sexta-feira, 11 de maio de 2012

Como sair do Haiti







último dia no Haiti. são três horas de viagem até Porto Príncipe, saímos bem cedo. faço minhas últimas fotos da estrada, vejo aquele ônibus escolar, o 'diabo', despencado em uma ponte. passo por uma cidadezinha e uma fila de estudantes uniformizados marcham pela rua. o Niltinho diz que é um velório mas eu não vi nenhum caixão, além de estudantes sorrindo. aquela bagunça haitiana vai deixar saudade. eu podia passar horas sendo piegas e falando do povo, das crianças, da esperança e da realidade aguda e triste. mas ficaria muito melodramático. o importante é que chegando em Porto Príncipe tem uma viatura da polícia parando uns carros. pára o nosso e pede identificação. são dois policiais. de um lado conversa com o motorista. o outro vem ao meu lado e pede pra ver minha mochila. o policial que conversa com o Niltinho começa a encrencar com a origem do carro. é de uma ong que apóia o trabalho da Via Campesina. o cara quer falar com algum responsável pela ong. o Niltinho começa a fazer ligações enquanto outro policial me pergunta da onde eu sou. Brasil? começou. então ele fala do futebol, das mulheres e, pra delírio geral da nação, ele saca um celular e coloca a música do Michel Teló e pergunta se eu conheço. demais. ele era jovem. quis frisar que falava quatro línguas, incluindo aquele espanhol que permitiu um pouco de diálogo. me perguntava o que achava do Haiti, das mulheres haitianas, como se fosse um amigo do bar. o Niltinho não conseguia contactar ninguém aquela hora e o outro policial viu que o clima era de amizade. por via das dúvidas me pede uma caneta pra anotar alguns procedimentos. o policial não tem caneta então? lá vou eu emprestar minha caneta de nanquim, 0.8, Staedtler, para fazer arte final de desenhos que nunca fiz. mas eu gostava dela. o policial anota alguma coisa e pergunta se pode ficar com a caneta. eu faço uma cara de pamonha, ao som de trompetes de desenho animado, e digo que sim. vale ressaltar que eu nunca levo caneto comigo em viagens. e sempre tem que preencher aqueles papéis na aduana, imigração. e eu sempre demoro mais porque tenho que pedir uma caneta a alguém. finalmente quando me lembro de deixar apenas uma caneta na minha mochila, o policial resolve se presentear. está ok. minha irmã uma vez perdeu minha caneta 0.5 e resolveu me dar outra 0.8. eu tinha duas iguais. acho que não vai fazer muita falta. seguimos em direção ao centro de Porto Príncipe com a idéia de comprar meu tambor. antes de vir ao Haiti, há quase dois anos eu já havia perguntado sobre os tambores. e são tão baratos. chegamos numa praça central, conhecida por ter coisas pra turistas. na verdade turistas são os estrangeiros que estão trabalhando em ongs, não exatamente fazendo turismo. perguntamos por um tambor mas era menor do que eu queria e mais caro. sempre dá pra negociar, mas conhecia um outro lugar que vendia por um  preço bom. foi só pesquisa de mercado ali. de repente uma senhora, de mais de 60 anos vem pedir dinheiro pra gente. 65 no mínimo. a gente tentou dispensar de forma habitual, dizendo que não temos, mas a velhinha, que doida, saiu correndo atrás da gente. correndo naquele passo apressado de quem vai perder o ônibus. e a gente seguiu andando em frente, sentido viatura pra sair dali. e a velhinha vindo atrás. é ridículo correr de uma velhinha. então só apertamos o passo. entramos rapidamente no carro e a velhinha nos alcança batendo no vidro da porta pedindo dinheiro. até chamar a gente mão de vaca em creole e partirmos. que situação, minha senhora...
não tinha muito tempo na cidade, tinha que comprar minhas coisas, comer e ir ao aeroporto. encontramos os tambores bons e baratos, faço uma pechincha de leve e pronto, fizemos um bom negócio. não gosto muito de pechinchar no Haiti porque eles estão numa situação bem crítica. aquele dinheiro tem um valor que eu não posso dimensionar. então foi só uma pechinchinha de leve. modéstia a parte meu tambor é lindo, tem um tratamento na madeira, uns desenhos, demais. então aproveitamos pra lanchar alguma coisa e visitar o, provavelmente, único museu da cidade. é um museu de história do Haiti. na porta, ambulantes vendem pinturas naiff e dizem que estão passando fome. mas eles não tem cara de que estão passando fome e eu passei o último mês no interior do Haiti, vi gente em situação mais arriscada. dispenso e entro. o museu é simples mas é de coração. tem um resumo da história haitiana desde a chegada dos espanhóis. tem uma âncora da Nina ou da Pinta. vestígios indígenas que me interessaram muito, tentando fazer alguma conexão com os indígenas do sul do México, mas meus simplório conceito antropológico não conseguiu fazer nenhuma relação clara. o museu tem um guia com um espanhol igual o inglês de piloto de avião. acho que peguei uns 40% do que ele dizia. mas foi produtivo. ainda tinha uma galeria de pintura contemporânea haitiana que, tirando um ou dois quadros, são basicamente as pinturas que se vê vendendo do lado de fora. faço mais algumas fotos, compro um café haitiano de uma cooperativa pra dar de presente e partimos ao aeroporto. eu tinha uma sensação que tinha mais dinheiro na mão. mas como havia comprado algumas coisas a mais no dia anterior, achei que havia gastado. chegamos ao aeroporto em tempo.
antes de descer do carro já tem dois funcionários do aeroporto tentando abrir a porta pra pegar as malas. eu digo que não e eles dizem que sim, eu olho pro Niltinho e ele faz uma cara de não sei também. eu digo que não precisa e já tem um pegando a minha mala e partindo, eu quase não consigo me despedir e preciso correr atrás do cara e falar pra ele esperar. o outro já está tocando o meu tambor. vai saber... eles me mostram a identificação de funcionário do aeroporto e acho que tudo bem então. abraço de despedida e sigo. pra entrar no aeroporto tem que ter identificação pros haitianos e passaporte para os estrangeiros. se não vira uma bagunça ali dentro. na entrada já tem uma sala com o detector de raio x. o sujeito joga meu tambor em cima da esteira como se fosse um pedaço de coxão mole no açougue do Zé. enquanto eu tento ajeitar as coisas, o cara maior segue me dizendo, tá tudo bem, tá tudo bem.
passo pelo detector e antes de poder pensar qual a companhia, horário, qualquer coisa, os dois já me colocam numa fila, até furam a fila e estou como um passageiro especial. eu tinha muito tempo, não precisava daquilo. aí começa o negro-drama.
o sujeito maior me pede dinheiro. eu tinha 20 gouds, que valem meia cerveja. o problema que aquele dinheiro que eu achava que tinha mas havia sumido, estava no meio do meu passaporte. quando eu saquei pra entrar, apareceu a vista de todos uma nota de 500 gouds. é muito dinheiro pro cara ter carregado sem eu pedir, numa distância de 20 metros minha mala. daí combinei em 100 gouds. 50 pra cada. tá ok. só preciso fazer o check in, troco o dinheiro e te pago. o cara me dizia, você sabe como as coisas funcionam, tem que pagar um dinheiro. tá bom. qual a chance de querer encrenca com um cara daquele tamanho a duas horas de sair do país sem falar a língua dele. antes de fazer o check in um sujeito do aeroporto pegou a minha reserva e meu passaporte. e disse que havia algum problema e sumiu. de repente ele já tinha sumido demais. nada de voltar. eu pensando se havia levado um golpe do passaporte, algum truque que deve ter passado no Fantástico e como eu não assisto televisão, caí como um idiota. o sujeito sumiu com meu passaporte e tem um haitiano de 2 metros me cobrando dinheiro ao meu lado. acho que as coisas não estavam saindo como eu pensava... comecei a ficar preocupado. então o funcionário aparece com meu passaporte e me diz que eu preciso da minha passagem de regresso do México a São Paulo. mas hein? ainda bem que ele falava um espanhol bom, mas aquilo não tinha sentido. estava indo para Cuba, via Panamá e de lá regressava ao México pra depois regressar ao Brasil. eu não tinha a passagem México-Brasil no meu bolso e nem sei porque deveria. meu visto de entrada no México ainda era válido. daí chama o gerente, que está atendendo outros passageiros de outra companhia e tento explicar que aquilo não fazia sentido, e o cara de 2 metros me cobrando dinheiro e eu precisando olhar minha mala e meu tambor enquanto buscava alguém sensato naquele lugar, ou uma internet em vão para buscar meu código de reserva da minha volta e enfim... já estava perdendo os cabelos, pensando que perderia meu vôo e ficaria pra sempre no Haiti, e pagaria multas incríveis, e eu não tinha telefone, e o número do pessoal da brigada estava no meu email e acho que a vaca foi pro brejo.
os dois agiotas bagagem acompanhavam minha via crucis, estou quase meia hora tentando falar com outro gerente, converso com passageiros, faço uma prece, e converso com outra mulher do balcão. a essa altura já não tem fila, não tem mais nada. chega no balcão e capricha no espanhol. a mulher olha a passagem, o visto pra Cuba, o visto pro México. e tudo bem. fez uma cara do tipo 'não entendi o problema, está tudo ok'. eu quero dar um beijo de língua nessa senhora e abraçar mais forte até estrangular de amor. pode despachar as malas. eu queria levar o tambor em cima, mas a mulher não deixou. despachei com o coração apertado. sem plástico nem proteção me despeço do tambor. regresso aos agiotas e tento negociar aquele valor. no aeroporto não havia, antes da sala do embarque, qualquer coisa pra comprar e trocar o dinheiro. e sair do aeroporto aquela altura do campeonato também não ajudava.
começo a negociação. quero pagar 100. ele quer 500. eu insisto que combinamos 100. e falo que no Brasil a gente tem palavra! ele faz uma cara feia que eu me segurei pra não me mijar de pavor e segui no 100. o amigo dele abre a carteira e quer me dar um troco de 250. começamos a melhorar o preço. sigo no 100. um outro haitiano que trabalhava ali com eles também está acompanhando a negociação e acha que fui desrespeitoso insistindo no 100. eles que são legais. o maior ficou puto e falou que não precisava mais pagar nada. mandou eu sair dali. eu saí correndo. eles já haviam esperado uns 40 minutos só na confusão do passaporte, visto, passagem. fiz uma cara de sei lá o quê e segui pro embarque com a sensação que ele ainda ia me pegar lá dentro. entrei olhando pra trás. o que farei com 500 gouds haitiano em Cuba ou em qualquer lugar do mundo? tentei trocar com o policial que confere passaportes mas não rolou. de repente, tem um 'lojinha', que na verdade é um carrinho com lembrancinhas do Haiti, no mínimo, por um valor que é  o dobro da rua. sendo que na rua ainda dá pra ter um desconto de 30%. enfim, deixo de pagar o serviço que não pedi e compro mais uma lembrancinha que a Dona Maria vai adorar.
na sala de embarque não tem um tv com os números dos vôos. não tem nenhuma informação oficial. só uma pessoa do aeroporto que grita alguma coisa e todos se aglomeram em volta. eu, por via das dúvidas, levantei em vão umas duas vezes.
meu vôo já está uma hora atrasado e escuto alguém falar o nome da minha companhia. chego numa espécie de fila que dá para a pista. o saguão está cheio de gente. de repente o outro funcionário grita o nome da outra companhia e vejo mais cem pessoas, incluindo os velhinhos, correndo e se aglomerando na entrada. aí é aquela feira. igual porta de estádio. consigo desviar e entro em outra fila mas adiante. haitianos são revistados e um deles discute com o policial que era mais gigante que o cara que queria meu dinheiro. o policial dá um chega-pra-lá no sujeito, que era magro, que no mínimo descolou algum troço no corpo dele. bem gratuito. mas essa violência foi pontual, não faz jus ao Haiti. eles gritam muito mas não são de porrada. nem olham minha mochila. desço para pista e no Haiti os passageiros vão caminhando até o avião. minha última foto de lembrança. tifóide, cólera, HIV, malária, violência, caos ou qualquer outro problema que seja gravado pelos meios de comunicação vale a pena por cada pessoa que você encontra e sorri e te convida pra comer em sua casa com a naturalidade de um vizinho. eu ainda não sei falar creole e passei um mês inesquecível.

