último dia no Haiti. são três horas de viagem até Porto Príncipe, saímos bem cedo. faço minhas últimas fotos da estrada, vejo aquele ônibus escolar, o 'diabo', despencado em uma ponte. passo por uma cidadezinha e uma fila de estudantes uniformizados marcham pela rua. o Niltinho diz que é um velório mas eu não vi nenhum caixão, além de estudantes sorrindo. aquela bagunça haitiana vai deixar saudade. eu podia passar horas sendo piegas e falando do povo, das crianças, da esperança e da realidade aguda e triste. mas ficaria muito melodramático. o importante é que chegando em Porto Príncipe tem uma viatura da polícia parando uns carros. pára o nosso e pede identificação. são dois policiais. de um lado conversa com o motorista. o outro vem ao meu lado e pede pra ver minha mochila. o policial que conversa com o Niltinho começa a encrencar com a origem do carro. é de uma ong que apóia o trabalho da Via Campesina. o cara quer falar com algum responsável pela ong. o Niltinho começa a fazer ligações enquanto outro policial me pergunta da onde eu sou. Brasil? começou. então ele fala do futebol, das mulheres e, pra delírio geral da nação, ele saca um celular e coloca a música do Michel Teló e pergunta se eu conheço. demais. ele era jovem. quis frisar que falava quatro línguas, incluindo aquele espanhol que permitiu um pouco de diálogo. me perguntava o que achava do Haiti, das mulheres haitianas, como se fosse um amigo do bar. o Niltinho não conseguia contactar ninguém aquela hora e o outro policial viu que o clima era de amizade. por via das dúvidas me pede uma caneta pra anotar alguns procedimentos. o policial não tem caneta então? lá vou eu emprestar minha caneta de nanquim, 0.8, Staedtler, para fazer arte final de desenhos que nunca fiz. mas eu gostava dela. o policial anota alguma coisa e pergunta se pode ficar com a caneta. eu faço uma cara de pamonha, ao som de trompetes de desenho animado, e digo que sim. vale ressaltar que eu nunca levo caneto comigo em viagens. e sempre tem que preencher aqueles papéis na aduana, imigração. e eu sempre demoro mais porque tenho que pedir uma caneta a alguém. finalmente quando me lembro de deixar apenas uma caneta na minha mochila, o policial resolve se presentear. está ok. minha irmã uma vez perdeu minha caneta 0.5 e resolveu me dar outra 0.8. eu tinha duas iguais. acho que não vai fazer muita falta. seguimos em direção ao centro de Porto Príncipe com a idéia de comprar meu tambor. antes de vir ao Haiti, há quase dois anos eu já havia perguntado sobre os tambores. e são tão baratos. chegamos numa praça central, conhecida por ter coisas pra turistas. na verdade turistas são os estrangeiros que estão trabalhando em ongs, não exatamente fazendo turismo. perguntamos por um tambor mas era menor do que eu queria e mais caro. sempre dá pra negociar, mas conhecia um outro lugar que vendia por um preço bom. foi só pesquisa de mercado ali. de repente uma senhora, de mais de 60 anos vem pedir dinheiro pra gente. 65 no mínimo. a gente tentou dispensar de forma habitual, dizendo que não temos, mas a velhinha, que doida, saiu correndo atrás da gente. correndo naquele passo apressado de quem vai perder o ônibus. e a gente seguiu andando em frente, sentido viatura pra sair dali. e a velhinha vindo atrás. é ridículo correr de uma velhinha. então só apertamos o passo. entramos rapidamente no carro e a velhinha nos alcança batendo no vidro da porta pedindo dinheiro. até chamar a gente mão de vaca em creole e partirmos. que situação, minha senhora...
