sexta-feira, 11 de maio de 2012

Como sair do Haiti







último dia no Haiti. são três horas de viagem até Porto Príncipe, saímos bem cedo. faço minhas últimas fotos da estrada, vejo aquele ônibus escolar, o 'diabo', despencado em uma ponte. passo por uma cidadezinha e uma fila de estudantes uniformizados marcham pela rua. o Niltinho diz que é um velório mas eu não vi nenhum caixão, além de estudantes sorrindo. aquela bagunça haitiana vai deixar saudade. eu podia passar horas sendo piegas e falando do povo, das crianças, da esperança e da realidade aguda e triste. mas ficaria muito melodramático. o importante é que chegando em Porto Príncipe tem uma viatura da polícia parando uns carros. pára o nosso e pede identificação. são dois policiais. de um lado conversa com o motorista. o outro vem ao meu lado e pede pra ver minha mochila. o policial que conversa com o Niltinho começa a encrencar com a origem do carro. é de uma ong que apóia o trabalho da Via Campesina. o cara quer falar com algum responsável pela ong. o Niltinho começa a fazer ligações enquanto outro policial me pergunta da onde eu sou. Brasil? começou. então ele fala do futebol, das mulheres e, pra delírio geral da nação, ele saca um celular e coloca a música do Michel Teló e pergunta se eu conheço. demais. ele era jovem. quis frisar que falava quatro línguas, incluindo aquele espanhol que permitiu um pouco de diálogo. me perguntava o que achava do Haiti, das mulheres haitianas, como se fosse um amigo do bar. o Niltinho não conseguia contactar ninguém aquela hora e o outro policial viu que o clima era de amizade. por via das dúvidas me pede uma caneta pra anotar alguns procedimentos. o policial não tem caneta então? lá vou eu emprestar minha caneta de nanquim, 0.8, Staedtler, para fazer arte final de desenhos que nunca fiz. mas eu gostava dela. o policial anota alguma coisa e pergunta se pode ficar com a caneta. eu faço uma cara de pamonha, ao som de trompetes de desenho animado, e digo que sim. vale ressaltar que eu nunca levo caneto comigo em viagens. e sempre tem que preencher aqueles papéis na aduana, imigração. e eu sempre demoro mais porque tenho que pedir uma caneta a alguém. finalmente quando me lembro de deixar apenas uma caneta na minha mochila, o policial resolve se presentear. está ok. minha irmã uma vez perdeu minha caneta 0.5 e resolveu me dar outra 0.8. eu tinha duas iguais. acho que não vai fazer muita falta. seguimos em direção ao centro de Porto Príncipe com a idéia de comprar meu tambor. antes de vir ao Haiti, há quase dois anos eu já havia perguntado sobre os tambores. e são tão baratos. chegamos numa praça central, conhecida por ter coisas pra turistas. na verdade turistas são os estrangeiros que estão trabalhando em ongs, não exatamente fazendo turismo. perguntamos por um tambor mas era menor do que eu queria e mais caro. sempre dá pra negociar, mas conhecia um outro lugar que vendia por um  preço bom. foi só pesquisa de mercado ali. de repente uma senhora, de mais de 60 anos vem pedir dinheiro pra gente. 65 no mínimo. a gente tentou dispensar de forma habitual, dizendo que não temos, mas a velhinha, que doida, saiu correndo atrás da gente. correndo naquele passo apressado de quem vai perder o ônibus. e a gente seguiu andando em frente, sentido viatura pra sair dali. e a velhinha vindo atrás. é ridículo correr de uma velhinha. então só apertamos o passo. entramos rapidamente no carro e a velhinha nos alcança batendo no vidro da porta pedindo dinheiro. até chamar a gente mão de vaca em creole e partirmos. que situação, minha senhora...