orfanato: uma voadora bruceleana no peito











em meus últimos dias no Haiti me esforcei pra tirar mais fotos do maché, provavelmente a manifestação econômica-social mais dinâmica deste país. o Haiti é uma espécie de peruca do século XIX com um topete do século XXI. ainda reside um machismo significativo por essas bandas. homem não lava nem cozinha. difícil ver uma mulher dirigindo um carro ou moto. só as mais moderninhas de Porto Príncipe. por isso os maché são interessantes. ali são as mulheres as protagonistas da cena. elas que vendem, negociam e carregam toda aquela mercadoria, literalmente, na cabeça. mas aposto que você já desconfia como é ser um branco-branquelo com uma câmera na mão, dessas de turistas descolados, andando num maché. rola um impacto de certa forma hostil. não tiro fotos sem pedir. das poucas palavras que sei falar em creole, além de cerveja, água e brioche (ninguém é de ferro) é: 'sou brasileiro, posso tirar uma foto?'. mas algumas mulheres diziam que eu ganharia dinheiro com isso no Brasil e etc., e já não rola mais clima. em um desses machés, fui com um amigo haitiano pra dar um ajuda. mas não adiantou muito. tem haitianos que vendem remédio em um carrinho de yakut. tem parecetamol e o escambau. farmácia mobil. nosso amigo brasileiro que acabava de chegar, o João, que é médico, ficou um tempo ali vendo, conversando. tentei fazer uma foto e não rolou. ele não deixou. acho que suspeita que eu seja do ministério da vigilância inexistente. só consegui uma foto do dono do carrinho sem os remédios. seguindo pelo maché era claro a cara de desagrado das mulheres com a minha presença. raramente, quando me recebiam bem, aproveitava pra solicitar uma foto que eram aceitas. depois seguimos até uma vizinha amiga do nosso haitiano, e um monte de crianças me cercaram e fizemos muitas fotos. e elas são muito divertidas. não que eu entenda de fotogenia, mas me parece que o povo haitiano é bem fotogênico. as crianças então…
no outro dia o Niltinho precisava ir num orfanato vizinho ao nosso aloja, instalar uma cisterna pra captar água da chuva. o Haiti não tem indústria, nem muito carro, nem muita quiemada. então a chuva é bem límpida segundo meus persuasivos critérios de limpidão. boa de tomar, beber, se lavar e molhar em geral. daí eu fui. nunca tinha ido a um orfanato antes. é bonito e terrível pro coração mole, daqueles do conhaque do Drummond que bota a gente comovido como o diabo...
havia um buraco resplandecente pra instalar a cisterna mas algum detalhe nas bordas atrapalhavam o processo. enquanto o Niltinho resolvia o troço eu e o meu amigo médico fomos convidados a entrar. na verdade mesmo, só o doutor foi convidado, porque uma das meninas estava com uma febre há dias e não melhorava muito. daí eu fui junto por via das dúvidas e até dei uns pitacos. coitadinha, uma menina de uns 9 anos, bem bonitinha, deitada com uma cara triste… exame, atendimento, todas essas coisas no Haiti são bem difíceis. até saber se foi uma intoxicação, virose, resfriado ou sei lá o que dá febre, talvez tifóide… enfim, fui adentrando e conhecendo as crianças. crianças de orfanato são diferentes das outras crianças que vemos nas ruas. haitianas ou brasileiras. elas têm um olhar, um pouco mais velho, um pouco mais triste… é uma coisa arrebatadora… eles têm um algo a mais. de uma esperança que insiste, de uma carência crônica. elas brincam como qualquer um. mas quando estão sentadas, estão esperando um algo a mais. um pai, uma mãe, um gesto, um carinho… a responsável pelo orfanato é uma freira do Rio, figuraça… tem brasileiro em tudo que é canto desse mundo. ela tinha um medidor de pressão eletrônico e um celular descolado. era ela descolada mesmo. fiz algumas fotos e tentei alegrar a criança que estava doente. me senti um idiota fazendo caretas e gesticulações que talvez uma criança criada assistindo os filmes da sessão da tarde poderia rir, mas ela, impávida, mantinha sua carinha de esvaziada e triste. que idiota eu me senti.  antes de sair do seu quarto disse em creole que ela ficaria bem e dei um beijo. quase saiu um sorrizinho. bem tímido. eu acho que eu assusto as crianças. pernilongo que é bem, não assusto nenhum. fui ajudar a freira com os medicamentos que o dono do orfanato trouxe dos EUA e ela não sabia traduzir o nome dos princípios ativos. apliquei aquele meu inglês Google Translate e ajudei a especificar umas vitaminas e outros remédios pra tosse. eu fui apresentado como publicitário, depois como fotógrafo e, depois, ao telefone, a freira disse que estava com um cineasta. aí eu vou pra galera. ela disse que eu e o médico caímos do céu. tinha um remédio que eu fiz uma tradução próxima, estilo empate técnico. era um achismo bilíngue. depois pensei que fiz isso num orfanato e acho que deveria me sentir culpado. pra mim, aquilo queria dizer que era feito de plantas. daquelas de folhas escuras. acho que era isso. minha tradução deve ter acertado uns 80%. suficiente pra passar naquelas provas do Itamaraty. aí eu fui brincar com  a molecada que tava mais alegre, pulando de um lado pro outro. o orfanato era pequeno, tinha talvez umas dez crianças. mas dez crianças, meu amigo, valem por muita confusão. minhas imitações já fazem mais sucesso. comecei fingindo que comia uma manga com casca e ela entalava na minha barriga. finjo ser piloto, dirijo um carrinho de brinquedo, corri atrás de uns quantos, e agora minhas caretas faziam até a mulher que trabalhava ali dar risada.
aí veio o abraço.
não sei se fui eu ou se foi o molequinho que eu tinha simpatizado mais, mas alguém começou uma abraço. daí veio o tsunami de amor. a freira já havia me dito que, dada a carência das crianças (algumas tem a mãe viva, mas que não pode criá-las) quando ela dá remédio pra uma que está doente, as outras, que estão boas, também querem remédio. sugeri uma aguinha colorida com açúcar fingindo medicina e a freira adorou a dica.  bom, então começo a abraçar um deles, quase coloco no colo se, de repente, todas, absolutamente, todas as crianças começam a me escalar e me abraçar e me agarrar e todos querem subir em mim e minha bermuda está caindo, pelo amor de Deus, não posso ficar de cueca num orfanato.  peço pra alguém pra segurar minha câmera, pra alguma coisa sair ilesa daquela avalanche de paixão. eu estou até comovido mas meio preocupado em alguém cair e se machucar e não me deixarem sair pra sempre. 
a freira intervém e consigo sair. ainda me despido de mais alguns, da freira com ênfase, passo o telefone do médico, prometo que ele vai atender quando ela precisar. não consigo tirar da cabeça o olhar de uma delas. ele tinha algum cisco ou problema em um dos olhos e sorria com um olho abeto e outro fechado, com um ar maroto. mas ele não estava sendo maroto. ele tinha dificuldades na vista. nos dentes. no crescimento. a freire havia me dito que um guri que aparentava uns 5 anos já tinha quase 9. o médico diz que estão subnutridas. não é aquela subnutrição das fotos apelativas africanas, das costelas salientes de crianças famintas. é outro tipo. a criança não cresce muito, fica baixa, não sorri tanto, não tem aquela energia. não consigo mais esquecer aquele olhar. onde tem acesso a água tem lavoura produzindo alimentos no Haiti. essa criança não tem o que comer enquanto a loja do posto de gasolina tem Pringles, Heinekken, Corn Flakes e o escambau. crianças esquecidas. com seus ciscos, febres e problemas nos dentes. com seu carrinho de placa de ferro carregando pedras. com o que sobou de sua energia, a espera do abraço do pai, da mãe, da freira ou do branquelo estranho com uma câmera na mão.
impotente.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Encruzilhada haitiana


