sexta-feira, 11 de maio de 2012

orfanato: uma voadora bruceleana no peito











em meus últimos dias no Haiti me esforcei pra tirar mais fotos do maché, provavelmente a manifestação econômica-social mais dinâmica deste país. o Haiti é uma espécie de peruca do século XIX com um topete do século XXI. ainda reside um machismo significativo por essas bandas. homem não lava nem cozinha. difícil ver uma mulher dirigindo um carro ou moto. só as mais moderninhas de Porto Príncipe. por isso os maché são interessantes. ali são as mulheres as protagonistas da cena. elas que vendem, negociam e carregam toda aquela mercadoria, literalmente, na cabeça. mas aposto que você já desconfia como é ser um branco-branquelo com uma câmera na mão, dessas de turistas descolados, andando num maché. rola um impacto de certa forma hostil. não tiro fotos sem pedir. das poucas palavras que sei falar em creole, além de cerveja, água e brioche (ninguém é de ferro) é: 'sou brasileiro, posso tirar uma foto?'. mas algumas mulheres diziam que eu ganharia dinheiro com isso no Brasil e etc., e já não rola mais clima. em um desses machés, fui com um amigo haitiano pra dar um ajuda. mas não adiantou muito. tem haitianos que vendem remédio em um carrinho de yakut. tem parecetamol e o escambau. farmácia mobil. nosso amigo brasileiro que acabava de chegar, o João, que é médico, ficou um tempo ali vendo, conversando. tentei fazer uma foto e não rolou. ele não deixou. acho que suspeita que eu seja do ministério da vigilância inexistente. só consegui uma foto do dono do carrinho sem os remédios. seguindo pelo maché era claro a cara de desagrado das mulheres com a minha presença. raramente, quando me recebiam bem, aproveitava pra solicitar uma foto que eram aceitas. depois seguimos até uma vizinha amiga do nosso haitiano, e um monte de crianças me cercaram e fizemos muitas fotos. e elas são muito divertidas. não que eu entenda de fotogenia, mas me parece que o povo haitiano é bem fotogênico. as crianças então…
no outro dia o Niltinho precisava ir num orfanato vizinho ao nosso aloja, instalar uma cisterna pra captar água da chuva. o Haiti não tem indústria, nem muito carro, nem muita quiemada. então a chuva é bem límpida segundo meus persuasivos critérios de limpidão. boa de tomar, beber, se lavar e molhar em geral. daí eu fui. nunca tinha ido a um orfanato antes. é bonito e terrível pro coração mole, daqueles do conhaque do Drummond que bota a gente comovido como o diabo...
havia um buraco resplandecente pra instalar a cisterna mas algum detalhe nas bordas atrapalhavam o processo. enquanto o Niltinho resolvia o troço eu e o meu amigo médico fomos convidados a entrar. na verdade mesmo, só o doutor foi convidado, porque uma das meninas estava com uma febre há dias e não melhorava muito. daí eu fui junto por via das dúvidas e até dei uns pitacos. coitadinha, uma menina de uns 9 anos, bem bonitinha, deitada com uma cara triste… exame, atendimento, todas essas coisas no Haiti são bem difíceis. até saber se foi uma intoxicação, virose, resfriado ou sei lá o que dá febre, talvez tifóide… enfim, fui adentrando e conhecendo as crianças. crianças de orfanato são diferentes das outras crianças que vemos nas ruas. haitianas ou brasileiras. elas têm um olhar, um pouco mais velho, um pouco mais triste… é uma coisa arrebatadora… eles têm um algo a mais. de uma esperança que insiste, de uma carência crônica. elas brincam como qualquer um. mas quando estão sentadas, estão esperando um algo a mais. um pai, uma mãe, um gesto, um carinho… a responsável pelo orfanato é uma freira do Rio, figuraça… tem brasileiro em tudo que é canto desse mundo. ela tinha um medidor de pressão eletrônico e um celular descolado. era ela descolada mesmo. fiz algumas fotos e tentei alegrar a criança que estava doente. me senti um idiota fazendo caretas e gesticulações que talvez uma criança criada assistindo os filmes da sessão da tarde poderia rir, mas ela, impávida, mantinha sua carinha de esvaziada e triste. que idiota eu me senti.  