não tinha muito tempo na cidade, tinha que comprar minhas coisas, comer e ir ao aeroporto. encontramos os tambores bons e baratos, faço uma pechincha de leve e pronto, fizemos um bom negócio. não gosto muito de pechinchar no Haiti porque eles estão numa situação bem crítica. aquele dinheiro tem um valor que eu não posso dimensionar. então foi só uma pechinchinha de leve. modéstia a parte meu tambor é lindo, tem um tratamento na madeira, uns desenhos, demais. então aproveitamos pra lanchar alguma coisa e visitar o, provavelmente, único museu da cidade. é um museu de história do Haiti. na porta, ambulantes vendem pinturas naiff e dizem que estão passando fome. mas eles não tem cara de que estão passando fome e eu passei o último mês no interior do Haiti, vi gente em situação mais arriscada. dispenso e entro. o museu é simples mas é de coração. tem um resumo da história haitiana desde a chegada dos espanhóis. tem uma âncora da Nina ou da Pinta. vestígios indígenas que me interessaram muito, tentando fazer alguma conexão com os indígenas do sul do México, mas meus simplório conceito antropológico não conseguiu fazer nenhuma relação clara. o museu tem um guia com um espanhol igual o inglês de piloto de avião. acho que peguei uns 40% do que ele dizia. mas foi produtivo. ainda tinha uma galeria de pintura contemporânea haitiana que, tirando um ou dois quadros, são basicamente as pinturas que se vê vendendo do lado de fora. faço mais algumas fotos, compro um café haitiano de uma cooperativa pra dar de presente e partimos ao aeroporto. eu tinha uma sensação que tinha mais dinheiro na mão. mas como havia comprado algumas coisas a mais no dia anterior, achei que havia gastado. chegamos ao aeroporto em tempo.
antes de descer do carro já tem dois funcionários do aeroporto tentando abrir a porta pra pegar as malas. eu digo que não e eles dizem que sim, eu olho pro Niltinho e ele faz uma cara de não sei também. eu digo que não precisa e já tem um pegando a minha mala e partindo, eu quase não consigo me despedir e preciso correr atrás do cara e falar pra ele esperar. o outro já está tocando o meu tambor. vai saber... eles me mostram a identificação de funcionário do aeroporto e acho que tudo bem então. abraço de despedida e sigo. pra entrar no aeroporto tem que ter identificação pros haitianos e passaporte para os estrangeiros. se não vira uma bagunça ali dentro. na entrada já tem uma sala com o detector de raio x. o sujeito joga meu tambor em cima da esteira como se fosse um pedaço de coxão mole no açougue do Zé. enquanto eu tento ajeitar as coisas, o cara maior segue me dizendo, tá tudo bem, tá tudo bem.
passo pelo detector e antes de poder pensar qual a companhia, horário, qualquer coisa, os dois já me colocam numa fila, até furam a fila e estou como um passageiro especial. eu tinha muito tempo, não precisava daquilo. aí começa o negro-drama.
o sujeito maior me pede dinheiro. eu tinha 20 gouds, que valem meia cerveja. o problema que aquele dinheiro que eu achava que tinha mas havia sumido, estava no meio do meu passaporte. quando eu saquei pra entrar, apareceu a vista de todos uma nota de 500 gouds. é muito dinheiro pro cara ter carregado sem eu pedir, numa distância de 20 metros minha mala. daí combinei em 100 gouds. 50 pra cada. tá ok. só preciso fazer o check in, troco o dinheiro e te pago. o cara me dizia, você sabe como as coisas funcionam, tem que pagar um dinheiro. tá bom. qual a chance de querer encrenca com um cara daquele tamanho a duas horas de sair do país sem falar a língua dele. antes de fazer o check in um sujeito do aeroporto pegou a minha reserva e meu passaporte. e disse que havia algum problema e sumiu. de repente ele já tinha sumido demais. nada de voltar. eu pensando se havia levado um golpe do passaporte, algum truque que deve ter passado no Fantástico e como eu não assisto televisão, caí como um idiota. o sujeito sumiu com meu passaporte e tem um haitiano de 2 metros me cobrando dinheiro ao meu lado. acho que as coisas não estavam saindo como eu pensava... comecei a ficar preocupado. então o funcionário aparece com meu passaporte e me diz que eu preciso da minha passagem de regresso do México a São Paulo. mas hein? ainda bem que ele falava um espanhol bom, mas aquilo não tinha sentido. estava indo para Cuba, via Panamá e de lá regressava ao México pra depois regressar ao Brasil. eu não tinha a passagem México-Brasil no meu bolso e nem sei porque deveria. meu visto de entrada no México ainda era válido. daí chama o gerente, que está atendendo outros passageiros de outra companhia e tento explicar que aquilo não fazia sentido, e o cara de 2 metros me cobrando dinheiro e eu precisando olhar minha mala e meu tambor enquanto buscava alguém sensato naquele lugar, ou uma internet em vão para buscar meu código de reserva da minha volta e enfim... já estava perdendo os cabelos, pensando que perderia meu vôo e ficaria pra sempre no Haiti, e pagaria multas incríveis, e eu não tinha telefone, e o número do pessoal da brigada estava no meu email e acho que a vaca foi pro brejo.
os dois agiotas bagagem acompanhavam minha via crucis, estou quase meia hora tentando falar com outro gerente, converso com passageiros, faço uma prece, e converso com outra mulher do balcão. a essa altura já não tem fila, não tem mais nada. chega no balcão e capricha no espanhol. a mulher olha a passagem, o visto pra Cuba, o visto pro México. e tudo bem. fez uma cara do tipo 'não entendi o problema, está tudo ok'. eu quero dar um beijo de língua nessa senhora e abraçar mais forte até estrangular de amor. pode despachar as malas. eu queria levar o tambor em cima, mas a mulher não deixou. despachei com o coração apertado. sem plástico nem proteção me despeço do tambor. regresso aos agiotas e tento negociar aquele valor. no aeroporto não havia, antes da sala do embarque, qualquer coisa pra comprar e trocar o dinheiro. e sair do aeroporto aquela altura do campeonato também não ajudava.
começo a negociação. quero pagar 100. ele quer 500. eu insisto que combinamos 100. e falo que no Brasil a gente tem palavra! ele faz uma cara feia que eu me segurei pra não me mijar de pavor e segui no 100. o amigo dele abre a carteira e quer me dar um troco de 250. começamos a melhorar o preço. sigo no 100. um outro haitiano que trabalhava ali com eles também está acompanhando a negociação e acha que fui desrespeitoso insistindo no 100. eles que são legais. o maior ficou puto e falou que não precisava mais pagar nada. mandou eu sair dali. eu saí correndo. eles já haviam esperado uns 40 minutos só na confusão do passaporte, visto, passagem. fiz uma cara de sei lá o quê e segui pro embarque com a sensação que ele ainda ia me pegar lá dentro. entrei olhando pra trás. o que farei com 500 gouds haitiano em Cuba ou em qualquer lugar do mundo? tentei trocar com o policial que confere passaportes mas não rolou. de repente, tem um 'lojinha', que na verdade é um carrinho com lembrancinhas do Haiti, no mínimo, por um valor que é  o dobro da rua. sendo que na rua ainda dá pra ter um desconto de 30%. enfim, deixo de pagar o serviço que não pedi e compro mais uma lembrancinha que a Dona Maria vai adorar.
na sala de embarque não tem um tv com os números dos vôos. não tem nenhuma informação oficial. só uma pessoa do aeroporto que grita alguma coisa e todos se aglomeram em volta. eu, por via das dúvidas, levantei em vão umas duas vezes.
meu vôo já está uma hora atrasado e escuto alguém falar o nome da minha companhia. chego numa espécie de fila que dá para a pista. o saguão está cheio de gente. de repente o outro funcionário grita o nome da outra companhia e vejo mais cem pessoas, incluindo os velhinhos, correndo e se aglomerando na entrada. aí é aquela feira. igual porta de estádio. consigo desviar e entro em outra fila mas adiante. haitianos são revistados e um deles discute com o policial que era mais gigante que o cara que queria meu dinheiro. o policial dá um chega-pra-lá no sujeito, que era magro, que no mínimo descolou algum troço no corpo dele. bem gratuito. mas essa violência foi pontual, não faz jus ao Haiti. eles gritam muito mas não são de porrada. nem olham minha mochila. desço para pista e no Haiti os passageiros vão caminhando até o avião. minha última foto de lembrança. tifóide, cólera, HIV, malária, violência, caos ou qualquer outro problema que seja gravado pelos meios de comunicação vale a pena por cada pessoa que você encontra e sorri e te convida pra comer em sua casa com a naturalidade de um vizinho. eu ainda não sei falar creole e passei um mês inesquecível.