não tinha muito tempo na cidade, tinha que comprar minhas coisas, comer e ir ao aeroporto. encontramos os tambores bons e baratos, faço uma pechincha de leve e pronto, fizemos um bom negócio. não gosto muito de pechinchar no Haiti porque eles estão numa situação bem crítica. aquele dinheiro tem um valor que eu não posso dimensionar. então foi só uma pechinchinha de leve. modéstia a parte meu tambor é lindo, tem um tratamento na madeira, uns desenhos, demais. então aproveitamos pra lanchar alguma coisa e visitar o, provavelmente, único museu da cidade. é um museu de história do Haiti. na porta, ambulantes vendem pinturas naiff e dizem que estão passando fome. mas eles não tem cara de que estão passando fome e eu passei o último mês no interior do Haiti, vi gente em situação mais arriscada. dispenso e entro. o museu é simples mas é de coração. tem um resumo da história haitiana desde a chegada dos espanhóis. tem uma âncora da Nina ou da Pinta. vestígios indígenas que me interessaram muito, tentando fazer alguma conexão com os indígenas do sul do México, mas meus simplório conceito antropológico não conseguiu fazer nenhuma relação clara. o museu tem um guia com um espanhol igual o inglês de piloto de avião. acho que peguei uns 40% do que ele dizia. mas foi produtivo. ainda tinha uma galeria de pintura contemporânea haitiana que, tirando um ou dois quadros, são basicamente as pinturas que se vê vendendo do lado de fora. faço mais algumas fotos, compro um café haitiano de uma cooperativa pra dar de presente e partimos ao aeroporto. eu tinha uma sensação que tinha mais dinheiro na mão. mas como havia comprado algumas coisas a mais no dia anterior, achei que havia gastado. chegamos ao aeroporto em tempo.
antes de descer do carro já tem dois funcionários do aeroporto tentando abrir a porta pra pegar as malas. eu digo que não e eles dizem que sim, eu olho pro Niltinho e ele faz uma cara de não sei também. eu digo que não precisa e já tem um pegando a minha mala e partindo, eu quase não consigo me despedir e preciso correr atrás do cara e falar pra ele esperar. o outro já está tocando o meu tambor. vai saber... eles me mostram a identificação de funcionário do aeroporto e acho que tudo bem então. abraço de despedida e sigo. pra entrar no aeroporto tem que ter identificação pros haitianos e passaporte para os estrangeiros. se não vira uma bagunça ali dentro. na entrada já tem uma sala com o detector de raio x. o sujeito joga meu tambor em cima da esteira como se fosse um pedaço de coxão mole no açougue do Zé. enquanto eu tento ajeitar as coisas, o cara maior segue me dizendo, tá tudo bem, tá tudo bem.
passo pelo detector e antes de poder pensar qual a companhia, horário, qualquer coisa, os dois já me colocam numa fila, até furam a fila e estou como um passageiro especial. eu tinha muito tempo, não precisava daquilo. aí começa o negro-drama.
o sujeito maior me pede dinheiro. eu tinha 20 gouds, que valem meia cerveja. o problema que aquele dinheiro que eu achava que tinha mas havia sumido, estava no meio do meu passaporte. quando eu saquei pra entrar, apareceu a vista de todos uma nota de 500 gouds. é muito dinheiro pro cara ter carregado sem eu pedir, numa distância de 20 metros minha mala. daí combinei em 100 gouds. 50 pra cada. tá ok. só preciso fazer o check in, troco o dinheiro e te pago. o cara me dizia, você sabe como as coisas funcionam, tem que pagar um dinheiro. tá bom. qual a chance de querer encrenca com um cara daquele tamanho a duas horas de sair do país sem falar a língua dele. antes de fazer o check in um sujeito do aeroporto pegou a minha reserva e meu passaporte. e disse que havia algum problema e sumiu. de repente ele já tinha sumido demais. nada de voltar. eu pensando se havia levado um golpe do passaporte, algum truque que deve ter passado no Fantástico e como eu não assisto televisão, caí como um idiota. o sujeito sumiu com meu passaporte e tem um haitiano de 2 metros me cobrando dinheiro ao meu lado. acho que as coisas não estavam saindo como eu pensava... comecei a ficar preocupado. então o funcionário aparece com meu passaporte e me diz que eu preciso da minha passagem de regresso do México a São Paulo. mas hein? ainda bem que ele falava um espanhol bom, mas aquilo não tinha sentido. estava indo para Cuba, via Panamá e de lá regressava ao México pra depois regressar ao Brasil. eu não tinha a passagem México-Brasil no meu bolso e nem sei porque deveria. meu visto de entrada no México ainda era válido. daí chama o gerente, que está atendendo outros passageiros de outra companhia e tento explicar que aquilo não fazia sentido, e o cara de 2 metros me cobrando dinheiro e eu precisando olhar minha mala e meu tambor enquanto buscava alguém sensato naquele lugar, ou uma internet em vão para buscar meu código de reserva da minha volta e enfim... já estava perdendo os cabelos, pensando que perderia meu vôo e ficaria pra sempre no Haiti, e pagaria multas incríveis, e eu não tinha telefone, e o número do pessoal da brigada estava no meu email e acho que a vaca foi pro brejo.