Se você é da geração que assistia a televisão enquanto seus pais não tinham tempo pra te cuidar pois o governo Sarney-Collor estavam tripudiando da economia, você provavelmente deve ter visto desenhos onde alguém fazia um vudu de outra pessoa e a espetava com agulha. Eu, quando criança, uma vez, pedi a minha mãe pra fazer uns bonecos de pano dos meus irmãos. Eles são mais  velhos. Eu queria espetar umas agulhas pra ver se funcionava. E como minha mãe manjava de consertar uns furos nas minhas camisetas achei que isso fazia dela uma costureira, pessoa apta a fazer bonecos dos meus irmãos pra eu poder compensar minha condição subserviente a eles. Caçula consegue muitas coisas, mas não que uma mãe faça isso. Se talvez não fossem meus irmãos… Enfim, era só pra fazer uma introdução que o vudu existe, mas não com agulha no bonequinho. Bom, não que eu tenha visto. O vudu é a grande manifestação religiosa do Haiti. Muito semelhante ao Candomblé. Eles chamam 'vodu', tem que pronunciar esse 'o'. E mantém esse sincretismo de cultuar manifestações afro-descendentes com santos católicos. E tambor. E gente dançando. E gente encarnando. E aquela bagunça. É um barato. Eu conheço muito pouco do Candomblé pra poder falar, mas conheci um pouquinho da Umbanda. Me parece que as duas são mais organizadas que o vodu. Acredito que nelas há uma série de regras para os trabalhos serem feitos. Não que o vodu não tenha regras, mas a princípio não ficaram muito claras. Eu já chegarei no exemplo de não haver muitas regras. 
Eu já havia comentado com a galera sobre minha vontade de conhecer o vodu e comprar um tambor. Por aqui, na zona rural, é possível escutar ao longe uns tambores do vodu começando no fim da tarde, e terminando no começo da manhã. É muito tempo de batuque. Impressionante. Mas o haitiano é forte demais. Desde pequeno carregam muito peso na cabeça levando as mercadorias ao maché. Ou trabalham na roça com tecnologia do século XIX. Sem contar que pra tudo se caminha muito. Eles são fortes mesmo. Então me disseram que estava rolando um vodu ali perto e um dos nossos amigos do futebol de fim da tarde é meio manda-chuva do terreiro. Um cara simpático, joga legal. Aí facilita pro branquelão aqui. Metemos três na motoca e fomos. Era perto mesmo. De moto nem cinco minutos. À esquerda da estrada principal, uma rua de terra batida e pedras nos leva a uma casas de concreto, mal acabadas, no estilo Haiti. Crianças na rua e o som dos tambores ao fundo. É uma casa com um quintal na entrada e antes de começar a casa, tem um toldo, uma lona improvisada cobrindo o terreiro. Na entrada havia umas oferendas. Um cruz desenhada no chão, uma espada, uma garrafa com algumas ervas. Algo sim. Aquela simbologia de velas, estrelas e cruzes. Adentramos a tenda pedindo licença as pessoas que ficam em volta. Em volta de um mastro que serve pra sustentar a tenda onde mulheres com um lenço vermelho, amarelo, meio  colorido dançavam ao som do tambor. Entramos, atravessamos e nos encostamos numa beiradinha entre a parede e o chão. Havia uns três ou quatro tambores. Um deles se tocava com uma fina baqueta. O som era bom. Rápido e suingado. Até estava com a máquina, mas não consegui tirar foto. Eu nunca serei um bom fotógrafo porque fico sem graça em várias ocasiões de tirar foto. Eu estava no meio de um lugar sagrado pra eles, acabei de entrar sem ninguém me conhecer, e daí eu já saco a máquina e tiro fotos como se estivesse no circo? Fiquei na minha. Mulheres de todas as idades dançavam. Haviam outras sentadas em volta. Tinha um que estava completamente bêbado e outra que estava completamente encarnada. O André estava completamente desconfortável e já começava a me perguntar se eu não queria ir embora pra jogar o futebol do fim da tarde. Espera um pouquinho. A encarnada fazia caretas de malandragem e cumprimentava as pessoas em volta com um desdém e risada. Esticava a mão e quando cumprimentávamos retirava rindo. O bêbado era apenas um bêbado mesmo. Eles fazem uma bebida estranha com um monte de ervas de dentro e outras coisas que a Anvisa vetaria só pela aparência. Os tambores não param.  As fazem uma pequena paradinha só, mas já voltam em seguida a dançar em volta do mastro. Agora tem um homem em pé junto ao mastro. A mulher encarnada tem um facão, minha gente! É isso mesmo? Vão deixar uma mulher com jeito de malandra bêbada com um facão repleto de tétano e irresponsabilidade? Vão. A mulher apenas arranha algumas partes do corpo do senhor em pé. Alguns pontos específicos perto da costela. Devia fazer parte da simbologia daquele trabalho. Talvez afastar doença, não sei. Sei que em seguida a mulher encarnada literalmente desaba no chão. Pum! Desabou feio, do tipo que se bate a cabeça não volta mais pro plano das leis da gravidade e amigo secreto no fim do ano. Algumas pessoas arrastam o corpo estendido no chão com naturalidade para um canto. As mulheres, entre elas uma garota de uns nove anos, voltam a dançar em volta do mastro. Aqui não tem charuto, mesmo tendo um clima favorável a produção de tabaco. Por isso os tocadores de tambor fumam cigarro mesmo. Com cara de quem tá fumando charuto. Mas é cigarro. A bebida das ervas volta a passar de mão em mão, até a garotinha de nove anos dar um gole. A dança delas é bem afro, parece com jongo nosso. Na parede um quadro de jesus e alguma santa que minha ignorância bíblica não permitiu reconhecer. O André já está perguntando se não podemos ir. Acho que nem deu meia hora. Peço mais cinco minutos. Os tocadores de tambores se revezam e suam muito. O bêbado começa a brincar de encarnado. A que estava encarnada já está acordada tomando água. Nosso amigo que nos levou ao terreiro também queria jogar o futebol que deveria começar mais ou menos aquela hora e tá bom então, fomos embora, de minha parte contrariado.
Chegando no nosso alojamento nem apareceu ninguém pra jogar e ainda era possível escutar os tambores ao longe, o que me deixou mais indignado. Mas o deus dos tambores escreve certo por linhas tortas. Havia combinado com outro amigo, o Niltinho, de a noite ir a um Compa. Era sexta feira! Vamos ver a night de uma cidade de cem mil habitantes, sem luz elétrica, acesso a água, baixa escolaridade, no meio rural haitiano. Por via das dúvidas vesti minha melhor roupa! O Compa é um barzinho que toca Compa. Foi isso que eu entendi. Tem uma música haitiana, bem no estilo caribenha, que se chama Compa. Em geral podemos nos confundir facilmente entre as variantes caribenhas que, de primeira impressão, parecem iguais. Mas a dança é diferente. O Compa estava absolutamente vazio. O povo não tem poder aquisitivo pra ir em barzinho. Se bem que o preço da cerveja era o mesmo do posto de gasolina, que é o padrão geral do país. Não se paga entrada, nem nada. Era uma casa antiga de madeira, daquelas com arquitetura meio americana do Sul do país. Tem muitas dessas por aqui. Sabe aquelas casas onde o Scooby Doo procura uns fantasmas? É essa. Até que estava conservada para os níveis haitianos. Tinha uma luz amarela, uma ciaxa de som alta, com um som bom. A cerveja estava absolutamente gelada e para mim isso já era suficiente. A única alma penada no local eram duas garotas e um cara na mesa ao lado. Fora isso era o dono e o segurança da entrada. O Haiti nem é um país violento, nem se compara com São Paulo ou a Cidade do México, mas sempre tem seguranças, em geral armados, nos estabelecimentos comerciais maiorzinhos. A gente é até revistado! 
Música boa, cerveja gelada. O cara da mesa da frente começa a dançar com uma delas. No começo da dança parece fácil, de mãos dadas, um de frente pro outro, só balançam no ritmo, sem complexidade. Aí começa a maldade. Tem uma parte da música onde a mulher vira de costas e aplica o bundão na pélvis alheia. E fica ali esfregando na maior. É sexo de roupa. Tudo o que o haitiano é conservador e pudico no dia a dia eles compensam no Compa. Meu amigo já estava 'alegre' e vai conversar com a menina. Tenta puxar conversa. Não deu em nada. Eu me mantive sentado, meu creole não passa do bom dia. mas uma delas vem conversar comigo. Não entendo e preciso do meu intérprete quase bêbado. Acho que vai funcionar. Ele diz que ela quer dançar comigo. Lá vai. Ficamos naquela coisa de mão dada dançando que nem criança. Mas não rolou a maldade. Não sei se por culpa minha por não saber que parte da música eu tenho que enconxá-la de maneira afetuosamente escandalosa. Fiquei na minha. Antes da música o meu amigo tinha falado uma séria de coisas pra ela. Quando terminou ela virou e saio pra conversar com seu amigo e eu sentei na mina mesa. Pergunto: Niltinho, o que você falou pra ela? Falei que você ama ela! Deixa comigo! Tô agitando ela. Dei risada. Acho que você mandou bem. Tomais algumas cervejas e sou obrigado a usar um banheiro que não tem luz. Em geral a gente já não é bom de mira quando está iluminado, imagina no escuro. Paciência. Volto a cerveja gelada e música boa. Estou contente assim. A moça volta e, pra variar, pede pra eu pagar uma cereja que, pra variar, digo que não. O lugar já era para um pessoal mais ou menos, dentro das possibilidades, classe média local. Se vestiam bem, podiam estar em qualquer cidade ocidental. Pagar cerveja? Fica pra próxima. O pessoal acha que tem um pé de dinheiro no viveiro da brigada. A noite vai acabando, e o dono avisa que o bar fechará em cinco minutos. A impressão foi boa. Se houvesse mais gente naquele lugar deve ser bem divertido. Meu amigo ainda me disse que em outras cidades o Compa é mais animado, bem frequentado, e o povo só falta transar lá dentro. Na rua não pega bem andar sem camisa, mas pode tomar banho peladão no canal. Na rua não se vê muito casal de mão dada se beijando, mas pode transar no Compa. Tá bom, cultural é isso aí. Tem que respeitar. 
Quando voltávamos pra casa, crente que a noite tinha acabado, no meio da rodoviazinha, no único ponto que havia um poste de luz acesa, esquina com uma rua de terra e pedra, está rolando um vodu! Pára motorista! Encostamos a motoca e fomos ver. Chego na humildade branquela perguntando em creole se posso assistir. Claro que sim, fica a vontade. Depois as outras perguntas não sou capaz de responder e um deles arrisca um espanhol. Os caras foram gente fina. Nos aproximamos do vodu. No centro da roda tem um tapete com velas e vasos.Tem alguém encarnado ali. São pessoas jovens. Em volta dança de mulheres. É bem feminina essa parada. Tinha uns ingredientes no chão que as pessoas encarnadas ficavam adicionando nos vasos. Ao lado o batuque. pessoas observando e outras dançando. Já passou da meia noite e tudo é puro breu ao redor do poste. Das mulheres dançando, com suas roupas coloridas, uma delas se aproxima e vem dançar comigo. Lá vai… Como eu já havia bebido o suficiente pra achar que, olha só, eu estava enganado, eu sei dançar, eu fui lá dançar com a velha. Tem uma passo, redondamente mal feito que faço achando que estou dançando jongo. É tipo constrangedor mesmo. Só faço depois da meia-noite. Aprendi com meu brother Wander, dançarino exímio. Parti pro suíngue. O povo foi a loucura vendo um branquelo que surge do nada, aparecer e dançar com a mulher. Eu, sinceramente, acho que estava fazendo a coisa direito. Ri alto agora. É uma dança com um suíngue meio jongo, meio capoeira. As pessoas ficavam em volta, riam, olhavam incrédulas. Pensei orgulhoso: estou abafando. Ri alto de novo. Pronto, depois de cartão de visita, o povo do vodu me recebeu numa boa. Outro sujeito que falava espahol (em geral, os jovens já falam umas 3 línguas por aqui) me explicou umas coisas, mas o espanhol dele era meio tenebroso, entendi uns 60%. O cara era gente fina. Tinha uma moral ali. Os tabores seguiam firme. O povo cantando e dançando, provavelmente em dialeto afro.  Era bonito de ser ver. De repente, pum! Despenca no chão a pessoa encarnada. Segue a música, alguém ampara o corpo, tira da roda, dá água e em poucos minutos vejo a pessoa acordando, pra logo depois voltar a dançar. Se passa o mesmo com outra pessoa. Assim eu vejo umas três mulheres que estavam dançando em volta , encarnarem, dançarem, irem ao centro, fazerem alguma coisa nos seis ou sete vasos, como se fosse uma receita, e depois cair duro, literalmente no chão, e desencarnar. Depois a pessoa já estava boa. E segue tambor, segue dança, no meio do nada. O outro que falava espanhol me explicou alguma coisa que hoje era dia de receber uma entidade que era uma criança.
Agora começa a parte que eu acho meio desorganizada. Talvez uma das cenas que espero guardar pra sempre na minha memória. Uma das dançarinas em volta vai ao centro da roda e começa a recebe ruma entidade. Dá-lhe tambor, vela e toda aquela mística. De repente, quando encorpora, 'a entidade' no corpo da mulher, meio gordinha até, sai correndo no meio da rodovia e vai embora! Fora o poste, tudo está completamente, cem por cento, escuro. Não se vê nada. E o corpo encarnado fugiu! O povo sai correndo atrás da entidade fujona. Eu fui junto, lógico. O 'espírito' deu um gás ali de uns vinte, quase trinta metros. Os caras conseguiram alcançá-la e trouxeram pela braço. Foi sensacional a cena do 'fui!' que o corpo deu. As entidades aprontam no vodu. Outra mulher encarnou uma entidade. Elas revezavam entre as dançarinas em volta. Deviam haver pelo menos umas dez dançando e encarnando. Cada uma na sua vez. Uma hora haviam duas encarnadas, mexeram nos vasos, fumaram, beberam e, quando pensei que já havia visto demais naquela noite, uma delas parte pra cima da outra, pula em cima e começa a 'transar' de roupa. Mas transar forte, pura libido e pélvis pra trá e pra frente. Bizarro. Eram duas mulheres de meia idade. Alguém comenta que aquela metáfora de cópula fazia parte do rito. Eram duas mulheres simulando um sexo forte ás duas da manhã numa encruzilhada no meio do interior do Haiti. Deu né? Alguém tenta separar os corpos. Eles mexem mais no vaso. Tem alguém colocando talco lá dentro. Eles misturam um monte de coisa estranha nos vasos e não faço idéia pra que serve. Meu amigo dorme em pé. O cara que manja de espanhol está no meio da roda fazendo um trabalho de colocar um lençol enorme em cima das garotas que encarnaram e da atual encarnada. Os homens no vodu tem um papel bem secundário mesmo. Agitam o lençol, alguma mulher parece desencarnar debaixo do pano iluminado pelas velas do centro da roda. Os tambores seguem. Alguém me diz que vai até as seis da manhã. Já era quase três. Quase todas já tinham encarnado e aprontado. Melhor vazar antes que chegue a minha vez… Esperei tirar o lençol e cumprimentei o cara, agradecendo. Subimos na motoca e ela ainda falhou o suficiente pra um outro haitiano gente fina dar a partida pra gente. Uma experiência inacreditável.