orfanato: uma voadora bruceleana no peito











em meus últimos dias no Haiti me esforcei pra tirar mais fotos do maché, provavelmente a manifestação econômica-social mais dinâmica deste país. o Haiti é uma espécie de peruca do século XIX com um topete do século XXI. ainda reside um machismo significativo por essas bandas. homem não lava nem cozinha. difícil ver uma mulher dirigindo um carro ou moto. só as mais moderninhas de Porto Príncipe. por isso os maché são interessantes. ali são as mulheres as protagonistas da cena. elas que vendem, negociam e carregam toda aquela mercadoria, literalmente, na cabeça. mas aposto que você já desconfia como é ser um branco-branquelo com uma câmera na mão, dessas de turistas descolados, andando num maché. rola um impacto de certa forma hostil. não tiro fotos sem pedir. das poucas palavras que sei falar em creole, além de cerveja, água e brioche (ninguém é de ferro) é: 'sou brasileiro, posso tirar uma foto?'. mas algumas mulheres diziam que eu ganharia dinheiro com isso no Brasil e etc., e já não rola mais clima. em um desses machés, fui com um amigo haitiano pra dar um ajuda. mas não adiantou muito. tem haitianos que vendem remédio em um carrinho de yakut. tem parecetamol e o escambau. farmácia mobil. nosso amigo brasileiro que acabava de chegar, o João, que é médico, ficou um tempo ali vendo, conversando. tentei fazer uma foto e não rolou. ele não deixou. acho que suspeita que eu seja do ministério da vigilância inexistente. só consegui uma foto do dono do carrinho sem os remédios. seguindo pelo maché era claro a cara de desagrado das mulheres com a minha presença. raramente, quando me recebiam bem, aproveitava pra solicitar uma foto que eram aceitas. depois seguimos até uma vizinha amiga do nosso haitiano, e um monte de crianças me cercaram e fizemos muitas fotos. e elas são muito divertidas. não que eu entenda de fotogenia, mas me parece que o povo haitiano é bem fotogênico. as crianças então…
no outro dia o Niltinho precisava ir num orfanato vizinho ao nosso aloja, instalar uma cisterna pra captar água da chuva. o Haiti não tem indústria, nem muito carro, nem muita quiemada. então a chuva é bem límpida segundo meus persuasivos critérios de limpidão. boa de tomar, beber, se lavar e molhar em geral. daí eu fui. nunca tinha ido a um orfanato antes. é bonito e terrível pro coração mole, daqueles do conhaque do Drummond que bota a gente comovido como o diabo...
havia um buraco resplandecente pra instalar a cisterna mas algum detalhe nas bordas atrapalhavam o processo. enquanto o Niltinho resolvia o troço eu e o meu amigo médico fomos convidados a entrar. na verdade mesmo, só o doutor foi convidado, porque uma das meninas estava com uma febre há dias e não melhorava muito. daí eu fui junto por via das dúvidas e até dei uns pitacos. coitadinha, uma menina de uns 9 anos, bem bonitinha, deitada com uma cara triste… exame, atendimento, todas essas coisas no Haiti são bem difíceis. até saber se foi uma intoxicação, virose, resfriado ou sei lá o que dá febre, talvez tifóide… enfim, fui adentrando e conhecendo as crianças. crianças de orfanato são diferentes das outras crianças que vemos nas ruas. haitianas ou brasileiras. elas têm um olhar, um pouco mais velho, um pouco mais triste… é uma coisa arrebatadora… eles têm um algo a mais. de uma esperança que insiste, de uma carência crônica. elas brincam como qualquer um. mas quando estão sentadas, estão esperando um algo a mais. um pai, uma mãe, um gesto, um carinho… a responsável pelo orfanato é uma freira do Rio, figuraça… tem brasileiro em tudo que é canto desse mundo. ela tinha um medidor de pressão eletrônico e um celular descolado. era ela descolada mesmo. fiz algumas fotos e tentei alegrar a criança que estava doente. me senti um idiota fazendo caretas e gesticulações que talvez uma criança criada assistindo os filmes da sessão da tarde poderia rir, mas ela, impávida, mantinha sua carinha de esvaziada e triste. que idiota eu me senti.  antes de sair do seu quarto disse em creole que ela ficaria bem e dei um beijo. quase saiu um sorrizinho. bem tímido. eu acho que eu assusto as crianças. pernilongo que é bem, não assusto nenhum. fui ajudar a freira com os medicamentos que o dono do orfanato trouxe dos EUA e ela não sabia traduzir o nome dos princípios ativos. apliquei aquele meu inglês Google Translate e ajudei a especificar umas vitaminas e outros remédios pra tosse. eu fui apresentado como publicitário, depois como fotógrafo e, depois, ao telefone, a freira disse que estava com um cineasta. aí eu vou pra galera. ela disse que eu e o médico caímos do céu. tinha um remédio que eu fiz uma tradução próxima, estilo empate técnico. era um achismo bilíngue. depois pensei que fiz isso num orfanato e acho que deveria me sentir culpado. pra mim, aquilo queria dizer que era feito de plantas. daquelas de folhas escuras. acho que era isso. minha tradução deve ter acertado uns 80%. suficiente pra passar naquelas provas do Itamaraty. aí eu fui brincar com  a molecada que tava mais alegre, pulando de um lado pro outro. o orfanato era pequeno, tinha talvez umas dez crianças. mas dez crianças, meu amigo, valem por muita confusão. minhas imitações já fazem mais sucesso. comecei fingindo que comia uma manga com casca e ela entalava na minha barriga. finjo ser piloto, dirijo um carrinho de brinquedo, corri atrás de uns quantos, e agora minhas caretas faziam até a mulher que trabalhava ali dar risada.