antes de sair do seu quarto disse em creole que ela ficaria bem e dei um beijo. quase saiu um sorrizinho. bem tímido. eu acho que eu assusto as crianças. pernilongo que é bem, não assusto nenhum. fui ajudar a freira com os medicamentos que o dono do orfanato trouxe dos EUA e ela não sabia traduzir o nome dos princípios ativos. apliquei aquele meu inglês Google Translate e ajudei a especificar umas vitaminas e outros remédios pra tosse. eu fui apresentado como publicitário, depois como fotógrafo e, depois, ao telefone, a freira disse que estava com um cineasta. aí eu vou pra galera. ela disse que eu e o médico caímos do céu. tinha um remédio que eu fiz uma tradução próxima, estilo empate técnico. era um achismo bilíngue. depois pensei que fiz isso num orfanato e acho que deveria me sentir culpado. pra mim, aquilo queria dizer que era feito de plantas. daquelas de folhas escuras. acho que era isso. minha tradução deve ter acertado uns 80%. suficiente pra passar naquelas provas do Itamaraty. aí eu fui brincar com  a molecada que tava mais alegre, pulando de um lado pro outro. o orfanato era pequeno, tinha talvez umas dez crianças. mas dez crianças, meu amigo, valem por muita confusão. minhas imitações já fazem mais sucesso. comecei fingindo que comia uma manga com casca e ela entalava na minha barriga. finjo ser piloto, dirijo um carrinho de brinquedo, corri atrás de uns quantos, e agora minhas caretas faziam até a mulher que trabalhava ali dar risada.
aí veio o abraço.
não sei se fui eu ou se foi o molequinho que eu tinha simpatizado mais, mas alguém começou uma abraço. daí veio o tsunami de amor. a freira já havia me dito que, dada a carência das crianças (algumas tem a mãe viva, mas que não pode criá-las) quando ela dá remédio pra uma que está doente, as outras, que estão boas, também querem remédio. sugeri uma aguinha colorida com açúcar fingindo medicina e a freira adorou a dica.  bom, então começo a abraçar um deles, quase coloco no colo se, de repente, todas, absolutamente, todas as crianças começam a me escalar e me abraçar e me agarrar e todos querem subir em mim e minha bermuda está caindo, pelo amor de Deus, não posso ficar de cueca num orfanato.  peço pra alguém pra segurar minha câmera, pra alguma coisa sair ilesa daquela avalanche de paixão. eu estou até comovido mas meio preocupado em alguém cair e se machucar e não me deixarem sair pra sempre. 
a freira intervém e consigo sair. ainda me despido de mais alguns, da freira com ênfase, passo o telefone do médico, prometo que ele vai atender quando ela precisar. não consigo tirar da cabeça o olhar de uma delas. ele tinha algum cisco ou problema em um dos olhos e sorria com um olho abeto e outro fechado, com um ar maroto. mas ele não estava sendo maroto. ele tinha dificuldades na vista. nos dentes. no crescimento. a freire havia me dito que um guri que aparentava uns 5 anos já tinha quase 9. o médico diz que estão subnutridas. não é aquela subnutrição das fotos apelativas africanas, das costelas salientes de crianças famintas. é outro tipo. a criança não cresce muito, fica baixa, não sorri tanto, não tem aquela energia. não consigo mais esquecer aquele olhar. onde tem acesso a água tem lavoura produzindo alimentos no Haiti. essa criança não tem o que comer enquanto a loja do posto de gasolina tem Pringles, Heinekken, Corn Flakes e o escambau. crianças esquecidas. com seus ciscos, febres e problemas nos dentes. com seu carrinho de placa de ferro carregando pedras. com o que sobou de sua energia, a espera do abraço do pai, da mãe, da freira ou do branquelo estranho com uma câmera na mão.
impotente.

Um comentário: