ISO 9000, fios pendurados e eu me sentia num conto do Kafka versão terceiro mundo. É um Processo caribenho. O edifício é de um camponês ligado ao Tet Kole. Ele também é engenheiro e construiu aquele prédio. Eu duvido que ele seja engenheiro. Deve ter sido um erro de tradução. Era um um labirinto escuro e torto. Divertido até, se você não mora ali. Seus filhos moram nos quartos do último andar. Inquilinos de favor vivem nos andares debaixo. São meio de favor porque o pagamento do aluguel não é fixo mensal. Não é sempre que os moradores tem dinheiro pra pagar. E fica por isso mesmo. No terraço-laje, vemos o sol se pôr e uma paisagem de casas mal acabadas como de qualquer periferia ocidental. A chuva começa a apertar. Sinal de lama pesada pro dia seguinte. Melhor não pensar. Água boa só do céu. Não havia banheiro com pia, água encanada, chuveiro, ou essas coisas que ajudam a amenizar mais de quatro horas em cima de uma moto. Tinha um álcool em gel pra segurar a consciência. O quarto que o moleque nos emprestou tinha uma cama bacana, um mosquiteiro reforçado e agora dois hóspedes famintos e com sono. Um dos filhos (eram quatro eu acho) não falava nada com nada, era meio pancada, e mesmo sem compreender o creole, eu me liguei que o menino era meio fora da casinha quando ele começou a falar um espanhol pior que o meu. Toda família tem o seu. Não havia jantar, mas um dos simpáticos filhos do dono do prédio tomou uma chuva de leve e comprou uns biscoitos, doces e salgados, e uma água, pra dar uma enganada. A energia elétrica vai durar mais umas três horas mas o carregador do celular do André ficou na mochila, então só temos nossa própria energia pra recarregar.
sábado, 7 de abril de 2012
Fiote
Acho que o Haiti tem tudo pra dar certo. Além deles amarem futebol eles têm dois Carnavais! Um no carnaval outro na semana santa. Aqui no meio rural eles são bem religiosos, bem católicos, do tipo que vão a Igreja com suas melhores roupas. E são muito bonitas. A verdade é que um povo bonitão mesmo. Toda família arrumada, as meninas tem vestidos cheios de bordados, tipo o batizado da minha mãe, fita na cabeça, meia esticada três quartos, ou o nome da meia que vai até a canela. Tem um ar meio retrô bem elegante. Essa é a parte da dignidade deles. Quem vê a família indo a missa de domingo não imagina um país devastado pela miséria. Mas também tem a turma do fuzuê na semana santa. E dá-lhe ra-ra. Passando de carro, tentei tirar foto de um, mas não deixaram, tinha que pagar. Mas eles cobraram na maldade, não era uma taxa padrão, era uma taxa de 'sossega-branco'. Outro ra-ra que eu participei na rua, até que estava animado, mas a molecada encheu a cara de rum (que aliás é bem famoso por aqui) e começou a causar geral. Aliás, a dança da molecada é de um acasalamento de deixar funkeiro carioca constrangido. Amor de roupa. Bom, como ser branco aqui é como ser uma celebridade estranha, onde você anda e todos te olham, alguns te cumprimentam, outros te esnobam gratuitamente e te encaram mais um pouco, do pé a cabeça. Tinha uns sujeitos que já estavam mais pra lá, aquele ânimo de extravasar a esmo, e uma cara de zero boas-vindas. Mesmo discreto, no canto, acompanhando antropologicamente, a situação, perdoe o trocadilho, começou a ficar preta pro meu lado. Quando vi, estávamos saindo da rua asfaltada, desviando de outro bloco e indo pro meio de uma quebrada, isolada e nada asfaltada, quase um beco. É complicada a comparação, mas 80% das casas é como uma favela aqui, só que menos amontoadas e com menos infra. Sem net gato, sem luz, e água a quilômetros com lata na cabeça. Tinha um sujeito, 'organizando' a bagunça com um chicote gigante estalando no chão. Ou era paranóia minha ou eu vi uns caras com um veneno no olhar, louco por um revanchismo de 300 anos de exploração. E até eu explicar que sou apenas um rapaz latino-americano, cheio de dívida no banco, em creole, era mais fácil ralar peito. Depois de cromaticamente chamar a atenção de meio mundo, bêbados conversarem em inglês, sóbrios nem cumprimentar, de todas as crianças me chamarem de 'blan!', umas sorrindo e acenando, outras parecendo que estavam jogando uma pedra em mim; depois de meia dúzia de gente me encarar, do policial (personalidade rara por aqui, mais raro que branco) olhar pra mim e, absolutamente do nada, fazer um 'não' com a mão pra mim, depois de despistar uma fila de gente que me pedia dinheiro, eu achei que o clima não era o mais amigável e resolvi sair de finí.