aí veio o abraço.
não sei se fui eu ou se foi o molequinho que eu tinha simpatizado mais, mas alguém começou uma abraço. daí veio o tsunami de amor. a freira já havia me dito que, dada a carência das crianças (algumas tem a mãe viva, mas que não pode criá-las) quando ela dá remédio pra uma que está doente, as outras, que estão boas, também querem remédio. sugeri uma aguinha colorida com açúcar fingindo medicina e a freira adorou a dica.  bom, então começo a abraçar um deles, quase coloco no colo se, de repente, todas, absolutamente, todas as crianças começam a me escalar e me abraçar e me agarrar e todos querem subir em mim e minha bermuda está caindo, pelo amor de Deus, não posso ficar de cueca num orfanato.  peço pra alguém pra segurar minha câmera, pra alguma coisa sair ilesa daquela avalanche de paixão. eu estou até comovido mas meio preocupado em alguém cair e se machucar e não me deixarem sair pra sempre. 
a freira intervém e consigo sair. ainda me despido de mais alguns, da freira com ênfase, passo o telefone do médico, prometo que ele vai atender quando ela precisar. não consigo tirar da cabeça o olhar de uma delas. ele tinha algum cisco ou problema em um dos olhos e sorria com um olho abeto e outro fechado, com um ar maroto. mas ele não estava sendo maroto. ele tinha dificuldades na vista. nos dentes. no crescimento. a freire havia me dito que um guri que aparentava uns 5 anos já tinha quase 9. o médico diz que estão subnutridas. não é aquela subnutrição das fotos apelativas africanas, das costelas salientes de crianças famintas. é outro tipo. a criança não cresce muito, fica baixa, não sorri tanto, não tem aquela energia. não consigo mais esquecer aquele olhar. onde tem acesso a água tem lavoura produzindo alimentos no Haiti. essa criança não tem o que comer enquanto a loja do posto de gasolina tem Pringles, Heinekken, Corn Flakes e o escambau. crianças esquecidas. com seus ciscos, febres e problemas nos dentes. com seu carrinho de placa de ferro carregando pedras. com o que sobou de sua energia, a espera do abraço do pai, da mãe, da freira ou do branquelo estranho com uma câmera na mão.
impotente.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Encruzilhada haitiana


Se você é da geração que assistia a televisão enquanto seus pais não tinham tempo pra te cuidar pois o governo Sarney-Collor estavam tripudiando da economia, você provavelmente deve ter visto desenhos onde alguém fazia um vudu de outra pessoa e a espetava com agulha. Eu, quando criança, uma vez, pedi a minha mãe pra fazer uns bonecos de pano dos meus irmãos. Eles são mais  velhos. Eu queria espetar umas agulhas pra ver se funcionava. E como minha mãe manjava de consertar uns furos nas minhas camisetas achei que isso fazia dela uma costureira, pessoa apta a fazer bonecos dos meus irmãos pra eu poder compensar minha condição subserviente a eles. Caçula consegue muitas coisas, mas não que uma mãe faça isso. Se talvez não fossem meus irmãos… Enfim, era só pra fazer uma introdução que o vudu existe, mas não com agulha no bonequinho. Bom, não que eu tenha visto. O vudu é a grande manifestação religiosa do Haiti. Muito semelhante ao Candomblé. Eles chamam 'vodu', tem que pronunciar esse 'o'. E mantém esse sincretismo de cultuar manifestações afro-descendentes com santos católicos. E tambor. E gente dançando. E gente encarnando. E aquela bagunça. É um barato. Eu conheço muito pouco do Candomblé pra poder falar, mas conheci um pouquinho da Umbanda. Me parece que as duas são mais organizadas que o vodu. Acredito que nelas há uma série de regras para os trabalhos serem feitos. Não que o vodu não tenha regras, mas a princípio não ficaram muito claras. Eu já chegarei no exemplo de não haver muitas regras. 