segunda-feira, 23 de abril de 2012

garupa, a volta








Último dia do Diário de Garupa. Hora de voltar. Nossa viagem começou com uma parada para um espaguetí, companheirto de marmita que nos acompanhou todos os dias pela manhã. Pra se despedir não seria diferente: sete da manhã, espaguetí pra turma! Eu fico feliz só de lembrar. O Professor ainda fez uma ressalva, vocês terão uma viagem muito longa pela frente, coma bem. Claro, Prófe, deixa comigo. Comi dois pratões chorando de alegria. Esse espaguetí já não tinha pimenta e o Professor ainda ofereceu um catchup pra cooperar. Lá da onde eu venho, catchup em qualquer tipo de massa, e isso inclui pizza, dá cadeia ou enforcamento por justa causa. Mas eu estou longe da onde eu venho. O espaguetí de massa dominicana e linguicinha sabe-se-lá de que porco permite essas exceções. Aliás, estou pensando em parar de comer porco. Um amigo me lembrou que porco, diferente da vaca, só como tranqueira. Daí eu vi aqui uns porcões na corda, envoltos em sujeira e tristeza, me fez repensar. O problema é o salame. Faz quase cinco meses que eu não como um salaminho dá pesada. Enfim. Comemos um espaguetí, gravamos o depoimento dele, dei minha camisa do Corinthians, 9 Ronaldo, pro filho dele, o adolescente que não é capeta e gosta de futebol. Por incrível que pareça, tem camisetas de clube do Brasil aqui no Haiti. Não sei se é o povo da Minustah (exército da ONU que ocupa o país e faz um semblante pra lá de polêmico de polícia) que deu, ou de outras entidades brasileiras, mas eu contei umas 3 camisas do Grêmio, 1 do Flamengo, 1 do Sport. Da seleção brasileira nem se fala. Num dia você vê tranquilamente umas 3, 4… Agora tem uma do Coringão pra consolidar nosso projeto de internacionalismo sem Libertadores. Vai Corí! Comemos, gravamos um depoimento do professor e tiro mais fotos. De repente minha máquina dá uns pau na hora de ver as fotos tiradas. Como era uma viagem de 5 dias, na garupa de uma moto, com pouca possibilidade luz elétrica, não era recomendável levar um laptop. Então eu levei os únicos dois cartões de memória que eu tinha. O 32GB completei de fotos e filmes e as últimas 24horas seriam no cartão de 16GB. Mas era a primeira vez que eu usava, e sei lá desses processos de compatibilidade de cartão SD, só sei que funcionou normal na praia, e pela manhã algumas fotos tiradas deram pau na visualização. Alguns vídeos também. Achei que era uma crise da máquina mas que passava. Mas não passou. 5 minutos depois que eu saí da casa do Professor, a máquina disse que não reconhecia o cartão e que não era possível acessar as fotos tiradas. Zica! Perdi a entrevistinha com o Professor. Fiquei chateado. Passei a viagem inteira rezando pra chegar em casa e conseguir abrir no computador. Mas não rolou. Ainda baixei um programinha de tentar recuperar, mas não rolou. Engoli o choro, abracei uma árvore pra liberar a tensão e, com os olhos marejados, pensei: o que o Caco dos Muppets Baby faria numa situação dessa? Prometi não formatá-lo até chegar em São Paulo em algum lugar especializado em alguma coisa dessas. Mas tudo bem, não foram muitas fotos. Algumas tinha passado pro lap do Professor. O problema foi a entrevista mesmo… Enfim. Espaguetí, estrevistá, abraços, fotos e partimos. Fazia um ligeiro friozinho quase serrano na montanha. O cenário era surreal. Jamais suspeitaria que aquilo era o Haiti. Uma névoa espessa sobre o morro, as pessoas como silhuetas ao longe, um ar meio limbo meio noir. Meio Hitchcock tropical. Muito doido. Crianças uniformizadas indo a escola, camponeses indo a lavoura, uns pé-de-banana enevoados e a gente desviando de poças e buracos. Que viagem! No meio de uma ladeira alguém chama o André. Devia ser um local amigo dele. O André, em seu trabalho na Via Campesina, passava muitos dias nas comunidades rurais, acaba conhecendo muita gente. O cara pára ele, cumprimenta contente, conversam, eu tento recuperar meu cartão em vão, desisto, eles falam mais alguma coisa, e o cara vai pegar uma carona com a gente até um ponto onde ele sabe que está interditado por causa da chuva da madrugada. Lá vai eu pro chiqueirinho da moto. Não me importo de ir pra ponta, no bagageiro, mas se tivesse uma almofada seria mais digno. Começa uma subida, descida, poças e buracos. Eu me seguro. O cara no meio fala qualquer coisa com André. Minha mochila agora está em minhas costas, pesando pra trás. De repente, passamos numa poça, que tinha um buraco, a moto dá uma atolada e quase cai pra trás. Minha mochila, safada, bem que tentou me derrubar, mas conseguimos enlamear os pés, poupando de enlamear, no princípio de uma viagem de 4 horas, o corpo inteiro. Deu um frio na barriga quando a moto inclinou para cima e vejo 80 quilos de haitiano escorregando na minha direção enquanto aquela poça, marrom avermelhada, boa pra pele, ruim pra auto-estima, se aproximando. Mas deu tudo certo, o André é de Rondônia, está acostumado com trâmites enlemeados e conseguiu se equilibrar. Ele foi um excelente motorista toda a viagem, mesmo com as minhas piadas sem graça atrapalhando sua concentração, ou quando eu pensava em batucar um Molejão no seu capacete. Chegamos num ponto alto, perto de um cruzamento. O amigo haitiano desce, avisa sobre uma pista pro André e ainda consegue alguma coisa tipo 5 gouds pela 'dica'. Esse sim sabe ganhar uma carona e um trocado. Ele não disse nada demais, o André já sabia daquele caminho e ficou com uma cara de 'era pra isso que você veio até aqui?'. Saímos da região da montanha e já muda o micro clima haitiano. Já está quente, não tenho necessidade de estar com uma camiseta debaixo de uma camisa. O caminho da volta será outro. Chegamos numa cidadezinha tranquila como toda cidadezinha haitiana. Paramos pra comprar uma água. Jovens parados na sombra jogam conversa fora. Caiu a ficha que aqui não tem trabalho pro povo. Os camponeses esperam a chuva pra poder plantar, caso não tenha um canal próximo para irrigação. Os jovens ficam na sombra esperando acontecer alguma coisa no país. Não tem essa de horário comercial. Funciona enquanto tiver luz. Sagrado é o domingo onde não fazem nada mesmo. Seguimos viagem. Atravessamos cerrado, caatinga, tudo genérico,  só não chegamos no Pantanal porque grande parte da natureza daqui sofre aquela erosão. Tem um sobe desce discreto, depois ficou tudo plano. Naquela mesma de desviar de poças, pedras, cabritos e buracos. Estamos perto do litoral e o sol das 8 ou 9 já está rachando. O vento te esfria e faz pensar que o sol não tá te queimando. Passamos por uma espécie de salina. Tem uma estrada plana, boa, lisa, de terra batida sem pedra. Só ali e no asfalto abandonamos os 30km/h. Mas era bem surreal, desértica, quase não se via pessoas. Moto só de vez em quando. Montanhas ao longe, sempre nos acompanhando, o mar imenso e lindo ao lado. E a gente numa salina que dava pra pousar um avião. Aliás, se sal é 'feito' daquele jeito nunca mais salgo nada. Era uma terra batida, meio suja, uma água estranha passava por perto. Nem sei como eles coletavam aquilo depois que secava. Voltamos para a estrada de terra e pedra e lentidão precavida. O mar ao lado tem um ou outro pescador. Paramos pra fazer uma boquinha. Era um maché daqueles de beira de estrada. Daqueles que na primeira semana de Haiti você recusaria comer sem dúvida. Mas se é frito não deve ter problema né? Tudo que é frito é bom. Comemos um peixinho sem antes eu insistir pro André pechinchar aquele preço. Eles dobram o preço sem dó para os 'blan'. A mulher tinha uma cara de malandra. E dá-lhe negociação, e troca o peixe, e muda o preço, eu só apontava pra outra vendedora, e chamava o André pra ir lá como se fosse uma ameaça. No final das contas o André conseguiu mais um peixinho por um preço bom. Motoqueiros perguntam se o André é dominicano, eu passo um inútil protetor solar, lá pelas 11h talvez e seguimos num sol de deprimir criança numa loja de doce. Volta ladeira, buraco e uma paisagem árida junto ao mar. Uma pedra branca, enorme é esburacada por trabalhadores que vão usar na construção civil. Aquela que eu nunca vejo ninguém trabalhando. É um buracão no meio da pedra, meio perigo segundo meu audacioso conhecimento em escavação de pedra.. Aparecem mais jangadas no horizonte pra aliviar minhas perguntas por metro quadrado ao André, sobre o fato de ter um litoral enorme e quase nenhum pescador ganhando a vida, ainda mais aqui, onde tudo é escasso, até o vocabulário. Os motoqueiros que estavam no maché do peixim passam pela gente. Buraco, bagagem, e mais de dois ou três passageiros não são o suficiente pros haitianos diminuírem a velocidade. Eles pilotam demais por aqui. Uma buzinadinha simpática e em cinco minutos já avistava eles ao longe, lá na frente. Sobe, desce e estamos chegando numa cidadezinha de médio porte. Significa só que tem um caos na estrada, cheio de moto, gente e coisa e que agora a pista está asfaltada. Já estamos chegando. Atravessamos uma mistura de Saara de temperatura com Tóquio de gente. O trânsito vira um emaranhado doido. Só as motos vão desviando. O sol está me cozinhando. Se eu fosse um peru aquele trequinho vermelho já tinha saltado. Atravessamos a cidade-rodovia e estamos na auto-estrada bem asfaltada perto de casa. Daí pode aumentar a velocidade. A paisagem já é conhecida. Está verde, há plantações de arroz, montanhas em volta, carrões pra cima e pra baixo e em uma hora já estávamos em casa.  Chego ardendo como um camarão. Tive a genial idéia de voltar sem capacete. O Haiti não tem muito essa de capacete, imprudência ou acostamento. A velocidade baixa da moto me deixou tranquilo. Não tem perigo. Perigo é beber água sem saber a procedência. Se bem que no asfalto, quando aumentou a velocidade e o vento empurrava minha bochecha e secava minha íris, mesmo de óculos escuro, eu pensei em colocar o capacete. Mas só pensei. Não pus. Mas aí entendi a função do capacete, pra além de acidentes. Imagina meu cabelo que não via xampu há dias. O sabonete estava comigo e o xampu estava na mochila do André, aquela que perdemos no primeiro dia. O banho foi numa ducha no quiosque da praia. Água boa, mas por si só insuficiente pra tirar aquele sal do cabelo. O vento, espesso quando está numa moto, empurrou meu cabelo pra trás, já meio duro. O resultado, além de parecer que eu tinha levado um choque de todas as voltagens possíveis, era que o danado deixou uma parte singela da minha entrada-careca-em-fase-de-expansão desguarnecida. Imagina uma pele que passou os últimos 26 anos sem ver a luz do sol e, quando vê, é o sol caribenho do meio-dia. Errei. Me sentia quente, mas estava feliz. A viagem foi inesquecível. Antes de chegarmos paramos no posto perto do alojamento para uma digníssima Prestige gelada e um Pringels. No Haiti tem vários Pringels. No Haiti tem tudo, só não tem serviços básicos pra população, como acesso a água limpa. O Pringels aqui custa equivalente a 4 reais! Imagina o que a gente paga de imposto no Braz. Aqui tudo é importado e não tem taxa de importação simplesmente porque não tem uma indústria nacional pra proteger. Só a Prestige, cerveja premiada na Alemanha. O Haiti é o capitalismo puro, eu sua face mais cruel. Se você tem dinheiro você toma Heinekken, compra um Blackberry e com um gerador, liga um laptop com acesso a internet. Se você é um camponês pobre, que depende da chuva pra plantar, você bebe água barrenta da beira da estrada, toma banho nessa água, cozinha nessa água, e utiliza ela pra alimentar seus filhos. E estes são a grande maioria por aqui. Terrível. Hospital não tem nem a sombra. Só conheci um centro médico numa cidade por perto, onde são os médicos cubanos que trabalham. Aliás, os cubanos construíram vários hospitais emergenciais no Haiti depois do terremoto. A Venezuela afastou umas estradas, o Equador fez umas pontes e o Brasil me enviou! Ri alto agora. Eu vim por conta própria. Enfim, a viagem de motoca depois de 18,4 biomas, camponeses, cabritos, buracos e poças, pessoas amáveis, simpáticas, figuras e uma paisagem natural linda mesclada com uma periferia crônica, teve saldo pra lá de positivo, mesmo com a perda da mochila, passaporte e dinheiro do André, e eu perdi meu cortador de unha e a entrevista com o Professor. A lembrança geral é fantástica. Os causos… A vontade é de voltar um dia e atravessar o país inteiro de moto. Onde houver uma estrada, onde houver uma moto, onde houver um protetor solar fps30 pelo menos, eu estarei lá. 