os dois agiotas bagagem acompanhavam minha via crucis, estou quase meia hora tentando falar com outro gerente, converso com passageiros, faço uma prece, e converso com outra mulher do balcão. a essa altura já não tem fila, não tem mais nada. chega no balcão e capricha no espanhol. a mulher olha a passagem, o visto pra Cuba, o visto pro México. e tudo bem. fez uma cara do tipo 'não entendi o problema, está tudo ok'. eu quero dar um beijo de língua nessa senhora e abraçar mais forte até estrangular de amor. pode despachar as malas. eu queria levar o tambor em cima, mas a mulher não deixou. despachei com o coração apertado. sem plástico nem proteção me despeço do tambor. regresso aos agiotas e tento negociar aquele valor. no aeroporto não havia, antes da sala do embarque, qualquer coisa pra comprar e trocar o dinheiro. e sair do aeroporto aquela altura do campeonato também não ajudava.
começo a negociação. quero pagar 100. ele quer 500. eu insisto que combinamos 100. e falo que no Brasil a gente tem palavra! ele faz uma cara feia que eu me segurei pra não me mijar de pavor e segui no 100. o amigo dele abre a carteira e quer me dar um troco de 250. começamos a melhorar o preço. sigo no 100. um outro haitiano que trabalhava ali com eles também está acompanhando a negociação e acha que fui desrespeitoso insistindo no 100. eles que são legais. o maior ficou puto e falou que não precisava mais pagar nada. mandou eu sair dali. eu saí correndo. eles já haviam esperado uns 40 minutos só na confusão do passaporte, visto, passagem. fiz uma cara de sei lá o quê e segui pro embarque com a sensação que ele ainda ia me pegar lá dentro. entrei olhando pra trás. o que farei com 500 gouds haitiano em Cuba ou em qualquer lugar do mundo? tentei trocar com o policial que confere passaportes mas não rolou. de repente, tem um 'lojinha', que na verdade é um carrinho com lembrancinhas do Haiti, no mínimo, por um valor que é o dobro da rua. sendo que na rua ainda dá pra ter um desconto de 30%. enfim, deixo de pagar o serviço que não pedi e compro mais uma lembrancinha que a Dona Maria vai adorar.
na sala de embarque não tem um tv com os números dos vôos. não tem nenhuma informação oficial. só uma pessoa do aeroporto que grita alguma coisa e todos se aglomeram em volta. eu, por via das dúvidas, levantei em vão umas duas vezes.
meu vôo já está uma hora atrasado e escuto alguém falar o nome da minha companhia. chego numa espécie de fila que dá para a pista. o saguão está cheio de gente. de repente o outro funcionário grita o nome da outra companhia e vejo mais cem pessoas, incluindo os velhinhos, correndo e se aglomerando na entrada. aí é aquela feira. igual porta de estádio. consigo desviar e entro em outra fila mas adiante. haitianos são revistados e um deles discute com o policial que era mais gigante que o cara que queria meu dinheiro. o policial dá um chega-pra-lá no sujeito, que era magro, que no mínimo descolou algum troço no corpo dele. bem gratuito. mas essa violência foi pontual, não faz jus ao Haiti. eles gritam muito mas não são de porrada. nem olham minha mochila. desço para pista e no Haiti os passageiros vão caminhando até o avião. minha última foto de lembrança. tifóide, cólera, HIV, malária, violência, caos ou qualquer outro problema que seja gravado pelos meios de comunicação vale a pena por cada pessoa que você encontra e sorri e te convida pra comer em sua casa com a naturalidade de um vizinho. eu ainda não sei falar creole e passei um mês inesquecível.