Eu já havia comentado com a galera sobre minha vontade de conhecer o vodu e comprar um tambor. Por aqui, na zona rural, é possível escutar ao longe uns tambores do vodu começando no fim da tarde, e terminando no começo da manhã. É muito tempo de batuque. Impressionante. Mas o haitiano é forte demais. Desde pequeno carregam muito peso na cabeça levando as mercadorias ao maché. Ou trabalham na roça com tecnologia do século XIX. Sem contar que pra tudo se caminha muito. Eles são fortes mesmo. Então me disseram que estava rolando um vodu ali perto e um dos nossos amigos do futebol de fim da tarde é meio manda-chuva do terreiro. Um cara simpático, joga legal. Aí facilita pro branquelão aqui. Metemos três na motoca e fomos. Era perto mesmo. De moto nem cinco minutos. À esquerda da estrada principal, uma rua de terra batida e pedras nos leva a uma casas de concreto, mal acabadas, no estilo Haiti. Crianças na rua e o som dos tambores ao fundo. É uma casa com um quintal na entrada e antes de começar a casa, tem um toldo, uma lona improvisada cobrindo o terreiro. Na entrada havia umas oferendas. Um cruz desenhada no chão, uma espada, uma garrafa com algumas ervas. Algo sim. Aquela simbologia de velas, estrelas e cruzes. Adentramos a tenda pedindo licença as pessoas que ficam em volta. Em volta de um mastro que serve pra sustentar a tenda onde mulheres com um lenço vermelho, amarelo, meio  colorido dançavam ao som do tambor. Entramos, atravessamos e nos encostamos numa beiradinha entre a parede e o chão. Havia uns três ou quatro tambores. Um deles se tocava com uma fina baqueta. O som era bom. Rápido e suingado. Até estava com a máquina, mas não consegui tirar foto. Eu nunca serei um bom fotógrafo porque fico sem graça em várias ocasiões de tirar foto. Eu estava no meio de um lugar sagrado pra eles, acabei de entrar sem ninguém me conhecer, e daí eu já saco a máquina e tiro fotos como se estivesse no circo? Fiquei na minha. Mulheres de todas as idades dançavam. Haviam outras sentadas em volta. Tinha um que estava completamente bêbado e outra que estava completamente encarnada. O André estava completamente desconfortável e já começava a me perguntar se eu não queria ir embora pra jogar o futebol do fim da tarde. Espera um pouquinho. A encarnada fazia caretas de malandragem e cumprimentava as pessoas em volta com um desdém e risada. Esticava a mão e quando cumprimentávamos retirava rindo. O bêbado era apenas um bêbado mesmo. Eles fazem uma bebida estranha com um monte de ervas de dentro e outras coisas que a Anvisa vetaria só pela aparência. Os tambores não param.  As fazem uma pequena paradinha só, mas já voltam em seguida a dançar em volta do mastro. Agora tem um homem em pé junto ao mastro. A mulher encarnada tem um facão, minha gente! É isso mesmo? Vão deixar uma mulher com jeito de malandra bêbada com um facão repleto de tétano e irresponsabilidade? Vão. A mulher apenas arranha algumas partes do corpo do senhor em pé. Alguns pontos específicos perto da costela. Devia fazer parte da simbologia daquele trabalho. Talvez afastar doença, não sei. Sei que em seguida a mulher encarnada literalmente desaba no chão. Pum! Desabou feio, do tipo que se bate a cabeça não volta mais pro plano das leis da gravidade e amigo secreto no fim do ano. Algumas pessoas arrastam o corpo estendido no chão com naturalidade para um canto. As mulheres, entre elas uma garota de uns nove anos, voltam a dançar em volta do mastro. Aqui não tem charuto, mesmo tendo um clima favorável a produção de tabaco. Por isso os tocadores de tambor fumam cigarro mesmo. Com cara de quem tá fumando charuto. Mas é cigarro. A bebida das ervas volta a passar de mão em mão, até a garotinha de nove anos dar um gole. A dança delas é bem afro, parece com jongo nosso. Na parede um quadro de jesus e alguma santa que minha ignorância bíblica não permitiu reconhecer. O André já está perguntando se não podemos ir. Acho que nem deu meia hora. Peço mais cinco minutos. Os tocadores de tambores se revezam e suam muito. O bêbado começa a brincar de encarnado. A que estava encarnada já está acordada tomando água. Nosso amigo que nos levou ao terreiro também queria jogar o futebol que deveria começar mais ou menos aquela hora e tá bom então, fomos embora, de minha parte contrariado.