domingo, 22 de abril de 2012

garupa, dia 4









Acordei de madrugada com uma vontade de regar um pé de baobá, desde o nascimento até a velhice aguda. Lá fora, barulho de chuva, ou de gotas antigas que caiam no telhado. Não há forro. É a telha direto, de zinco. Cada semente de um pé de não-sei-o-quê que cai em cima dela faz barulho. Quando chove é demais. Deu uma chovida no dia seguinte. É bom dormir com barulho de chuva. Voltando, pensei em regar toda aquela flora mas desisti. Não achava a minha lanterna, era um breu federal, e provavelmente bichos pervertidos, daqueles que só podem sair no escuro, devem estar dominando todo o quintal enlameado. Dormi. Acordo com a molecada. Dessa vez eles estão comportados se arrumando pra escola. A escola é uma instituição bem formal no Haiti. Todos vão bem uniformizados. Meninas de saia e fitas na cabeça. Meninos de bermuda meio social e sapato. Acho que meu avô se vestia assim em seus idos. E eles também apanham na escola. Não aprendeu, não fez a tarefa, leva um sopapo na maldade. Aqui realmente é um século dezenove respingado de vinte um. Mesmo que a família seja bem pobre eles tem uniforme escolar. Bom, não pode ser muito pobre porque mais de 80% (segundo as estimativas subjetivas haitianas que eu ouvi falar) das escolas são particulares. Inclusive as públicas. Eu digo que o Haiti é surreal. Escola pública é paga aqui. Daí os moleques se arrumam, a mulher já fez o café, eu estou pronto pra ir a praia montando na garupa e o Professor insiste pra que não saíamos em jejum. Não sou muito fã de comer logo cedo, acho que eram umas 7h, mas sou menos fã ainda de fazer desfeita. Meti aquele chocolate quente pra dentro e acho que rolou um pãozinho. Tá ótimo, amigão. Partiu. O Professor perguntou se veríamos o 'forte' e indiciou um amigo para nos acompanhar na apresentação do lugar. O 'forte' é a ruína de um forte de mil setecentos e pedrada, para usar termos locais, que repelia, na base do canhão, as invasões, os piratas e depois serviu como resistência contra os franceses. Ponto histórico. Aceitamos a oferta do amigo e ficamos de nos encontrarmos lá. Garupa, mochila e descida rumo ao mar azul do Caribe. E dá-lhe lama. Pegamos um caminho diferente da ida, e descemos por outro lado do morro. Chegamos numa estrada razoavelmente asfaltada que tornou metade da breve viagem a praia (talvez 1 hora) mais amável para com meu traseiro surrado e castigado. Fiz outras panorâmicas tremidas, tortas e sem nexo, só de recordação. A estrada já voltou a ser de terra, a chuva não chegou praqueles lados e logo chegamos na cidadezinha portuária. Um senhor grisalho grita alguma coisa na rua, sinaliza e nos alcança nos impossíveis 30km/h. Era nosso guia. Sobe na garupa! Agora estamos em três, coisa mais que normal, pra não dizer obrigatória no Haiti. Só a relação do haitiano com a moto valeria um blog próprio. Eles levam cabras, de 4 a 5 cinco criancinhas enfileiradas, carrinho de mão e, inclusive, outras motos. Tudo isso eu sou testemunha ocular. Só duas pessoas na moto é muita folga, coisa de playboy. Três é comum, quatro é assim a vida e cinco podia ser pior, você poderia estar a pé. Enfim, fui pra parte mais detrás, tipo bagageiro que é de metal e deixei o guia no meio pra ir falando o caminho pro André. Aí começou minha via crucis bundis. Pegamos um trecho curto, mais cheio de pedras, daquelas que machucam e, iniciando uma pequena subida que foi rápida, mas pulava tanto nas pedras, batia tanto, e eu sentado naquele ferro-bagageiro…Pai do céu, só não chorei porque já não pega bem ser branco aqui, ser branco e chorão, aí te extraditam. Chegamos no forte depois dos cinco minutos mais longos e angustiantes da minha pobre existência. Eu pensava que era uma espécie de ponto turístico. Na verdade é. Mas foi ingenuidade minha, daquela de sachê 200g que eu tomo todo dia de manhã, achar que teria uma entrada, monitores, sei lá, um vigia cuidando do lugar. Tem um placa e toda negligência do povo haitiano. Completamente abandonado, com o interior todo pichado. É uma construção de quase 300 anos. Tem muita história ali. Perguntamos alguma coisa pro nosso amigo-guia que ficava calado, e ele disse qualquer coisa que já estava escrito no painel. Não explicou mais nada. Acho que ele não tinha muito o que fazer e quis passear de moto com a gente. O forte tem uma vista linda, água bem azul com requintes de verde-claro-transparente-guia-de-viagem. Ainda vimos uma parte quase anexa que possuía uns canhões e outros visitantes, mas o mesmo descaso. Um lixo enorme jogado naquele batente antigo. Aliás, o lixo é um problema aqui. Não tem coleta, não tem saco, não tem nada. Tem a beirada das ruas.  Até em lavoura sendo semeada eu via lixo incorporado ao ambiente. O André foi levar o senhor até o ponto que o encontramos já que não havia mais nada de histórico para ver. Dispensamos o guia e fomos pra praia. Era ali do lado, num quiosque isolado num ponto lindo de uma espécie de quase-baía, ainda segundo meus já requisitados conhecimentos geológico-geográfico-geoestático. O dono era um francês, bem estilo gente que vive da praia, meio surfista bicho-grilo. Mas o cara trabalhou numa ONG no Haiti por mais de cinco anos e resolveu largar pra viver naquele sossegado lugar banhado de beleza. O padrão francês de qualidade é um oásis no Haiti. Quiosque de praia boa mesmo. Cadeiras e mesas boas, banheiro digno, ducha meu deus do céu e um cardápio incrível a preços haitianos. Vendo aquela pobreza-miséria da vila de pescadores, não consigo imaginar da onde ele consegue sustentar esse quíosque que tem espaço pra camping e quartos pra alugar. O André me disse que tem uma época do ano que dá uma bombada ali. Ou deveria dar. Deve ser o que sobrou da classe média haitiana, ou uns dos 2 milhões de haitianos que vivem nos EUA e Canadá, quando vêem visitar a família. De fato o preço é o padrão do Haiti. Não há nenhum acréscimo pelo lugar sem bonito, limpo, organizado, ter água com saneamento e luz elétrica. Havia placas solares (muito comum no Haiti, até os camponeses tem) mas ele também fez uma gambiarra discreta e ligou o motor do carro em algum freezer. A praia era linda, areia boa, sem onda e a beirada do mar era de água límpida 100% transparente. No horizonte um barquinho pesqueiro, igual as nossas jangadas. E também havia um recente resto de alguma coisa grande de metal. Tinha uma silhueta de um caminhão, mas poderia ser a parte estrutural de um barco também. Não sei, não deu pra distinguir. Mas era grande e deteriorado. Foi o ciclone que trouxe pra lá. Ciclones são assim, criam açudes e tiram as coisas do lugar. Conheci uma senhora francesa simpática e pratiquei um inglês assustadoramente macarrônico. Eu falo como um índio, conjugando apenas em primeira vergonha. Mas deu mais ou menos pra gente conversar. Todo mundo é simpático nesse país, até a francesa. Depois dela só havia duas garotas e um cara. Acho que os três trabalhavam pra empresa de celular que recarrega créditos por aí. Se bem que só uma tinha a camiseta. Uma delas puxou conversa quando viu minha câmera, fez aquelas perguntas básicas, depois foi atrás da gente na praia e disse que queria casar com um brasileiro. Só pra ter alguém pra visitar e fazer uma viagem. Claro que sim. Esse é o André. Ele é brasileiro e fala bem a tua língua. O André fez o mesmo comigo. Mais pra frente tivemos um diálogo de baixo calão ao qual ficou claro essa tal idiossincrasia haitiana. No final das contas elas partiram lá pelo meio dia, uma hora, depois de pedir mais fotos, e ainda uma cerveja. Claro que a gente não pagou. O povo adora pedir que a gente, do nada, pague alguma coisa pra eles, e a gente adora recusar. E é do nada mesmo. Curtimos aquele marzão de meu deus, a água era ótima, tomamos um solzão e eu caprichei na sombra, naquelas espreguiçadeiras de hotel de bacana. Comemos um peixe assado de fazer você repensar essa coisa de voltar ao Brasil, e talvez iniciar uma sociedade com o francês gente fina. Mais uma cerveja, solzim, cochilo, aquela vida e retornamos antes de escurecer. Ainda chegaram na praia os visitantes que estavam junto do forte, que havíamos visto algumas horas atrás. Pareciam de uma excursão. De fato, o haitiano não é muito de praia, mesmo com um litoral incrível. Dava pra ver que a turma não era muito habituada com a dinâmica da maré. Eu sei que tem hotéis de luxos em praias privadas por aqui, mas é como Cancun, coisa pra gringo que chega direto no hotel e dificilmente passa por dentro do miserê do país. Na volta de motoca, vejo crianças carregando uma trouxa de galhos na cabeça pra virar carvão. É uma cena comum. Mas dessa vez deu uma sensibilizada. Não se foi a Prestige ou pôr do sol… Mas o moleque tava com uma cara triste, coitado. Em geral você a molecada ajudando no trabalho pesado, carregando água pra cima e pra baixo, levando peso mesmo, mas com uma cara já conformada, do tipo, a vida é isso, paciência. O povo tem essa cara cansada mas conformada. O moleque destoou com uma certa dor de estar fazendo aquilo. Falei pro André dar uma carona, mas já havíamos embalado pra cima, e há uma norma pra não dar carona desse tipo, porque se ocorre algum acidente o povo haitiano vai fazer justiça com as próprias mãos e etc e etc. E significa que vão matar a gente de forma lenta, cruel e talvez ainda façam um troço pras nossas almas ficarem presas pra sempre no limbo.
Esse é o problema do Haiti: ajudas pontuais não tem um efeito de mudar a estrutura, ou a ausência dela. Subimos mais, voltamos, suspeitamos de garoa, aceleramos, deu preguiça, reduzimos, e chegamos no Professor são e salvo e limpos. Veio aquele jantarzão, aquele sono, aquela conversa com o Professor e, depois a conversa da noite passada resolvemos gravar um breve depoimento dele sobre a situação do Haiti e a relação do movimento dele com a Via Campesina, com ênfase na história dos agrônomos e do trabalho com o futebol. Parecia que a chuva voltava ou eram muitas sementinhas caindo da árvorezona por cima do telhado. O tempo estava mais frio mesmo. Os moleques capetas estavam mais calmos, o Professor menos conversador e capotamos felizes, depois de dar tchau ao mar do Caribe e o mais próximo que eu já cheguei do capitão Sparrow.