Na volta, a pé, um nenê lindo, negro de olho claro, chamou a atenção. A mãe apontava pra mim, dizia que eu era pai, pelos olhos. Daí, não sei se ela pediu ou eu que fui me oferecendo, tem uma hora que a tradução não dá conta, e quando vi estava com a criança no colo. Bebês são legais. Tirei umas fotos com 'meu filho' e a comunidade foi se juntando pra ver aquela cena. Sentava criança ao meu lado pra tirar foto, juntava vizinho, já tinha mais de 20 pessoas ao nosso redor, rindo da situação. Pensei no pai da criança chegando e vendo um branquelo segurando seu filho e sorrindo, falando num terrível kreyol: ele é meu filho, tem meus olhos. Piada infeliz. A mãe começou a falar: "ele é teu filho, então ajuda a pagar as contas. dá um dinheiro, dá um dinheiro." A vizinha ajudou o coro do "dá um dinheiro." Essa é a parte que a dignidade dá umas brechas... Eu até tinha um dinheiro, mas me recuso a dar. Aqui tem uma questão série sobre como as ONGs criaram uma população de pedinte. A noite já estava caindo, a vizinhança se aglomerando, os pedidos de dinheiro chegando até o meu amigo e o GoogleTranslate dizia que alguém pediu pra ver no bolso dele se tinha dinheiro… ixi... Toma que o filho é teu! Devolvi o nenê-lindo-do-papai pra mamãe, agradeci como um gringo bobo, e fui saindo mais à francesa que mon amour, abajour e todos os passes de balé. Fui!
O sol já tinha ido dormir, a estrada já estava escura, já voltava ser de terra, a gente a pé, e uns e outros na rua fazendo umas gracinhas, falando umas bobagens sobre nossa alva tez que, obviamente, eu não entendia nada portanto não me ofendia muito. Ainda paramos na vizinha, que mora numa casa de parede de barro e pedra, inclinada como Pisa e absolutamente escura, naquela prosa mole do interior. Tão escuro que não enxergava seus rostos. Só a luz da lua e de um celular com um joguinho eletrônico. Um rádio ao longe e mosquitinhos por perto.
Porto Príncipe
Ontem fiz uma rápida passagem por Porto Príncipe. No geral, não muda muita coisa do resto do país. Ruas escuras, falta de eletricidade, falta de água, gente de sobra e dessa vez, um e outro branco. No aeroporto se avista mais. Um francês perdido, um grupo de jovens cristão em alguma missão da Igreja, um brasileiro descabelado esperando mais um integrante da brigada. A capital, talvez por ser o lugar com mais prédios e edifícios do país, é o local onde se vê mais marcas do terremoto. O Palácio tá afundado, as calçadas deterioradas e ainda existem prédios em pura ruína. A sensação é que o terremoto foi ontem. De fato, o tempo passa de um jeito difrente por aqui. O povo segue sorrindo, mas me parece que um pouco menos amável com estrangeiros, principalmente brancos. Um 'bom dia' já não é suficiente pra conseguir uma resposta ou um sorriso. Eu não entendo muito de kreyol, mas acho que um sujeito ali xingou até a minha quarta geração quando me viu tirando foto de um velhinho que pedia esmolas. É que as vezes 'que horas são?' ou 'pra que lado fica o centro?', em kreyol, parece com algo sobre a reputação da sua mãe ou a uma maneira ríspida de te expulsar de um lugar. Mesmo o kreyol sendo um francês roots, com uma sonoridade que lembra uma língua latina, o sotaque dos haitianos é preponderantemente africano. O suíngue da língua é puro hakuna matata.
Como já estou acostumado com falta de água, luz, lei de trânsito ou qualquer outro tipo de lei, o que mais me chamou atenção em Port Príncipe é capacidade de consumo da classe média. Acho que já disse que no Haiti não se vê carro velho. O único carro velho, caindo aos pedaços, são as saveiros que levam passageiros na caçamba, os famosos tap-tap. Fora isso, transporte individual é só carrão, nível Pathfinder e outros que não sei o nome, mas que são grandes. No Brasil, sem dúvida são carros pra mais de 80 mil reais, que só uma classe média mais alta tem acesso. Aqui não tem Gol, Uno ou aquele Passat velho do vovô. Aqui é só carrão. Ainda estou tentando buscar uma explicação. No supermercado tem vinho tinto chileno, comida árabe, comida italiana, cerveja holandesa, erva-mate argentina, bacalhau e qualquer outra coisa que você imaginar que o Pão de Açucar tem. Tem até chocolate Baton! Tem um monte de produto da Bauducco. Impressionante. Eu não entendo nem como essa classe média tem dinheiro pra isso, da onde eles tiram. Dizem que 30% do PIB do país vem das remessas de fora, das famílias que vivem nos EUA e Canadá. Dizem que mercado consumidor de 10 milhões de haitianos também contribui pra sustentar essa classe. Eu só não sei qual é o luxo de tomar um Cabernet chileno no escuro...
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