Chegando no nosso alojamento nem apareceu ninguém pra jogar e ainda era possível escutar os tambores ao longe, o que me deixou mais indignado. Mas o deus dos tambores escreve certo por linhas tortas. Havia combinado com outro amigo, o Niltinho, de a noite ir a um Compa. Era sexta feira! Vamos ver a night de uma cidade de cem mil habitantes, sem luz elétrica, acesso a água, baixa escolaridade, no meio rural haitiano. Por via das dúvidas vesti minha melhor roupa! O Compa é um barzinho que toca Compa. Foi isso que eu entendi. Tem uma música haitiana, bem no estilo caribenha, que se chama Compa. Em geral podemos nos confundir facilmente entre as variantes caribenhas que, de primeira impressão, parecem iguais. Mas a dança é diferente. O Compa estava absolutamente vazio. O povo não tem poder aquisitivo pra ir em barzinho. Se bem que o preço da cerveja era o mesmo do posto de gasolina, que é o padrão geral do país. Não se paga entrada, nem nada. Era uma casa antiga de madeira, daquelas com arquitetura meio americana do Sul do país. Tem muitas dessas por aqui. Sabe aquelas casas onde o Scooby Doo procura uns fantasmas? É essa. Até que estava conservada para os níveis haitianos. Tinha uma luz amarela, uma ciaxa de som alta, com um som bom. A cerveja estava absolutamente gelada e para mim isso já era suficiente. A única alma penada no local eram duas garotas e um cara na mesa ao lado. Fora isso era o dono e o segurança da entrada. O Haiti nem é um país violento, nem se compara com São Paulo ou a Cidade do México, mas sempre tem seguranças, em geral armados, nos estabelecimentos comerciais maiorzinhos. A gente é até revistado! 
Música boa, cerveja gelada. O cara da mesa da frente começa a dançar com uma delas. No começo da dança parece fácil, de mãos dadas, um de frente pro outro, só balançam no ritmo, sem complexidade. Aí começa a maldade. Tem uma parte da música onde a mulher vira de costas e aplica o bundão na pélvis alheia. E fica ali esfregando na maior. É sexo de roupa. Tudo o que o haitiano é conservador e pudico no dia a dia eles compensam no Compa. Meu amigo já estava 'alegre' e vai conversar com a menina. Tenta puxar conversa. Não deu em nada. Eu me mantive sentado, meu creole não passa do bom dia. mas uma delas vem conversar comigo. Não entendo e preciso do meu intérprete quase bêbado. Acho que vai funcionar. Ele diz que ela quer dançar comigo. Lá vai. Ficamos naquela coisa de mão dada dançando que nem criança. Mas não rolou a maldade. Não sei se por culpa minha por não saber que parte da música eu tenho que enconxá-la de maneira afetuosamente escandalosa. Fiquei na minha. Antes da música o meu amigo tinha falado uma séria de coisas pra ela. Quando terminou ela virou e saio pra conversar com seu amigo e eu sentei na mina mesa. Pergunto: Niltinho, o que você falou pra ela? Falei que você ama ela! Deixa comigo! Tô agitando ela. Dei risada. Acho que você mandou bem. Tomais algumas cervejas e sou obrigado a usar um banheiro que não tem luz. Em geral a gente já não é bom de mira quando está iluminado, imagina no escuro. Paciência. Volto a cerveja gelada e música boa. Estou contente assim. A moça volta e, pra variar, pede pra eu pagar uma cereja que, pra variar, digo que não. O lugar já era para um pessoal mais ou menos, dentro das possibilidades, classe média local. Se vestiam bem, podiam estar em qualquer cidade ocidental. Pagar cerveja? Fica pra próxima. O pessoal acha que tem um pé de dinheiro no viveiro da brigada. A noite vai acabando, e o dono avisa que o bar fechará em cinco minutos. A impressão foi boa. Se houvesse mais gente naquele lugar deve ser bem divertido. Meu amigo ainda me disse que em outras cidades o Compa é mais animado, bem frequentado, e o povo só falta transar lá dentro. Na rua não pega bem andar sem camisa, mas pode tomar banho peladão no canal. Na rua não se vê muito casal de mão dada se beijando, mas pode transar no Compa. Tá bom, cultural é isso aí. Tem que respeitar. 