sexta-feira, 20 de abril de 2012

garupa, dia 3








Alguém tinha me dito, muito provavelmente o André, já que ele era a única pessoa que falava português num raio já de 200km, de que haveria uma reunião na quarta, às sete da matina. Vê se pode… Mas não tem problema, o sol nasce cinco e alguma coisa, os mosquitos te acordam as seis e qualquer coisa e, o fato de estar abusando da hospitalidade, no quarto-sala quase loft se não fosse o excesso de parede, de um haitiano gente fina, faz você acordar cedo pra caramba. E pelo terceiro dia consecutivo, despontando como comida padrão do Haiti, para café da manhã, cedo e meia, aquele pratão que me faz sorrir só de ver a silhueta na tigela: espaguetí. Hmmm… espaguetí… eles sabem me agradar. Quanto mais dentro do interior, menos pimenta vai no espaguetí. Melhor pra mim. Comi como o Mogli quando vê uma plantação de banana. Agradecemos muito, eu agradeci mesmo, com bastante ênfase, como se nunca mais eu fosse ver essa família generosa e acolhedora, até perceber que o cara que nos hospedou e sua esposa estariam novamente conosco em dez minutos, já que eles participariam da reunião. E a reunião era na casa encantada, sem parede nem nada, só com umas pedras pra sentar. Sentei no meu capacete e deixei a pedra pra um próximo que estava em pé. Foi um desafio bundístico ficar sentado naquele capacete. Como não entendo nada de creole, nem me constrange de levantar no meio da reunião e fazer mais fotos do entorno. Retorno, mais uma meia hora de depoimentos, anotações e conclusões sobre a parceria da Via com o Tet Kole. Eles agradecem, sorriem, elogiam e se abraçam: fotos. O André está voltando ao Brasil e faz uma despedida mais significativa. Fim da reunião, vamos à base que fica ao lado, onde o cara iria nos hospedar deu um perdido. Depois ele se desculpou muito, ficou sentido, a gente dizia, aliás, eu disso isso no meu breve depoimento na reunião, que a hospitalidade haitiana é comovente e fará meu blog repetitivo. A parte do blog é brincadeira. Peguei o depoimento do Lulinha de maneira constrangedoramente amadora. Mas o áudio, graças a deus, ficou razoável, minha maior preocupação, já que comprei um microfone festas-infantis-do-titio-da-VHS. Ripa na chulipa e precisávamos partir dali para agilizar nossa ida à praia no dia seguinte. A paisagem eu não lembro de cor, mas dessa vez tinha mais erosão, cactos, semi-árido, árido completo, mata, bicho, deserto e, depois um pouco de morro. Vem uma descida, subida, pessoas em cima de burricos, carvão no lombo, criança no colo, cercas tortas e cabritos na estrada. Paramos pra ajudar um haitiano que tinha a corrente da sua motinho rompida. Emprestamos uma chave de fenda e achei fantástico esse gesto de generosidade já que uma corrente de moto, parecida com a de bicicleta não tem fenda alguma pra poder usar uma chave de fenda. É que nem pregar um prego com um alicate: obrigado mas isso não serve. Mas o haitiano malandro fez servir. Pegou uma pedra, naquele festival lítico da natureza e, com a chave de fenda engatada em alguma dobra ali da corrente, tirou uns pinos. Depois juntou outra parte, pedregou outro pino pra dentro e, em menos de meia hora, o sujeito consertou uma corrente de moto no meio do quase-deserto haitiano, com uma pedra, chave de fenda e minha indispensável ajuda de fazer sombra. O Haiti até tem um movimento em suas estradas. Sempre vai passar alguma moto, e se você precisar de ajuda aposto que eles vão parar. O problema se der uma zica na moto é guinchar a danada. Ou atravessar um rio com ela morta. Ou dormir em cima dela enquanto não aparece ninguém e o sol alucinado te torra que nem amendoim em porta de estádio. Enfim, torce pra não quebrar. A nossa, chinesa de nascença, brazuca de profissão, só engasgava ali na ignição, de resto ela foi direitinho na rua, na chuva, na fazenda, ou numa casinha de sapé.
Já não lembro quanto tempo depois, mas chegamos num rio, que deve ser duas vezes mais largo que o Tietê e umas cento e oitenta quatro vezes mais vazio, já que não tinha mais água, era literalmente uma estrada de pedra. Isso que começou agora a época de chuva. É curioso subir um curso de um leito vazio de um rio,  pura pedra. No máximo uma brechinha de água, bem tímida, furtiva, esquálida, na beiradinha de alguma encruzilhada de pedronas. Ali se vê as lavadeiras e suas trouxas na cabeça. Passamos pés de mangas, que tem muito por aqui, outros cactos, cabritos e burricos e seguimos subindo sentido tropical. A paisagem vai ficando mais verde, um verde mais vivo, a temperatura cai um pouco, tudo é mais úmido, inclusive a estrada. Começa um princípio de lama com aquela ressalva de possibilidade de chuva. Só a falta de gasolina ou preguiça pode parar a gente. Seguimos adiante, porque era muita subida, e se escurece, com chuva, aí sim, a vaca, a porca, as cabritas e os dois brazucas de moto vão pro brejo. Já suspeito que passamos alguma trópico de câncer haitiano porque a paisagem já está sub-tropical segundo meus rígidos conhecimentos técnicos baseado no wikipedia. Meu conceito de subtropical é basicamente o seguinte: se tem uns pés de bananas, coisas verdes escuras, o tempo está mais úmido mais ainda não está chovendo sempre, é subtropical. Ponto. Se chover todos os dia no mesmo horário, açaí, bananeira, Iracema, aí sim é tropical. E dá-lhe subida. Mas agora é subida estilo subir a serra. Era quase uma serra mesmo, mas de uma montanha só. E a lama vai aumentando, e vai surgindo riachinhos no meio do morro, e um processo haitiano fantástico de construir ponte, que é basicamente começar um pilar de uma ponte e depois de uns dois quilômetros tem um troço que parece um trecho, como resto de ponte. Pra variar não vi ninguém trabalhando nela. Aqui no Haiti se vê bastante coisa em construção, principalmente casa. De tudo que vi em construção, inclusive na cidade em que estou alojado, nunca vejo os trabalhadores. Vejo cimento, tijolo pelo meio, andaimes de madeira, segundo andar em stand by, e ninguém trampando. Pode alugar uma casa ao lado de uma construção que não tem martelada, sons metálicos, caminhão de areia causando na rua, nem a moçada do assobio mexendo com a mulher alheia. 
Seguimos passando riachinhos, agora uma lama generosa, velocidade diminuída, quase alcançando os pedestre e passamos um buraco, daqueles que tragam tudo em volta, daqueles que imitam precipício que valeria a pena, seria de bom tom, colocar uma placa ali, um balde com luz sinalizando a presença da morte sem volta praqueles lados. Mas a estrada, em geral, não é perigosa, vai buzinando nas curvas que as pessoas te 'vêem'. O piche de lama faz o povo andar na moral. Só a fome faz o povo andar com pressa. E seguimos subindo, esfriando, lameando mais, às vezes garoando. Na prática só pegamos garoa, nunca chuva, do tipo de lavar o burrico.
Já estamos no meio do morro, seguimos subindo, as casas sumindo, o sol rimando se despedia e a lama aumentando. Junto com a inclinação da montanha. Mais pra cima tinha sinal de pessoas. Não entendia o que aquele povo estava fazendo no alto de uma montanha no meio do nada… Mas era no alto mesmo. Ou você tem uma moto no Haiti ou você vai na padaria comprar cigarro e nunca  mais você volta. Fazer as coisas a pé é pagar promessa… A essa altura eu já desisti de fazer as minhas panorâmicas de parkinson, com as tomadas mais tremidas e provavelmente inúteis que eu já fiz. É melhor usar as duas mãos pra se segurar que a estrada de lama está desafiando os forasteiros. Uma hora a coitada atolou. Tive que descer. Caminhei cinco metros até subir de novo, e eu já podia plantar um pé de abacate na terra que acumulou no meu solado. E aí escorrega mais. Eu e meu apropriado tênis urbano pra lamas, sola lisa de 'não-risque-o-assoalho-da-vovó'. Mas deu tudo certo. Me mantive na vertical quando necessário. Finalmente chegamos no topo. Agora já se configura uma cidadezinha, tem aquele portal de bem-vindo, fala alguma coisa sobre pessoas de paz e a construção mais inteira, bonita e maior é uma igreja católica, recém-inaugurada. O resto é no padrão Haiti. De exceção uma névoa suíça habita o topo da montanha. O clima já pede um agasalho, uma chocolate quente e uma frescura qualquer de Campos do Jordão. Difícil acreditar que estou no Haiti, a paisagem já mudou completamente. Seguimos a casa de um camponês que é diretor de uma escola primária, ginasial, agora não lembro, no meio da subida de todos os santos. O cara é um figura. Eu vou chamar ele de Professor, porque sempre esqueço o nome dele. Quando você escuta muitas palavras novas de um idioma novo é difícil decorar uma coisa específica. A não ser que seja coisas afrancesadas, tipo Pierre. E como o sujeito tinha um jeito de professor mesmo, no modo de perguntar, conversar, o apelido pegou entre a gente. Às vezes eu chamava ele de zoião porque ele é meio estrábico, mas é mancada. Então vai ser Professor só. Chegamos numa casa até que boa para o padrão haitiano, porque era de tijolo. Mas estava bem caindo aos pedaços. De todas as casas que visitei, acho que aquela de ontem que ofereceu um arroz com feijão no meio da tarde, e tinha os recorte de revista pendurados na sala, era o que tinha a casa estruturalmente mais inteira. Essa casa de agora era naquele estilo mesmo haitiano. Banheiro é uma fossa tenebrosa do lado de fora, portas estreitas, luz com tempo contado, água de bacia da chuva. Cozinha também é um cômodo do lado de fora. Isso é um fator importante que eu acho que desnorteia nós, brasileiros famintos e habituados a conversar na cozinha. Tenho a impressão que a cozinha exerce um papel social numa casa brasileira, principalmente as antigas,  que fica um vácuo nas habitações haitianas. Se bem que hoje os apartamentos tem um closet com um microondas embutido numa geladeira. Não dá nem pra sentar. Mas as casas antigas tinham cozinhas legais. E pra quem não gosta de tv mas gosta de café, cozinhas são fundamentais. O Haiti também não é muito de tv. Só vi duas tvs em duas semanas. Uma no restaurante outra numa estrada, num ponto de moto taxi. Enfim, chegamos, cumprimentos alegres, hospitalidade, uma cadeira num lugar que é quase entrando e quase saindo da casa, exatamente no meio do caminho. Como se fosse um hall sem querer. Não há sofá e sala de estar. Mas acolhimento e um pratão de comida não falta, por isso eles são firmeza. Tirei fotos do seus filhos que, pra variar ficam fascinados com uma câmera. Eu entendo eles. Até hoje eu acho controle remoto e coisas sem fio fantásticas. Não compreendo como a voz em um celular pode atravessar o país e chegar ao vivo em outro celular sem delay e resolvi parar de tentar entender de tecnologia porque suspeitava que era tudo bruxaria. O fax ninguém me engana… Enfim, tirei várias fotos das peraltices da molecada. Criança é igual em todo lugar. Eles eram divertidos e meio endiabrados. O vizinho-mirim era mais. Essa era o exu-maré. Mas muito engraçado. No dia seguinte, a gente numa conversa séria sobre o intercâmbio Brasil-Haiti, ele ficava atrás do Professor, me chamando e mostrando o dedo do meio pra mim, que tinha acabado de aprender com o André. A vontade de rir era enorme.
No fim de tarde que chegamos, o Professor estava meio desanimado, mesmo nos recebendo com aquela simpatia. Um primo dele havia falecido, ele iria no velório, até perguntou se queríamos ir. A princípio respondi de bate-pronto que não, imagina, não vou em velório nem no Brasil. A não ser que tenha pastel na faixa, aí eu vou. Mas depois lembrei que funeral no Haiti tem uma caminhada pela rua com o caixão e uma banda com metais no abre-alas. Uma banda com música meio fúnebre, mas não totalmente triste. É um som bonito de escutar. Daí até pensei em ir, mas o André me disse que era só o velório mesmo. Mas acho que o Professor acabou nem indo. Só foi passear com a gente pela cidadezinha dele.
Essa cidadezinha, por estar no topo da montanha, era diferente daquele padrão haitiano rodovia-barracos ao lado. Uma névoa sinistra delineava silhuetas de camponeses trabalhando. O maior acesso a água, o início da temporada de chuvas, proporcionava lavouras por metro quadrado. Todas pequenas, familiares. Tudo plantado ou preparando pra plantar. Estava  bonito. O Haiti é pequeno e populoso. É agrário. Não pode se falar efetivamente que houve uma reforma agrária haitiana, mas de fato, o que seria um latifúndio no Haiti a gente chamaria de campo de futebol no Brasil. A terra no topo é mais avermelhada. A lama predomina. A névoa não se desfaz. Visitamos a futura casa do Professor, uma casa de tiojolo, grande, em construção, mas sem peão na obra, sem perspectiva de terminar. Seguimos vendo camponeses trabalhando, o Professor cumprimentando a todos, parando pra conversar, sorrindo e acenando. Também fiz minha parte: cumprimentei crianças e velhinhos a todo sinal de 'blan!'. Chegamos numa vista interessante. Era tipo um precipício, alvez seja melhor chamar de uma beirada grande pra parecer menos dramático. A vista era daquele tipo de semi vale que tem aqui, já que é um país montanhoso. Abaixo coqueiros, acima uma névoa espessa. Vacas, cabras e burricos. Isso não mudou. Uma escola primária religiosa, uma caminhada, cumprimentos e voltamos. A névoa começa a se dissipar e é possível ver as montanhas do outro lado do semi vale. Estão peladas, num verde sem brilho, de uma vegetação desmatada. A névoa fazia um favor.
Na volta, visitamos uma futura cisterna gigante que captrá e tratará água para toda cidade, mas, novamente, não havia ninguém trabalhando lá, sem previsão de término. Paramos pra uma digníssima Prestige, num bar com um curioso sinal na entrada de "proibido entrar armado". Depois comemos, corajosamente na rua, mas a fome encoraja até frouxo, uma banana assada e um peixe frito. Eu já estava indo pro segundo quando o André me garantiu que haveria uma janta na casa do Professor, que ele tinha esse ótimo hábito para com suas visitas. Antes de chegarmos em casa, mais conhecidos, mais cumprimentos. O Professor cumprimenta dois amigos e para pra conversar. Eu me aproximo um pouco e cumprimento seus amigos com um discreto 'bon swa', boa tarde em creole. Os dois me respondem 'bon swa', inclusive o Professor, vira pra mim e diz, 'bon swa'. Eu ri até chegar em casa. Acho que é força do hábito responder 'bon swa' pra qualquer um, mesmo quando você já passou quase a tarde inteira com a pessoa. O André ria também. Chegando em casa, a ala feminina da casa havia cozinhado, arrumado a mesa e nos servido. Era aquele arroz com feijão preto, tudo junto, prato típico daqui, mais uma salada, um molho de peixe e banana cozida. Talvez tivesse fruta-pão também. Não lembro. Tirei o atraso do dia e já estava pronto pra dormir, quando o Professor puxou assunto e começou a falar. Perguntou das minhas atividades no Haiti, o que eu fazia, quanto tempo, perguntas corriqueiras. Depois falou da importância dos trabalhos de solidariedade no Haiti, do papel da Via com os campesinos, sugeriu mais agrônomos brasileiros para as próximas brigadas, comentou da relação do Brasil com futebol, de como poderia haver uma trabalho com os jovens haitiano. Não sei se o André havia comentado que eu jogava futebol, provavelmente umas duas ou três coisas que eu sei fazer direito, além de omelete, e não sei se foi uma cobrança do Professor, mas cheguei a pensar numa possibilidade de vir pra cá dar aula de futebol pros moleques. Mas depois passou, é melhor um professor de educação física mesmo. Uma coisa é saber tirar a marcação na saída de bola, marcar em zona ou individual. Outra coisa é gerenciar a atenção de vinte moleque em outra língua. Mas prometi ao Professor que passaria o recado dele quando chegasse ao Brasil. E de fato eu vou: mais agrônomos e professores de futebol, tá anotado.O depoimento do Prófe, já somos íntimos, foi ficando comovente quando ele disse que em vinte anos não haverá mais Haiti se as coisas continuarem como essão. Daí lembrei que estou conversando com um pai de 4 filhos adolescentes e crianças. É verdade, o Haiti ou racha ou racha nesse sistema de ausência de Estado, infra estrutura, todos querendo sair do país e o camponês miserável sem água, saneamento e assistência qualquer, não deve durar muito tempo numa economia baseada na chuva.  Fiquei com isso na cabeça. O Professor se retirou e a molecada se aproveitava. Mexia nas nossas coisas, pulava na cama, fazia umas estripulias e não deixava a gente dormir. Até a pachorra de, mesmo num lugar com energia elétrica racionada, o moleque tinha um treco com dois fios soltos pra tentar dar choque na gente. Eles aprontavam demais. Daí me perguntaram se eu queria o 'toalette' e o André já avisava que provavelmente seria aquela bacia no meio da sala. Com aquela criançada pulando na nossa frente não tive outra opção a não ser me resignar em minha imundice. Mas a praia, o banho e o fim do Cascão já estava perto. Amanhã era dia de praia, peixe e Prestige. Dormi feliz. Antes que eu me esqueça, o Haiti tem o céu estrelado mais incrível que eu já vi. Da linha do horizonte, até o outro lado, uma cúpula de estrelas, é fantástico. Talvez só as estrelas compitam com o número de pedras nesse país.



garupa, dia 2











O segundo dia de viagem começou cedo. Cedo pra mim é qualquer coisa que seja antes do café ficar pronto. Nesse caso não tinha café nenhum, mas a sensação era essa. As coisas no Haiti costumam ser cedo porque funcionam, segundo a regra de Copérnico, em torno do sol. Faz sentido se você vive num país sem eletricidade. Assim como a cerveja, o Haiti tem um café bom, feito pra exportação, mas eu ainda não provei. Provei um mais barato, litros aquém do meu saudoso Pilão. Mas pra quem passou os últimos dois meses e meio no México, tomando aquele café em copo de milk shake do Bob's, mais aguado que a regadeira lá de casa, então está ótimo. Eu sempre tomei muito cafézim paulistano, e muito chimarrão, dada minha ascendência gaudérica, então a necessidade de um estimulante é quase ontológica. Eu vivo uma malemolência crônica na ausência de cafeína, todo dia penso que é o primeiro sintoma da malária e já me sinto um Villas Boas. Enfim. Não tinha café pra tomar. O André me disse que havia dado um dinheiro para que umas das filhas do dono ou mulheres que trabalham no edifício kafkaniano sem reboco fizesse um café. Saímos a rua porque, como havia dito, pressa, prazo e outras vicissitudes desnecessárias paulistanas, não existe no vocabulário haitiano. Imagina minha fome matinal depois do meu jantar de bolachinha água e sal… O André precisava colocar créditos no celular e comprar uma bermuda, já que a idéia era no último dia chegar a uma praia caribenha, e seu calção de banho ficou na fatídica mochila. Se tem um serviço que funciona no Haiti é a compra de créditos pra celular. Depois da Mãe Natureza, que com seus ciclones produz açudes e rios e outras infra-estruturas pro povo haitiano, acredito que as empresas de celular são quem mais emprega nesse país. Tem muita gente na rua (eles ficam com um colete passeando) que colocam créditos na hora através do próprio celular. Se eu fosse assaltante -- eu tenho esse hábito, quando não tenho nada o que fazer, pensar no que eu poderia assaltar e qual rota de fuga utilizaria --  então, se eu fosse assaltante, eu assaltaria esses moleques, que sempre tem muito dinheiro na mão, de todas as recargas do dia. Mas ter muito dinheiro haitiano significa muita sujeira no bolso (uma hora eu vou colocar uma foto do goud, é muito sujo e amassado, parece que foi conservado enterrando na areia) e pouquíssimos dólares. Então não é um bom investimento. Colocamos crédito, buscamos um lugar que carregava o celular e ainda fomos atrás do seu calção. No breve caminho de dois quarteirões, encontramos mais filhos do dono do prédio, ou pessoas que eram simplesmente simpáticas comigo e eu achava que eram filhos do dono, e aquele que eu suspeitava que era meio doidinho. De manhã cedo, sob luz divina do sol, depois de meia dúzia de frases sem sentido ficou claro que ele era meio pancada. Compramos o calção do André depois de algumas pechinchadas por 125 gouds. Essas coisas se compram usadas na rua. Não tem loja. Se tem, só em Porto Príncipe em algum lugar mais 'nobre'. O André saiu contente com o preço, tinha baixado quase 50 gouds, até os moleques amigos disserem que esse é o preço para estrangeiro, haitiano pagaria no máximo 50 gouds. Sem dúvida eles dobram o preço pra quem tem passaporte de fora. Passamos por uma pracinha, daquelas com brinquedos infantis meio quebrados e largados, jovens desempregados jogando conversa fora, poças-berço de mosquito, estruturas baqueadas, não pelo terremoto, que não atingiu o país inteiro, mas pelo tempo e mau cuidado mesmo. Firme mesmo só a igreja que estava em reforma ou construção. As igrejas aqui são bem feitas, bem construídas. Tijolo, pedra, cimento. Pintura externa. Em geral, as maiores que vi por aqui são católicas. Mas tem protestante, batista e evangélicas também. O povo parece bem católico, mesmo seguindo seus deuses afro descendentes do Vodu, que se assemelha, pelo que dizem, ao nosso Candomblé. Semana que vem vou tentar dar um pulo lá, numa pomba gira haitiana, uma salviazinha pra espantar a zique zira e me descolar um emprego quando eu voltar ao Brasil. Achei que o café já estaria pronto. Afinal, eram quase 10h se não me engano. Não tenho relógio e nem celular por aqui. Mas assim como Robson Crusoé fazia, se o negão não sabe as horas olha pro sol. Acho que eram umas 10h mesmo. E o café estava pronto quando chegamos. Pra surpresa geral da nação, o café era um jarro d'água que fui obrigado a evitar novamente e nosso famoso prato haitiano: espaguetí. Mais um pratão delicioso, amo spaghetti, até cru, dessa vez com muito menos pimenta, arrebentei de comer. Meu sorriso de satisfação não cabia nem no capacete da moto. O sol estava bom, firme sem torrar e era um sinal de estrada mais seca, calça mais seca, viagem mais rápida. Não havia mais rios para serem atravessados na garupa. Só riozinhos barrentos que tinha pontes, pontes que não tinham rios, e rios de pedra ou que as plantas já tomaram conta. A paisagem seguiu a mesma metamorfose: cactos, pedras, semi árido, depois umidade, sombras, plantações, morros, subidas, descidas, bodes, burricos, motos, pessoas, principalmente mulheres, conduzindo burricos com cargas de plantações, crianças nuas, casas ao redor, paradas pro xixi, desertos, cidadezinhas, gritos de 'blan!', alguém me pede dinheiro, outros acenam e seguimos até a primeira parada. Buscávamos um dos coordenadores do Tet Kole naquela região, um sujeito bem interessante, com muito respaldo moral na comunidade, sete mulheres, nenhum endereço fixo e um celular que não pára de tocar. Mas ele não estava. Esperamos um o sol secar um pouco mais a estrada, e fomos falar com outro coordenador que estava em uma reunião. No caminho vejo uma igreja junto no meio de uma poça gigante e fiz uma foto. Dei o título infame de 'catolicismo por água abaixo'. Se deus existe e é misericordioso como o sujeito da tv diz, então ele podia me arranjar um emprego onde eu passe o dia dando títulos para as minhas próprias fotos. A chuva é boa para os camponeses porque tem região de seca que não tem acesso algum a água. Mas sempre dá uma castigada. Tem estradas que ficam absolutamente inviáveis. Não escoa a produção, as pessoas ficam semi isoladas em cidadezinhas, estilo micro cidadezinhas, com zero infra estrutura para qualquer emergência. 
Partimos mais para dentro do mato. As casas iam diminuindo a frequência, a falta de água faz cair a já alta densidade demográfica haitiana. Chegando perto de um projeto que construiu um 'reservatório' de sementes (seria isso um silo? a única coisa do meio rural que eu conheço é o Júlio do Cocoricó que passava na Cultura) topamos com um agricultor conhecido do André no caminho. O sujeito mora com a família numa casa humilde, casa de taipa, pau a pique, sei não, sei que ainda não tinha o barro pra consolidar a parede, tinha apenas uns panos. Estou sendo repetitivo, mas o sujeito era simpático. Fazer o quê, o haitiano é simpático, sorridente, transmite uma alegria honesta em te cumprimentar. Talvez eu seja ingênuo, mas eu gosto de ser assim. Ser ingênuo e acreditar nas pessoas é tipo ser religioso. Mas sem dogmas. O sujeito deveria ter quase sessenta anos, e era forte, tinha estrutura forte. Cheguei a conclusão que academia é pra desocupados. Se você quer ter o corpo malhadão vai trabalhar na roça. Bíceps, tríceps e outras proparoxítonas definidas aos sessenta… Fotos, respingos, despedimos e chegamos em cinco minutos no reservatório que estava fechado. É um projeto de uma ong estrangeira com um movimento social haitiano e a ajuda da Via Campesina. Alguma questão burocrática estava impedindo de funcionar melhor. Quando chegamos, um outro senhor camponês, dessa vez deveria ter uns setenta anos, eu sou bom com essa coisa de adivinhar idade, pode confiar, chegou pra conversar conosco. De boné, camisa listrada, bermuda meio rasgada e um tênis, estilo timberland, já surrado com furo no dedão. Ele chegou daquele jeito que eu gosto: sorrindo bastante, cumprimentando fortemente e com aquela alegria que dá vontade de abraçar aquele senhor e chamar ele pra tomar um café com bolo de fubá. O André já havia dito que ele era era muito gente fina. O tipo de pessoa que faz o sujeito acreditar no trabalho da Via Campesina no Haiti. Ele morava ao lado do reservatório, talvez uns vinte metros, numa casinha meio barraco, choça mesmo, mais precária que do outro camponês. Morava sozinho, se não me engano. Começou a falar da seca, do problema das sementes e fez um relato comovente sobre uma situação duríssima de não ter o que comer todo dia. Eu sei que isso também se passa no Brasil, não é nenhuma novidade, não fui criado na Suíça, mas mesmo assim te faz pensar. Um idoso, com uma disposição de esbanjar saúde, deveria estar curtindo uma aposentadoria em algum paga e pesque, ou seja lá qual seja o hobby do cara. Vender suas parcas cabritas pra não passar fome é de matar o bom dia. Mais fotos, abraços, caminho de volta, buzinadinha pro outro camponês da ida e seguimos para a casa de um outro camponês, mais no alto do morro, com uma vista linda. Ele já tinha mais condição e mais filhos. Contei uns quatro e acho que mais um, daqueles parentes que vem visitar e acabam ficando. Pra variar a molecada pirava na máquina fotográfica e faziam poses ótimas. Havia um moleque, tenho foto pra comprovar, com uma camiseta de futebol rosa, escrito YMCA. No meio de um passeio disse que minha mão era bonita porque era vermelha. Ixi… Minha mão é vermelha? Ser branquelão tem dessas, o sangue fica mais visível na superfície ou sei lá que explicação. Esse camponês, pra variar novamente, gentil e sorridente, nos ofereceu uma comida, pois a princípio dormiríamos lá. E pra variar eu estava com fome e pra variar eles são gentis. Dessa vez, por ser quase fim de tarde não era espaguetí, nossa cota de espaguetí diária já tinha ido. Era arroz com um feijão chamado guandu. Tem um caldo aguado, mas é interessante. E ter fome ajuda. Era uma casa simples, sala junto com a cama, parede de tijolo e almoço pra visita é sinal de boas condições sociais. Havia flores de plástico na mesa. Curiosamente algumas pétalas estavam murchas. Eu falo que o Haiti é surreal: ponte sem rio, rio sem ponte, flor de plástico murcha. Lembrei de um texto que li na faculdade, numa aula de sociologia, sobre uma pesquisa feita no Rio Grande do Sul, nos idos dos 80, sobre o comportamento das famílias camponesas que migravam para as cidades. Algo assim. A autora destacava que além de deixaram a televisão perto da porta de entrada, de modo que os vizinhos vissem que a pessoa tinham uma tv, flores de plástico era sinal de acesso a bens industrializados, sinal de renda. Era curioso já que quem vive no meio rural tem um conhecimento enorme sobre flores, plantas e todo o cuidado necessário que, para mim, se resume a molhar todo dia num vaso bonito. Outra curiosidade, é que nessa casa, na sala-quarto-de-jantar, havia pendurado no teto uma espécie de varal cheio de páginas de revista de celebridade. Grande parte brancos americanos. Achei interessante aquilo. No meio rural haitiano, numa casa simples camponesa, recortes de anúncios e celebridades pendurados em cima da mesa de jantar. Parecia aquela coisa de poster em quarto de adolescente. Talvez seja a menina, que tinha uns 12 anos, que tenha pendurado. Não quis perguntar. O André conseguiu telefonar pro sujeito difícil