Quando voltávamos pra casa, crente que a noite tinha acabado, no meio da rodoviazinha, no único ponto que havia um poste de luz acesa, esquina com uma rua de terra e pedra, está rolando um vodu! Pára motorista! Encostamos a motoca e fomos ver. Chego na humildade branquela perguntando em creole se posso assistir. Claro que sim, fica a vontade. Depois as outras perguntas não sou capaz de responder e um deles arrisca um espanhol. Os caras foram gente fina. Nos aproximamos do vodu. No centro da roda tem um tapete com velas e vasos.Tem alguém encarnado ali. São pessoas jovens. Em volta dança de mulheres. É bem feminina essa parada. Tinha uns ingredientes no chão que as pessoas encarnadas ficavam adicionando nos vasos. Ao lado o batuque. pessoas observando e outras dançando. Já passou da meia noite e tudo é puro breu ao redor do poste. Das mulheres dançando, com suas roupas coloridas, uma delas se aproxima e vem dançar comigo. Lá vai… Como eu já havia bebido o suficiente pra achar que, olha só, eu estava enganado, eu sei dançar, eu fui lá dançar com a velha. Tem uma passo, redondamente mal feito que faço achando que estou dançando jongo. É tipo constrangedor mesmo. Só faço depois da meia-noite. Aprendi com meu brother Wander, dançarino exímio. Parti pro suíngue. O povo foi a loucura vendo um branquelo que surge do nada, aparecer e dançar com a mulher. Eu, sinceramente, acho que estava fazendo a coisa direito. Ri alto agora. É uma dança com um suíngue meio jongo, meio capoeira. As pessoas ficavam em volta, riam, olhavam incrédulas. Pensei orgulhoso: estou abafando. Ri alto de novo. Pronto, depois de cartão de visita, o povo do vodu me recebeu numa boa. Outro sujeito que falava espahol (em geral, os jovens já falam umas 3 línguas por aqui) me explicou umas coisas, mas o espanhol dele era meio tenebroso, entendi uns 60%. O cara era gente fina. Tinha uma moral ali. Os tabores seguiam firme. O povo cantando e dançando, provavelmente em dialeto afro.  Era bonito de ser ver. De repente, pum! Despenca no chão a pessoa encarnada. Segue a música, alguém ampara o corpo, tira da roda, dá água e em poucos minutos vejo a pessoa acordando, pra logo depois voltar a dançar. Se passa o mesmo com outra pessoa. Assim eu vejo umas três mulheres que estavam dançando em volta , encarnarem, dançarem, irem ao centro, fazerem alguma coisa nos seis ou sete vasos, como se fosse uma receita, e depois cair duro, literalmente no chão, e desencarnar. Depois a pessoa já estava boa. E segue tambor, segue dança, no meio do nada. O outro que falava espanhol me explicou alguma coisa que hoje era dia de receber uma entidade que era uma criança.
Agora começa a parte que eu acho meio desorganizada. Talvez uma das cenas que espero guardar pra sempre na minha memória. Uma das dançarinas em volta vai ao centro da roda e começa a recebe ruma entidade. Dá-lhe tambor, vela e toda aquela mística. De repente, quando encorpora, 'a entidade' no corpo da mulher, meio gordinha até, sai correndo no meio da rodovia e vai embora! Fora o poste, tudo está completamente, cem por cento, escuro. Não se vê nada. E o corpo encarnado fugiu! O povo sai correndo atrás da entidade fujona. Eu fui junto, lógico. O 'espírito' deu um gás ali de uns vinte, quase trinta metros. Os caras conseguiram alcançá-la e trouxeram pela braço. Foi sensacional a cena do 'fui!' que o corpo deu. As entidades aprontam no vodu. Outra mulher encarnou uma entidade. Elas revezavam entre as dançarinas em volta. Deviam haver pelo menos umas dez dançando e encarnando. Cada uma na sua vez. Uma hora haviam duas encarnadas, mexeram nos vasos, fumaram, beberam e, quando pensei que já havia visto demais naquela noite, uma delas parte pra cima da outra, pula em cima e começa a 'transar' de roupa. Mas transar forte, pura libido e pélvis pra trá e pra frente. Bizarro. Eram duas mulheres de meia idade. Alguém comenta que aquela metáfora de cópula fazia parte do rito. Eram duas mulheres simulando um sexo forte ás duas da manhã numa encruzilhada no meio do interior do Haiti. Deu né? Alguém tenta separar os corpos. Eles mexem mais no vaso. Tem alguém colocando talco lá dentro. Eles misturam um monte de coisa estranha nos vasos e não faço idéia pra que serve. Meu amigo dorme em pé. O cara que manja de espanhol está no meio da roda fazendo um trabalho de colocar um lençol enorme em cima das garotas que encarnaram e da atual encarnada. Os homens no vodu tem um papel bem secundário mesmo. Agitam o lençol, alguma mulher parece desencarnar debaixo do pano iluminado pelas velas do centro da roda. Os tambores seguem. Alguém me diz que vai até as seis da manhã. Já era quase três. Quase todas já tinham encarnado e aprontado. Melhor vazar antes que chegue a minha vez… Esperei tirar o lençol e cumprimentei o cara, agradecendo. Subimos na motoca e ela ainda falhou o suficiente pra um outro haitiano gente fina dar a partida pra gente. Uma experiência inacreditável.