de achar, do Tet Kole, e se encontrássemos ainda hoje agilizaria nossa agenda de viagem. Partimos. Despedidas efusivas, abraços, uma vista incrível de um acidente geográfico que eu arriscaria chamar de vale. Ou semi vale, acho que está de bom tamanho. O Haiti é lindo, mesmo tão desmatado. Já disse que a energia motriz do país é o carvão? Então eles desmatam tudo pra fazer carvão e vender. Dá dinheiro pro camponês pobre. Dá uma erosão danada também. Isso se reflete nas áreas desérticas pelo caminho. Ignição na motinho, incríveis 40 km por hora e chegamos na base do Tet Kole atrás do Lulinha. Ele parece um pouco Lula. Meio baixo, meio rouco, barba e liderança social. Mas dez dedos. Vou chamar ele de Lulinha pra facilitar. Na base nos disseram que ele estava na 'casa' do lado. Casa com umas dezesseis aspas. Porque, não entendi bem, eles conseguiram uma terra e fizeram uma casa. Mas daquela muito encantada, não tinha teto, não tinha nada. Teto tinha, mas só teto. Não tinha parede, nem cadeira, nem nada. Na verdade não é uma casa, é um teto só, e umas pedras pra sentar. Aí eles seu reunem al e sentam na pedra. Nesse dia, eu escutei um sujeito falando alto, grosso, baita discurso. Aliás, os haitianos falam alto, gesticulam, gritam, parecem sempre que está rolando uma briga, um escândalo, mas o jeito deles mesmo de discutir, não chega nas vias de fato. Só se você for branco e atropelar uma galinha deles. E dá-lhe discussão, vozerão, deve ser treta, vamos dar uma olhada, pessoas reunidas e o Lulinha sentado entre dois adolescentes, com cerca de 15 pessoas em pé, algumas sentados no chão ao seu redor. O figura de boné, e um toalha no pescoço, porque estava com algum tipo de doença. Talvez seja por isso que estava um pouco rouco. Ofereceu um peixe frito com banana frita ou assada. Não sei se foi por educação, pois fizeram pra ele, ele comia também, mas eu e o André rapelamos o prato sem dó. Andar de moto dá fome. Peixe frito é bom demais. Bom, seguiu a discussão, o sujeito grande terminou e ficou no canto. Chega uma mulher mais velha, camponesa com dons de atriz. Caras e bocas, um drama, uma interpretação, demais, melhor que novela das seis. Num país onde boa parte dos camponeses são analfabetos,  a retórica ganha muitos pontos. E a mulher fala quase uma hora. Já estou tirando foto de bananeira, pensando na vida, esperando acabar aquilo e o André me pergunta se eu estou entendo o caso. Depois do bom dia, como vai você, eu não entendo nada em creole, só aquelas palavras de som afrancesado. Ele me explica que os adolescentes sentados, de 17 o menino e 15 a menina, há dois anos, tiveram um affair sexual. Sem gravidez. Mas pegou mal pra família da menina. Não sei se rola uma parada virgindade aqui antes do casamento, ou segundo o André é falta do que fazer do povo. O pai entrou na justiça contra o moleque, e deu até briga de facão entre as famílias. Dois anos de treta por uma transada indevida. A não ser que tenha detalhes quentes, que a gente não soube, tipo uma transada no meio da plantação prejudicando a colheita. Mas eles estavam brigando por isso. Os dois adolescentes com uma cara de bunda. O Lulinha escutando tudo e atendendo o celular a cada dez minutos. Eu comecei a me divertir vendo a cara de indignação da mãe da menina. Eu não sei qual era a acusação formal contra o moleque. Estar na puberdade? Sei que a discussão foi longa. Segundo o André, essa província tem a maior base social do Tet Kole, e o Lulinha, um dos fundadores há mais de vinte anos, por toda sua trajetória de vida tem uma moral na comunidade de juiz! Então era esse o papel dele ali. Determinar um veredicto para um problema que se arrastava por dois anos. O moleque de 15 chegou na maldade em mútuo acordo na de 13.
Era engraçado que um dirigente social estivesse resolvendo um caso desse. Mas assim que funciona o Haiti. Sem Estado, regra, lei. Na raça. O sol se pondo, sem luz na casa que é puro teto e quintal, a conversa deveria  terminar. Até usou a gente de justificativa, como brasileiros, que vieram de longe, trabalho com camponeses, mochilas perdidas, e eles mereciam sua atenção também. Ser brasileiro no Haiti é demais. Muda o tratamento na hora. Fala que é brasileiro que você ganha um 'ohhh…' e um sorriso grátis. Valeu Brasil, você me deu uma escola pública capenga, uma saúde pública improvável, um custo de vida injustamente alto mas uma certidão de nascimento que abre portas. Pelo menos o México e no Haiti.
A resolução do Lulinha foi genial: perguntou se os jovens ainda queriam se ver e namorar, eles disseram que não, então as famílias só deveriam evitar que eles se vissem. Pronto. Tchau. Foi isso que eu entendi. Já estávamos num breu total, o André conversou algumas coisas, e ficamos de nos encontrar no dia seguinte de manhã. O Lulinha não estava muito bem mesmo. Então, na base, o sujeito que morava lá, não estava mais. Deu um perdido. A gente iria dormir lá. Cadê o cara? Sumiu. Como não tem poste na rua, nem lampião, nem nada, só a luz das motocas e mototaxis na estrada, o Haiti vira um breu total-total. Numa cidadezinha no meio do nada, não tem hotel, essas coisas. O cara some e aquele peixinho frito nem deu pra enganar a fome. E agora, José? Agora a simpatia haitiana dá um jeito. Um outro camponês do movimento, sem nunca ter nos conhecido, oferece sua casa e literalmente sua cama. Sem ele claro. Eu não sei se é o calor, os mosquitos, a saudade ou esse meu coração peludo que não tem dó de não dar um centavo de esmola pra todas as criancinhas que me pedem na rua, mas que às vezes resbala numa molenguice e eu fico assim, meio conhaque do Drummond, que bota a gente como o diabo…  Eu não estava preocupado. Sabia que tudo se dá um jeito nesse país. E o Haiti, repito, não é perigoso, mas nem na metade do que é São Paulo ou a Cidade do México. Não é o mesmo tipo de violência, não é o mesmo tipo de marginalização. É outra coisa, outro estágio que vive o Haiti. Mesmo assim, o gesto do camponês, com todas as dificuldades que eles passam, de levar dois estranhos 'amigos' do movimento deles, pra dentro de casa, dormir na sua cama, dar água e comida, pra mim é fantástico. Achei o gesto nobre nível celestial. Que povo gente fina. Ele não tem um apartamento com um sofá para a visita, e um íma de geladeira de uma pizzaria boa. Ele tem uma casa, boa pros padrões haitianos, até brasileiros eu diria, mas sem luz, água, saindo do período de seca do país. Com dois estrangeiros, onde só um fala o creole, prestes a dormir em sua cama e comer a sua comida. E a gente naquele esquema básico: sujo, faminto, cansado. Já são sei lá que horas da noite. Estamos em seu quarto quase sala. O Haiti tem uma cultura bem machista ainda. As mulheres sempre ficam em segundo plano. Comem depois, aparecem depois, falam depois, carregam tudo na cabeça. Então, naquele escurão de meu deus, só vi uns vultos de mulher na casa, um sorriso, um cumprimento. Alguém traz alguma cadeira. Estamos sentados e começamos aquela conversa de elevador, bem sem graça. Eu vim do Brasil, ah que legal. Escuridão, uma lanterninha dele e a minha lanterninha fera que comprei no camelô mexicano. Conversa mole, sorriso amarelo. Quebra o gelo, mas não quebra totalmente. Não tem muito assunto, meu intérprete tá cansado, eu também já estava cochilando sentado, o cara até sugeriu pra eu dormir, despertei sem graça, imagina, não precisa, já acordei de novo. É meio chato dormir na frente de uma pessoa educada que está te recebendo em casa. Muita falta de educação. Aparece mais um cara no quarto semi-escuro. Agora são dois haitianos sentados na cama, eu e o André nas cadeiras. Alguém pergunta se queremos fazer o 'toalette'. Que é basicamente se banhar. É normal tomar banho de caneca aqui. Eu curto, porque posso demorar muito sem necessariamente estar desperdiçando água. O André fala que toma banho sim. Chega uma bacia grande e uma baldão de água. No meio do quarto? Sim. Os dois haitianos seguem sentados na cama e eu na cadeira. É isso mesmo? A porta pro outro quarto-quase-cozinha é estreita com um pano fechando. Às vezes surge uma criança espiando curiosa os 'blans' (mesmo o André ser mistura de índio, negro e branco, com uma pele escura, as pessoas o chamam de 'blan', que significa estrangeiro também). Eu falei pro André, ô fera, não vai ficar pelado na frente das crianças. Claro que não, só na frente dos adultos. Eu sei que o Haiti tem uma relação mais branda com a nudez. Eles tomam banhos nos canais ao lado da rodovia. Mulher pagando peitinho é normal. Top less liberado e respeitado. Mas tomar banho na frente de dois estranhos recém-conhecidos, numa bacia, foi demais. Em geral, os banhos de caneca que eu tomei foram em banheiros mais ou menos desativados, já que banheiro sem água não costuma fazer muito sentido. Nunca tomei na sala-quarto-de-estar de alguém. Nem sabia que podia. Com uma naturalidade invejável, no meio daquela conversa jogada fora, meu parceiro de viagem fica peladão, na frente dos caras. De cócoras, lavando suas partes íntimas. Eu tentei explicar que se chama íntima, e fica protegido por uma cueca, porque é exatamente pra não expôr desagradavelmente por aí. Ainda bem que foi antes do jantar. Pra surpresa geral da nação -- nação, no caso, eu -- os caras se mantiveram lá, sentados na cama, tranquilos, com aquela conversa mole e, o dono da casa, ainda por cima, ajudava com uma caneca a encher a bacia com o André dentro, mandando ver na lavagem do bigolim. Depois deu ficar abismado, tipo criancinha haitiana quando me vê, ao presenciar a higiene pessoal compartilhada, eu comecei a rir muito por dentro daquela cena bizarra. Uma lanterninha meia boca, um cara numa bacia molhando a bunda na frente de dois haitianos, super tranquilos, como a cena mais natural do mundo. Pra que se banhar num lugar reservado se você pode ir trocando uma idéia em creole, sobre o tempo, a viagem de moto ou sei lá o quê. Eu baixava a cabeça pra rir discretamente. Ri mais do que a cena da travessia do rio de conchinha. Não faço questão de guardar a cena do André pelado na minha frente lavando a bunda numa bacia, mas a cena em geral, com a complacência haitiana como dois gentlemans, eu nunca vou esquecer. O cara ainda ajudou com a canequinha d'água, numa proximidade desnecessário do pinto alheio. Eu ri muito. Que povo legal, cara… Eles não estão nem aí pro pinto dos outros, ajudam mesmo. Eu me mantive porco, sujo e cristão, pois sabia que no dia seguinte haveria água lá na nossa base. Já estava psicologicamente preparado pro desafio 48 horas sem banho. E dá-lhe álcool em gel. De repente chega a janta. Outro arroz com feijão. Um pratão generosíssimo. Só de lembrar já me deu fome. Um feijão diferente e ainda havia um molho de um peixe, que só soube que tinha peixe depois, na semi escuridão não enxerguei, só vi uma batata, algo assim, e estava ótimo mesmo. Adoro jantar. Eles ainda nos trouxeram dois sucos de garrafinha. Eles são muito gentis. Suco industrializado pro mendigão brasileiro. Achei de bom tom não abusar e só tomamos um. Banana com laranja e abacaxi. É comum este suco por aqui, mas só industrializado. É bom. Rindo com a cena bizarra da bacia. "Então eu vou tomar um banho", "Legal, pode tomar, eu vou ficar sentado te ajudando". Debaixo da cama havia um balde pra aquele xixi indisciplinado da madrugada, mas não foi necessário, dormi que nem uma pedra. Sujo e satisfeito.